Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
O poder do ócio para a criatividade
17.05.2021
O caro leitor e eu, que assino este itinerário, temos criatividade; os jovens têm igualmente criatividade, e todos os seres humanos também. Então, porque será que a criatividade não flui facilmente? Antes de nos aproximarmos da resposta, importa fazer aqui e agora uma breve distinção. Ao contrário do que muitos pensam, ócio não é exatamente o mesmo que tempo livre. O comummente chamado tempo livre é o tempo restante, aquele que sobra depois das obrigações pessoais, sejam elas académicas, profissionais ou domésticas. Esse momento de descanso é, sem dúvida, um alicerce valioso, que investido de forma adequada pode ser altamente gratificante ou pode levar-nos ao maior tédio. Tudo depende de como o utilizamos.

Ora, perante a consequente perda de valores e liberdade, o ócio vazio (um bom exemplo disso está em passar horas a fio a ver séries no computador ou ter os olhos fixos no telemóvel e os dedos a deslizar pelo ecrã, alternando o WhatsApp com as redes sociais), conjugado com uma vida carregada de tensão (em última análise, por causa da pandemia), leva-nos cada vez mais a procurar encontrar ócios saudáveis e edificantes.
Na realidade, a criatividade aumenta quando a pressão que o tempo exerce sobre a vida diminui. Por um lado, a disposição frente ao tempo, isto é, a vontade de pensar devagar, possibilita processos cognitivos mais vastos, pensamentos mais abstratos, e, naturalmente, uma maior flexibilidade. O simples facto de se caminhar pela natureza ou de se realizar qualquer atividade que nos desconecte contribui para aumentar a criatividade e para o aparecimento de novas e originais ideias. Por outro, na confusão das rotinas diárias não se consegue ter tempo para criar, para se iniciarem caminhos novos e atraentes. Por isso, quando as pessoas se sentem ameaçadas e pressionadas procuram resguardar-se em formas de pensar já vividas, padronizadas e, portanto, muito pouco criativas.

No primeiro caso, o chamado ócio criativo é essencialmente uma forma de ser, um estado gozoso da alma, uma condição afortunada que possibilita ser feliz durante a realização de atividades escolhidas livremente. Aí desenvolvem-se capacidades, favorece-se o equilíbrio pessoal e enriquece-se a experiência, preenchendo a vida com conteúdos relevantes e dá-se ao tempo livre uma dimensão elevada de enriquecimento pessoal. O segundo define-se como ócio passivo que se traduz nas ocupações lúdicas onde não se cria nem se impulsiona nada, e que, simplesmente, se desfruta como mero recetor. É aquele tempo totalmente desperdiçado, ao qual não lhe damos nenhuma utilidade especial. A chamada “perda de tempo”.

Na vida em família, os filhos têm de ter desde muito pequenos a ideia clara de que estar desocupado não é estar sem fazer nada. Por isso é tão importante educar e formá-los para que façam do tempo livre um espaço que lhes proporcione recursos, para que o seu desenvolvimento seja integral e pleno. Que os levem a adquirir hábitos de vida saudáveis, que lhes permitam vislumbrar e construir o seu projeto de vida. Neste sentido, a principal função dos pais é dar-lhes a conhecer, desde a infância sem esperar que cheguem à adolescência, diferentes alternativas de modo que cada criança possa desenvolver entretenimentos e hábitos de acordo com os seus gostos e preferências (dons e talentos).

Voltando à pergunta, à infinita capacidade criadora que o homem possui, há que afastá-la da rotina do pensamento repetitivo e improdutivo e submetê-la ao ócio criativo.