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O regresso ao futuro
17.09.2018
Lembro-me, com se fosse hoje, do meu primeiro dia de aulas, numa Escola Primária do Bairro Económico de Braga, onde a professora Ângela me recebeu, e às minhas colegas, com uma ternura que ainda recordo com emoção.
O caminho para a escola, cerca de 15 minutos, era feito a pé, juntando-se cada vez mais colegas à medida que nos aproximávamos do edifício tipicamente Estado Novo, datado de 1943.
Era ainda o tempo de “os rapazes para um lado e as raparigas para o outro”, embora o recreio fosse comum.
Era também ainda o tempo em que alguns colegas iam descalços. E já estávamos nos últimos anos da década de 60 do século passado.
Mas, de regresso ao primeiro dia, revivo o coração apertado de uma menina loira de seis anos de idade, com a sua bata branca imaculada, sapatos novos e transportando na sua pasta todos os sonhos do mundo. Essa menina era eu.
Ano após ano, vivi a excitação do regresso às aulas depois de três longos meses de férias. O reencontro das amigas e dos amigos. Os novos livros. Novos professores.

O que terá mudado desde esse tempo?
Os sonhos, certamente que não. Os receios dos primeiros dias, também não.
Mas como olham hoje as crianças para a Escola? Qual a sua relação com os professores? Como se ligam hoje as famílias e a Escola?
Vivi um tempo de transição, com o epicentro em 25 de abril de 1974, que vivi com 12 anos de idade. Conheci, portanto, uma Escola antes e depois da Revolução.
Da imagem de infalibilidade e de omnisciência dos professores – pré-25 de abril – passou-se à crítica e ao questionamento constantes, frutos da Revolução.
Mais de quatro décadas depois, como se relacionam hoje professores e alunos e, sobretudo, que ensino partilham?
O que espera, ano após ano, milhares de crianças que iniciam a sua vida escolar? Que sonhos vão ver concretizados?
Em cada setembro, renasce a esperança. E muitas perguntas. O que vou ser? Serei capaz? Como vou conseguir?

Numa época de ensino generalizado, a verdade é que se acentuam cada vez mais as diferenças sociais. O nível financeiro de cada família determina o tipo de escola que se frequenta. Quem tem recursos financeiros, mesmo a custo de muitos sacrifícios, prefere, normalmente, o ensino privado, garantia de melhores condições de ensino.
Na verdade, a deterioração do ensino público está a fazer transitar para o privado cada vez mais alunos, obrigando mesmo a grande esforço financeiro de muitas famílias, que preferem a garantia de estabilidade aos sobressaltos constantes das escolas públicas, com os já comuns casos de violência, as greves e a instabilidade da colocação de professores. 
Este ano letivo não vai ser muito diferente.

Apesar de algumas exceções, na maioria dos casos, alunos, pais e professores vão continuar a comportar-se como grupos estanques. As famílias encaram muitas vezes os professores como inimigos, não hesitando em confrontá-los, mesmo com recurso à violência, à menor contrariedade vivida pelos alunos.
Do tempo em que o professor tinha sempre razão, passou-se ao extremo oposto.
Estaremos a agir corretamente, evitando a todo o custo qualquer contrariedade aos nossos filhos? Ou estamos a construir uma bolha que acreditamos ser de segurança, mas que, na verdade, só lhes vai criar inseguranças?
Os tropeções, e até as quedas, fazem parte do percurso de vida. Será mais sensato ensiná-los a levantarem-se.
Vale a pena, talvez, recordar estas palavras de Fernando Pessoa: «Pedras no caminho? Guardo todas. Um dia, vou construir um castelo.»
Bom regresso às aulas. Ou melhor, bom regresso ao futuro!