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​O Papa no Iraque, a terra de Abraão
04.03.2021
O Papa Francisco inicia amanhã, dia 5, uma visita história ao Iraque. É a primeira vez que um Papa visita o país, depois da tentativa falhada de João Paulo II em 2000. Francisco não quer «desapontar o povo pela segunda vez», e vai, mesmo com avisos dos epidemiologistas por causa da pandemia a aumentar no país e o ataque a uma bases da coligação dos EUA com o estado iraquiano com rockets nos últimos dias. «Há já algum tempo que quero conhecer aquele povo que tanto sofreu, e conhecer a Igreja martirizada», disse o Papa Francisco, o primeiro pontífice a visitar a terra de Abraão, figura importante nas três maiores religiões monoteístas: Cristianismo, Judaísmo e Islamismo.

© Vatican News
Em virtude das circunstâncias, alguns questionam o timing da visita de Francisco, considerando os riscos envolvidos, mas são muitos os que elogiam esta decisão, como é o caso do Pe. Thabet Habeb Youssef, da Igreja Caldeia, que está em comunhão com Roma, que recorre a uma imagem que é cara aos iraquianos por várias razões, citado pela Rádio Renascença. «Ainda na quarta-feira o Papa disse que vai ao Iraque e que não vai deixar o povo à espera. Precisamos de um homem forte, com a fé de Abraão. Quando Deus disse a Abraão para ir, ele não pensou nos perigos, partiu simplesmente. Também o Papa quer visitar diretamente o Iraque, sem quaisquer cálculos e sem medo. Isto é muito bem-visto pelos cristãos no Iraque, que esperam a visita de um Papa sem medo, com coragem», afirma.
 

 
Na mensagem que enviou ao povo iraquiano antes da sua partida, o Papa assumiu-se como um «peregrino da paz à procura da fraternidade». «Venho até vocês como peregrino de paz, para repetir: "Sois todos irmãos" (Mt 23,8). Sim, venho como peregrino da paz em busca de fraternidade, animado pelo desejo de rezar juntos e caminhar juntos, também com irmãos e irmãs de outras tradições religiosas, unidos pelo pai Abraão, que reúne em uma só família muçulmanos, judeus e cristãos», refere o Papa na sua mensagem vídeo.
 
Uma terra cheia de história
A região entre os rios Tigre e Eufrates, historicamente conhecida como Mesopotâmia, é frequentemente chamada de berço da civilização. Os Cristãos do Iraque são uma das mais antigas comunidades cristãs constantes do mundo. O Cristianismo foi levado para o Iraque no séc. I. É este legado que o Papa Francisco vai visitar, num território que, apesar desta história, viu diminuir drasticamente o número de cristãos em virtude da guerra com o DAESH que, na última década, dizimou por completo a comunidade cristão, que começa agora, lentamente, a retornar aos seus locais de origem. Segundo dados da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, em 2003, havia cerca de 1,4 milhões de cristãos no Iraque, mas estima-se que hoje sejam cerca de 250 mil, uma diminuição de mais de 80% em menos de duas décadas.
 
Dentro do país, as confissões cristãs são várias, conforme se mostra abaixo.

gráfico Fundação Ajuda à Igreja que Sofre 
Os territórios do Iraque de hoje são conhecidos através da Bíblia e acredita-se que o paraíso do Livro do Génesis tenha sido localizado no Iraque de hoje. O mesmo acontece com a construção da Torre de Babel, o dilúvio de Noé, a terra natal de Abraão – Ur na Caldeia, o encontro de Jacob e Raquel, a cova dos leões, onde Daniel estava preso, a fornalha ardente, onde os três jovens hebreus foram colocados por Nabucodonosor, rei da Babilónia, que mantinha os Judeus em cativeiro, os episódios do livro de Ester, a atividade dos profetas Amós, Ezequiel, entre muitos outros acontecimentos descritos no Antigo Testamento.
 
São estes os destinos do Papa Francisco desde que chega, dia 5, até segunda-feira, dia 8, altura do regresso a Roma.
 
Programa recheado de momentos únicos
Um dos pontos em comum em quase todos os pontos no itinerário do Papa são os testemunhos de iraquianos, não apenas cristãos, mas de várias religiões e etnias. O Papa vai para ouvir, sabendo que o que ouvir vai também receber eco mediático em virtude de todos os jornalistas que o irão acompanhar, presencialmente ou pela internet.

© Fundação AIS 
A viagem do Papa começa em Bagdade, capital do país, esta sexta-feira, onde decorrem encontros com o presidente do Iraque, autoridades políticas e representantes da sociedade civil, antes do primeiro encontro com os membros da comunidade católica, na catedral de “Nossa Senhora da Salvação” – onde 48 pessoas foram mortas em 2010.
 
No sábado, o Papa viaja até Najaf, para a visita de cortesia ao grande Aiatola Sayyid Ali Al-Husayni Al-Sistani, seguindo-se o encontro Inter-religioso na Planície de Ur. Este é o local onde se pensa que Abraão terá nascido, de onde Deus lhe pediu que saísse a caminho de Caná. Em entrevista ao site Vatican News, a Ir. Grazia Papola, biblista e professora de Sagrada Escritura no Instituto de Ciências Religiosas de Verona, explica que o local tem «uma importância mais teológica que histórica», já que é muito difícil reconstruir os passos de alguém que terá vivido em 1800 a.C. O encontro terá testemunhos de dois jovens cristãos, uma mulher da religião mandeísta e um muçulmano.
 
Ainda no sábado, de regresso a Bagdade, o Papa preside à Missa, em rito caldeu, na Catedral de São José, que em 2010 foi alvo de um ataque terrorista da Al-Qaeda. A comunidade caldeia (rito oriental da Igreja Católica) no Iraque reza na mesma língua de Jesus, o aramaico, e o porta-voz do Vaticano, cita a Agência Ecclesia, sublinhou que Francisco será o primeiro Papa a presidir a uma Missa neste rito, na qual estará acompanhado pelo cardeal Louis Sako, metropolita de Bagdade dos Caldeus.
 
Domingo, dia 7, o Papa irá até ao Norte do Iraque, a Mossul, uma das áreas mais atingidas pelo Daesh, local onde irá proferir uma oração pelas vítimas da guerra. Antes disso, estará em Erbil, onde terá um pequeno encontro informal com o presidente da região autónoma do Curdistão Iraquiano, onde se localizam grande parte dos cristãos iraquianos, uma área que tem sido fustigada por anos de perseguição, anteriores ao Daesh.
 
Depois de Erbil, segue de helicóptero para Mossul, onde irá realizar uma simbólica oração de sufrágio pelas Vítimas da Guerra no ‘Hosh al-Bieaa’ (praça da igreja). Este local, na capital administrativa da província bíblica de Nínive, tem quatro igrejas que foram danificadas ou destruídas pelo autoproclamado Estado Islâmico. Nesta planície, estima a Fundação AIS, mais de 20 mil famílias cristãs fugiram durante a guerra com o Daesh, e decorre agora um projeto de reconstrução, promovido pela mesma fundação, para o qual já foram alocados mais de 48 milhões de euros em donativos de benfeitores de todo o mundo, e que já permitiu que cerca de metade das famílias tivesse podido regressar ao local de onde foram forçados a partir e tivessem visto as suas habitações reconstruídas, assim como algumas estruturas eclesiais.
 
A viagem prossegue com uma visita à comunidade de Qaraqosh, na Igreja da Imaculada Conceição, que também tinha sido destruída pelos jihadistas. Em agosto de 2014, a catedral foi vandalizada, profanada e queimada por milícias autodenominado Estado Islâmico: parte da torre do sino foi demolida, as estátuas decapitadas, a igreja queimada, móveis, registos e livros sagrados jogados à fogueira no pátio e o coro usado como campo de tiro. A reconstrução, com apoio da Fundação AIS, recomeçou há um ano, e o espaço está quase pronto para acolher o Papa.

© Fundação AIS
Depois de Qaraqosh, o Papa regressa a Erbil para uma missa no Estádio “Franso Hariri”, com participação prevista de 10 mil pessoas.
 
A celebração vai contar com a exposição da imagem de Nossa Senhora de Karemlesh, danificada pelos terroristas do autoproclamado Estado Islâmico.
 
Dia 8, segunda-feira, o Papa regressa a Roma pela manhã, com a habitual conferência de imprensa no avião, não tendo mais compromissos públicos agendados no país, com exceção de uma pequena cerimónia de despedida, em privado, com o Presidente da República iraquiano.

Texto: Ricardo Perna
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