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«O Papa Francisco tem recuperado a valorização da política»
22.05.2022
Assunção Cristas foi líder do CDS e deputada na Assembleia da República. Hoje, mais retirada, mantém funções políticas na vereação da Câmara Municipal de Lisboa e olhou para a encíclica Fratelli tutti com olhos de política. Diz-se «confortada» cada vez que o Papa Francisco fala na valorização da política, e antevê um «equilíbrio difícil» para que os políticos deixem de olhar para as sondagens na gestão dos ciclos eleitorais.
 

O que destaca desta encíclica?
É uma encíclica muito lúcida e muito corajosa, em que o Papa Francisco não ousa eufemismos, chama todos os assuntos pelos nomes, com muita frontalidade, e toca tudo aquilo que são as angústias, os problemas que neste momento atravessam a humanidade. Faz uma aplicação do que é a mensagem do Evangelho e a doutrina da Igreja ao que são os problemas e os desafios da atualidade, e fá-lo de uma maneira muito desassombrada, lúcida e corajosa.

Uma maneira que chega quase a ser cruel...
Tem um início duro, mas a Igreja também tem esta tradição de, em muitos momentos, ser um despertar de consciência, e penso que o Papa Francisco se insere nessa tradição, de querer despertar as consciências. O que lemos contra uma sociedade mais consumista, mais focada nas coisas e menos focada nas pessoas, que descarta os mais frágeis, ou uma sociedade do mundo digital em que se acha que se substitui a relação através da distância no digital, quando na verdade não é possível... tudo isso é uma atualização do que a Igreja veio dizendo sempre em momentos diferentes para nos despertar sobre os caminhos que estavam a ser tomados. Agora, como noutras ocasiões, é a ideia da esperança e de que é possível, aliás o Papa Francisco diz várias vezes que isto não é uma utopia, é possível chegar lá com esperança, empenho de todas as pessoas de boa vontade. Acho que essa é outra nota da encíclica, é uma encíclica que, sendo dirigida aos católicos em particular, é uma encíclica feita para poder ser lida e reconhecida por todos os homens de boa vontade. O Papa Francisco, aliás, diz isso mesmo, é uma encíclica frontal, porque diz isso de uma forma muito expressa, e em vários momentos diz isso mesmo, que a abertura aos outros, a todo o mundo, é essencial para se construir uma fraternidade global, e também diz que não quer que se percam as identidades, que as raízes são fundamentais para que essas identidades se possam relacionar num espírito de amor e tolerância e de reconhecimento recíproco daquilo que é a diversidade que só enriquece a humanidade, é uma marca dessa encíclica.

Uma das expressões que o Papa recupera é a da «caridade política». Concorda que, de facto, a política é uma das formas mais preciosas de caridade»?
O Papa Francisco tem recuperado a valorização da política e das pessoas que exercem função política. Em vários momentos tive oportunidade de me referir a isso e acho que é muito importante, porque a política é mal vista, a função política é mal vista, e o Papa Francisco relembra que, quando exercida com o espírito do serviço e do amor ao próximo e da procura do bem comum, é uma forma superlativa de caridade, é uma forma sublime de caridade, usa aas duas expressões, e convida expressamente à revalorização da política. Até dá exemplos muito concretos e explícitos quando diz que é importante apoiar alguém que está com fome indo diretamente ajudar a resolver esse problema, mas é tão ou mais importante quem tem políticas que ajudam a criar emprego, porque resolvem de uma forma mais definitiva o problema da pobreza. Ele faz um elenco até exaustivo dos grantes temas da humanidade que devem preocupar os políticos. Refere muitos temas e apela a que se dê importância à função política e se valorize um trabalho que, se é feito na medida da entrega e do amor ao próximo, é uma forma de caridade, e, de acordo com o exemplo do Papa Francisco, de especial eficácia. E depois elabora, na esteira de S. Tomás de Aquino, elabora sobre os vários tipos de amor, partindo de coisas que parecem mais abstratas, como a valorização das instituições para que as coisas possam funcionar melhor e por isso dar frutos com mais eficácia. Acho que o Papa Francisco tem tido mais esta preocupação de valorizar a ação política e os políticos que procuram que a sua ação seja fiel ao Evangelho e acho que isso é muito importante, porque há poucas vozes a falarem da importância da política. É na política que se tem de resolver as grandes questões da humanidade, que a economia não resolve sozinha, ou que individualmente ninguém conseguirá resolver.

Enquanto política, revê-se nesta descrição da política enquanto missão?
Eu revejo-me e não só me revejo como me sinto confortada. Eu ainda tenho ação política através da vereação da câmara de Lisboa, mas claramente já não com a intensidade diária que tive nos ultimos 10 anos, mas todas as vezes que o Papa Francisco dirigiu uma palavra para sublinhar a importância da ação política e também dar pistas e aconselhamento e direção para como ela deve ser exercida, senti-me sempre muito justificada, muito acarinhada e muito acompanhada num trabalho que é mais que um trabalho, é um serviço. É uma preocupação e continuarei a dizê-lo, que a política não é profissão, é serviço, é entrega e isso tem muitas exigências, como é evidente, mas as palavras do Papa Francisco para mim foram sempre de grande conforto, ânimo e estímulo.


E acho que, olhando para a generalidade da realidade política em Portugal, o sentido de missão está presente?
Eu cruzei-me com muitas pessoas, e com pessoas que pensam, politicamente, de maneiras muito diferentes da minha, mas nas generalidade dos casos, e quem sou para estar a julgar o que cada um faz na sua consciência, nas generalidade dos casos acho que as pessoas são bem intencionadas e procuram, efetivamente, de acordo com os caminhos que prefilham, aquilo em que acreditam, procuram um bem comum, resolver problemas que estão identificados, e que todos reconhecem que têm de ser tratados e resolvido. Os caminhos para lá chegar são diferentes, porque o posicionamento e as ideologias são diferentes. Mas isso não quer dizer que as pessoas estejam de má fé, acho que a generalidade de pessoas que exercem a ação política exercem-na porque entendem que usam o seu tempo e vida para algo que tem a ver com a construção do bem comum, com a interpretação que cada um lhe dá, mas com algo que é para todos, e não apenas para alguns. Com certeza que, como em tudo, haverá uns mais empenhados e outros menos, uns com melhores intenções, outros com outro tipo de intenções, concorrenciais a esta, mas essa é uma análise que eu não posso nem consigo fazer. O que posso dizer é que, ouvindo, acho que há muitas pessoas que estão pelas razões certas. Haverá outras que talvez não, mas não posso de forma nenhuma ser eu a dizer ou julgar.

O Papa fala na necessidade de não ligarmos às sondagens, mas a procura do bem comum. E em ano de eleições temos sempre mais obras, ou pelo menos parece que sim. Há alguma mudança que precisa de ser feita?
Há uma dificuldade que é inerente à própria democracia: ela funciona com ciclos eleitorais, e as pessoas querem sentir que o seu voto é útil, que fez diferença e que no período dos mandatos conferidos através desse voto, alguma coisa muda. Isso às vezes é muito difícil de gerir, até um bocadinho angustiante, porque há uma pressão grande para ter resultados dentro daquilo que são os ciclos eleitorais, que é a avaliação normal e regular da ação política através do povo – não nos podemos esquecer que o poder está no povo – mas depois é difícil fazer esse equilíbrio com as coisas que não podem ser feitas em 2, 3 ou 4 anos, e precisam de mais tempo. Esta lógica o Papa Francisco diz, é ter uma perspetiva de longo prazo e pensar nos que hão de vir, e não apenas nos que estão agora, até cita a nossa CEP num documento em que fala que somos habitante da terra e temos de deixar o planeta para os que nos vão suceder, mas esse é um equilíbrio muito difícil, porque a verdade é que não há ação política com eficácia sem eleições bem sucedidas. Portanto, ter muito boas intenções e uma visão de longo prazo, mas que ninguém compreenda no tempo próprio que é para dar confiança e gerar mandatos, é difícil... não é impossível, mas tem de haver uma preocupação de combinar as duas coisas, porque as pessoas precisam de sentir resultados também no seu prazo e no seu tempo, e isso às vezes não é fácil de ter, e uma visão a médio e longo prazo por vezes pode significar um insucesso no curto prazo. Ora com esse insucesso no curto prazo também não é possível chegar ao médio e longo prazo...

Mas por vezes há assuntos mais unânimes que pediriam os tais pactos de regime, ou consensos maiores...
Nem sempre é difícil, e eu volto a este ponto. Apesar de as pessoas clamarem por isso, por esses entendimentos, na verdade depois a diversidade e o envolvimento de todos na construção dessas coisas não é fácil, é difícil e as pessoas querem resultados de curto prazo, que alguma coisa no tempo em que votam. O grande dilema na democracia, e que numa era digital e de redes sociais, corremos o risco de matar própria democracia, e o Papa Francisco fala disso, por causa dos movimentos radicais, tem a ver com isso, com uma certa consistência         na política e nas políticas não ser compatível com respostas fáceis e imediatas, que secalhar outros setores menos escrupulosos, desses populismos que grassam um pouco por todo o lado, e com filiações partidárias diversas, esses acabam por aparentar soluções fáceis e rápidas para coisas que não se conseguem fazer, e o problema é que têm sucesso.

O Papa avisa muito para o receio desses movimentos populistas. Há. De facto, uma necessidade de a política recuperar o seu espírito de missão para poder combater esses movimentos que se começam a instalar?
Penso que é muito importante conseguir, através do que é uma política séria, feita de bom senso e de realismo na resposta à complexidade dos problemas, conseguir associar uma dimensão de esperança que permita que as pessoas adiram a esta política séria, mais moderada e que não promete aquilo que não pode prometer, em detrimento de soluções radicais e aparentemente fáceis, que depois na prática não o são, mas que conseguem, porque simplificam de tal forma o discurso para os problemas, encontrando bodes expiatórios e causas que colhem bem numa estratégia de comunicação, conseguem levar avante. Isto é difícil, mas tem a ver com a sua pergunta anterior, com a lógica do curto e doo longo prazo, e a lógica da seriedade e do imediatismo, manipulação e maquilhagem das coisas e uso do mundo digital em favor de tudo isso. Hoje é o mundo digital, mas o passado mostra-nos que já aconteceu o mesmo sem mundo digital, o que prova que o ser humano é exatamente o mesmo desde os primórdios, com todas as suas fragilidades e qualidades, inquietudes e os problemas vão-se diversificando ao longo da história, mas na génese está sempre  o ser humano.

Teve algum feedback de pessoas dentro do espetro político?
Não lhe consigo responder, porque no quadro em que me movo agora, que é o da Câmara Municipal, neste momento nem nos reunimos presencialmente, reunimos à distância, o que não proporciona outras conversas.

Mas será uma encíclica que pode fazer eco?
Sim, acho, e acho que seria interessante que, mesmo não crentes, atores políticos, das várias áreas partidárias, porque tenho a certeza que muitos se iriam rever em muito daquilo que o Papa Francisco refere, e isso poderia ajudar a criar algumas pontes.

 
Entrevista: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna e Lusa
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