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O problema da coerência
31.07.2018

“Bem prega Frei Tomás, faz o que ele diz, não faças o que ele faz”. O ditado, bem antigo, vem sempre à baila quando encontramos pessoas que, pregando por determinada posição ou opinião, se vem a verificar que, na sua vida, fazem o contrário do que pregam. A reflexão surge a propósito do caso mediático dos últimos dias que conta a história de Ricardo Robles, um vereador do Bloco de Esquerda que conseguia, ao mesmo tempo que discursava na câmara de Lisboa sobre o problema da especulação imobiliária, estar a adquirir e a hipervalorizar um imóvel exatamente no centro da cidade.

O caso é tão grave que levou à demissão do vereador Ricardo Robles, por iniciativa própria, embora algumas das principais figuras do seu partido tivessem tentado suavizar a questão, afirmando não existir incompatibilidade entre o que Ricardo Robles dizia enquanto vereador e o que fazia enquanto proprietário. Como se fosse possível, hoje em dia, apagarmos da memória das pessoas o que está para trás, e justificarmos o injustificável apenas com o uso de chavões e palavras caras que apenas desviam a atenção.

Não é possível, e não apenas Ricardo Robles se devia demitir, como fez, mas muitos outros políticos, administradores, burocratas, dirigentes de futebol, pais, mães ou filhos deveriam assumir as responsabilidades pelos atos de incoerência que cometem.

Sim, não são apenas os detentores de altos cargos que podem cair na armadilha da incoerência. Todos nós, se não estivermos atentos, podemos cair nessa tentação, particularmente na era da internet, onde muitos assumem uma vida dupla, a real e a virtual, como se fossem qualquer coisa de muito diferente, como se as posições que defendo nas redes sociais não me comprometessem de forma alguma na minha vida real, e vice-versa.

Enquanto pai, filho, empregado ou empregador, aquilo que eu sou deve ser um espelho daquilo que eu faço, do que penso e do que digo. Só assim teremos credibilidade para podermos assumir posições e sermos ouvidos. Se eu falo muito bem, mas destruo o que digo com as minhas ações contrárias, mais cedo ou mais tarde perco a minha credibilidade, e isto é mais importante para quem desempenha cargos onde o exemplo é essencial, sejam eles políticos, administrativos ou familiares.

Eu posso dizer ao meu filho que fumar é errado, e a seguir puxar de um cigarro? Eu posso dizer ao meu filho para ter cuidado a conduzir, e a seguir passar um sinal vermelho no trânsito? Eu posso dizer que defendo os moradores de uma zona, e depois encontrar forma de desocupar casas de um prédio que comprei a preço de saldo a uma instituição pública e depois vender por milhões a mais? Eu posso dizer aos meus empregados que eles têm de apertar o cinto porque a situação está difícil, e depois desperdiçar dinheiro em luxos todos os dias?

A coerência é, talvez, das coisas mais importantes que Jesus nos ensinou. Na cruz, ele mostrou que o Amor é coerente, e Ele foi a maior prova de coerência que o mundo alguma vez viu. Até ao fim, explicou que nos amava, e amou, sem receio de perder a vida. Saibamos aprender com os exemplos de coerência que temos à nossa volta, e saibamos acabar com as incoerências que destroem a nossa sociedade.