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O que importa é dar vida aos anos e não anos à vida
11.07.2022
Apesar da crescente visibilidade social das pessoas mais velhas no mundo, muitas vezes a ancianidade tanto é temida como desprezada. Mais parece que a sociedade que nos ajuda a ser adultos não nos quer preparar para ser idosos. Nesta polaridade predominam certos estereótipos que associam as pessoas mais velhas à falta de capacidades intelectuais, ou identificam-nas como pessoas antiquadas. Ouve-se que as suas condições e o seu estilo de vida contribuem pouco para a vida agitada da sociedade. O que faz com que os media, sob pressão da opinião pública, apenas exponham o que a sua lente distorcida observa: pessoas jovens, bonitas e saudáveis. O resultado desta exaltação da jovialidade e da beleza tem sido a marginalização e estigmatização dos mais velhos: decadência, fragilidade, atitude infantil, mau humor e perda de vigor.

Convém deixar claro que envelhecer bem não é uma questão de sorte. Tal como viver, envelhecer é uma missão complexa, difícil e, por vezes, até corajosa. Tal como existem muitas formas de viver, destaca-se uma ampla variabilidade de modos de envelhecimento. Depende, claro está, dos estilos de vida seguidos nas etapas anteriores.

Como premissa, podemos afirmar que a velhice não é uma doença e a muitas das pessoas em idade avançada não estão doentes, não são dependentes, nem podem ser consideradas improdutivas por já não se encontrarem no mercado de trabalho. Nem tão-pouco devem ser tidas como um fardo para a sociedade, pois proporcionam apoio financeiro quando os filhos precisam, cuidam dos netos para que os filhos possam ir trabalhar e são cuidadores dos seus cônjuges. Muitas vezes, até se voluntariam em hospitais e associações, prestando apoio e servindo em diversas áreas.

Notemos que nesta fase da vida pode-se ser mais feliz se o pensamento se fixar em ajudar os outros. É bom e sadio contar a história de vida e as experiências sentidas, não esquecendo as competências aprendidas ao longo da vida e tudo o que se gostava de ter feito, mas que, por diversos acasos, como a falta de tempo, por exemplo, acabaram por não deixar concretizar. Em todo o caso, o envelhecimento deve ser visto não como uma fase de declínio, mas como um período de crescimento. Assim, neste plano o que importa é dar vida aos anos e não anos à vida.

O fenómeno do aumento da esperança de vida regista uma vida mais longa, porém, partilhada com netos, filhos, avós e bisavós. O facto de se viver mais anos permitiu que os adultos mais velhos tivessem tempo suficiente para conhecer os seus descendentes, criando um vínculo intergeracional. Destas relações, as que têm despertado mais interesse são as dos avós e dos netos. Os avós conseguem dar um sentido de continuidade e pertença à família, tão necessária na construção da identidade individual.

Do meu ponto de vista, considero que há uma certa tendência nos seres humanos para rejeitar, por uma razão ou por outra, tudo o que se considera diferente. No entanto, este reducionismo, que distorce o processo de envelhecimento, é um princípio de degradação da pessoa humana. Porém, é possível mudar esta visão pessimista da velhice. Reconhecer que a família e a sociedade precisam dos mais velhos é o primeiro passo para lhes dar o lugar como protagonistas na construção de uma sociedade melhor, mais justa e muito mais humana.