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O outro mundo que sofre
27.06.2022
Com as atenções mundiais centradas na invasão da Ucrânia, é fácil não perceber que há outros países a sofrer muito com os efeitos da guerra e da pandemia, que teima em não desaparecer. Da Ásia à América do Sul, a fome e a instabilidade política estão a emergir com força redobrada e o agravamento da situação ainda está longe de parar.
 
Quase duzentos milhões de pessoas em 53 países – são estes os números da fome no Mundo em 2021, segundo a Rede Global Contra as Crises Alimentares, uma aliança que congrega a União Europeia e duas organizações das Nações Unidas, o Programa Alimentar Mundial e a Organização para Alimentação e a Agricultura. 

Isto representa um aumento de 25 por cento face a 2020, mas já se sabe que, em 2022, a situação será ainda mais grave – e ainda só vamos a meio do ano.

É claro que a pandemia de covid-19 tem uma grande quota-parte de responsabilidade nesta crise, já que perturbou muito a produção de bens alimentares e a sua distribuição. Resultado: o acesso à comida não só piorou, em especial nos países mais pobres, como os preços dos produtos aumentaram consideravelmente. Se uma inflação de seis ou sete por cento ao ano na Europa já causa dificuldades assinaláveis à população mais carenciada, que dizer do que se passa nos países mais pobres de África ou da Ásia?

Mesmo assim, a pandemia não explica tudo, nem os seus efeitos se reduzem à frente alimentar. Como diz António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, «a guerra na Ucrânia está a causar uma superaceleração de uma crise tridimensional – alimentar, energética e financeira – com impactos devastadores nas pessoas, nos países e nas economias mais vulneráveis do mundo».
Alguns desses impactos devastadores estão a ocorrer em sítios que não seriam considerados os mais prováveis à partida. Um bom exemplo disso é o Sri Lanka, que, não sendo um país propriamente rico, tinha, contudo, meios para suportar a tempestade com alguma folga. Pelo menos era o que parecia.

A quebra a pique das receitas do turismo, uma das principais fontes de rendimento do país, somada ao grande aumento dos preços do petróleo, do gás natural e dos alimentos importados, criou uma situação económica e social muito difícil, mas foi preciso uma governação muito incompetente para que ela atingisse a gravidade que agora se vê.

O Sri Lanka vive a sua pior crise financeira desde que se tornou independente, em 1948. Na prática, está falido. Não só não consegue pagar as suas dívidas (as reservas em dólares são três vezes inferiores ao que tem de ser pago este ano), como já nem sequer tem moeda estrangeira suficiente para pagar os bens de primeira necessidade que não produz. Não há eletricidade durante oito ou mais horas por dia, faltam medicamentos, e os exames escolares não são realizados porque não há papel para os imprimir. A maior parte dos seus 22 milhões de habitantes passa fome, ou está perto disso.

Isto causou uma enorme contestação popular, com milhares de pessoas a manifestarem-se diariamente, durante cerca de um mês, nas principais cidades do país, para exigir a demissão do presidente Gotabaya Rajapaksa e do seu irmão e primeiro-ministro, Mahinda Rajapaksa.
Esta família domina a política do Sri Lanka há muitos anos, mas a crise foi demais – até para eles. Depois de apoiantes do primeiro-ministro terem atacado manifestantes antigovernamentais, causando nove mortos e mais de 200 feridos, Mahinda Rajapaksa foi obrigado a demitir-se no início de maio. O seu sucessor tenta agora negociar um pacote de ajuda financeira com os principais parceiros do Sri Lanka, mas, perante a atual conjuntura internacional, é duvidoso que consiga tudo o que o país precisa, no prazo que precisa.
 
Crise no Peru 
Os países que não têm produção própria de petróleo ou gás natural são os mais vulneráveis aos impactos da guerra na Ucrânia. A Rússia é um dos principais fornecedores mundiais nesta área, o que empurrou os preços bem para cima, tanto mais que o Ocidente está a impor pesadas sanções ao setor energético russo.

Com o preço do barril de petróleo a ultrapassar largamente os 100 dólares, o Peru é um dos países que estão a ser particularmente atingidos. Desde março que há muitos protestos, que culminaram com uma greve geral dos transportes no dia 28 desse mês. Os camionistas exigiam a baixa dos preços dos combustíveis, algo que foi parcialmente alcançado quando o governo acedeu a suspender os impostos sobre estes produtos até junho.

Perante o bloqueio das principais vias de comunicação por parte dos grevistas e a violência nas ruas, que causou pelo menos seis mortes, o governo do presidente Pedro Castillo decidiu também aumentar o salário mínimo nacional em 10 por cento – e bem preciso era, porque, em março, a inflação atingiu o seu nível mais alto dos últimos 26 anos. A remuneração mínima passou assim para o equivalente a 260 euros mensais, mas grande parte dos peruanos nem isso recebe, porque quase 80 por cento dos trabalhadores são informais.

A guerra teve ainda outro efeito muito penoso para os agricultores peruanos e para a população em geral: o aumento do custo dos fertilizantes, uma vez que a Rússia é um dos principais exportadores mundiais dos nutrientes necessários para a sua produção, como é o caso da ureia (o preço desta tinha subido 22 por cento até março). Isto não só pôs em causa a rentabilidade das colheitas peruanas de exportação (uvas, mangas e papaias, entre outras frutas), como encareceu a alimentação básica da população.

Tal como acontece no resto da América do Sul, o milho é um produto fundamental da dieta dos peruanos, e a Rússia e a Ucrânia são normalmente responsáveis por 19 por cento das exportações mundiais deste cereal. No caso do trigo, a situação é ainda mais delicada, já que a quota de mercado dos dois países chega aos 30 por cento. 

Sem o “celeiro do mundo” a funcionar normalmente, os preços dos cereais sobem para níveis incomportáveis para a bolsa de grande parte dos habitantes do planeta. O índice de preços dos alimentos compilado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) indica que houve uma ligeira redução em abril face aos valores de março, mas mesmo assim o índice está quase 30 por cento acima do que se verificava há um ano. 

Assim, o economista-chefe da FAO avisa que, embora «esta pequena redução seja um alívio bem-vindo, especialmente para os países de baixos rendimentos e com défices alimentares, os preços dos alimentos continuam perto dos seus picos recentes, o que coloca um desafio à segurança alimentar global para os mais vulneráveis».
Bem pode dizê-lo.