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«O risco de ser muito mau ser velho em Portugal é muito grande»
16.10.2020
Manuel Caldas de Almeida é vice-presidente da União das Misericórdias Portuguesas e defende que a pandemia de COVID-19 veio acelerar a necessidade de repensar tudo no que diz respeito ao trabalho com os idosos em Portugal. Defende uma maior integração dos ministérios da segurança social e saúde, critica a falta de um plano transversal de cuidados e sugere alterantivas par os cuidados que existem hoje em dia.


Que lições veio a pandemia trazer?
A lição mais importante é que as coisas que vínhamos sentindo como importantes fazer na reformulação do cuidado às pessoas mais velhas tornaram-se prementes. Começámos a perceber que há que dar uma volta geral ao que é a vida das pessoas mais velhas, e o suporte à vida das pessoas mais velhas.
Tudo isto veio colocar a nu que a realidade dos lares está praticamente desfasada que aquilo que as pessoas que lá estão dentro precisam. Para além disto, achamos que, globalmente, a estrutura de apoio aos idosos está desadequada em relação ao que eles precisam. Hoje em dia as pessoas querem é estar em casa. Nós pensamos agora que a estrutura base de apoio às pessoas mais idosas é em casa, e essa estrutura base tem de deixar de ser o “cama, mesa e roupa lavada”, ou seja, ir lá levar as refeições, arranjar a casa e dar algum apoio, mas ser virada numa outra perspetiva que é a pessoa com mais anos, seja qual for a sua circunstância, poder ter acesso à qualidade de vida que teve durante toda a sua vida.

Mas o primeiro objetivo têm de ser os cuidados básicos...
Obviamente que o primeiro passo é suprimir as necessidades básicas, pois ninguém quer ir ao cinema se estiver cheio de fome, mas qualidade de vida é poder estar com os amigos, é tudo aquilo que durante a vida nos dá qualidade. Os afetos, os amigos, a família, poder ter algumas atividades extra, como cinema, ir ao futebol ou andar de bicicleta, que permita que os idosos tenham objetivos e que estejamos a cumprir coisas. O que quero dizer com isto é que temos de nos preparar que o Apoio Domiciliário possa dar esse tipo de estrutura. Casas adaptadas, em que seja mais fácil viver, mesmo com alguma dependência física ou demência. Pensamos que na fase 1 e até mesmo na fase 2 é possível uma pessoa viver sozinha, com tecnologia que temos, porque podemos dar vigilância à distância. Assim como em relação à parte física, eu hoje em dia acho que é possível uma pessoa com muitos anos, com perda de mobilidade e dificuldades físicas, manter a tal qualidade de vida que eu estava a dizer, porque há scooters elétricos que permitem à mercearia mesmo com dificuldade de marcha, há frigoríficos que chegam ao fim da semana e fazem a lista das compras e mandam automaticamente para o supermercado que as envia para casa... neste momento, temos hipótese de fazer  do Apoio Domiciliário uma coisa completamente diferente, virada para a qualidade de vida das pessoas, e que seja muito flexível, que atenda desde a pessoa que está autónoma e só tem muitos anos até à pessoa que tem demência ou uma grande dependência física, mas que consegue estar em casa.

Também há muitos idosos que passam o dia em centros de dia...
Achamos que os centros de dia são uma aposta muito interessante numa ótica completamente diferente do que existe hoje em dia. Para nós, os centros de dia têm de ter um horário alargado, porque um casal ter o pai em casa com demência implica que para eles irem trabalhar ele tem de estar no centro de dia das 08h às 20h, e não sair às 15h, quando as pessoas estão a trabalhar, e depois aproveitar esses horários flexíveis para o centro de dia ter funções de estimulação, neuroestimulação, manutenção, personal trainer, fazer uma série  de coisas que as pessoas hoje em dia querem e é importante que tenham.

Vocês conhecem a população que habita os vossos lares?
Precisamente por tudo isto que aconteceu, fizemos um estudo com duas universidades sobre o que é a população dos lares. O que veio era o que já estávamos à espera e vai ser o futuro: as pessoas que estão nos lares são muito velhas, com mais de 85 anos, 85% com dependência física muito grande, com duas ou mais doenças crónicas, e encontrámos 50% com demência e 70% com defeito cognitivo, através da aplicação de uma bateria de testes. Ou seja, quem vai para os lares vão ser pessoas doentes, muito frágeis, e cada vez isso vai acontecer mais, porque cada vez vão ficar melhor em casa até fases muito adiantadas.
Aquela ideia do lar como estrutura residencial ou hoteleira, onde as pessoas estão ali para conviver, já não existe, porque as pessoas que estão bem fisicamente ficam em casa, na maioria. Eu posso dizer, na minha misericórdia, há uns anos, cada vez que tínhamos uma vaga no lar tínhamos uma pressão enorme de centenas de pessoas a querer entrar, e neste momento temos pressão, mas de 8 ou 9 pessoas, nada mais. Isto porque temos um bom Apoio Domiciliário e as pessoas estão bem em casa.

Arrisco dizer que um idoso em boas condições que vá para um lar hoje em dia arrisca-se a deteriorar-se mais rapidamente porque a maioria da população dos lares estará sempre em situação pior...
É verdade, e por isso é que achamos que temos de pensar mesmo em revolucionar o que os lares são. E tem de se revolucionar quer do ponto de vista arquitetónico quer ambiental, porque têm de estar preparados para pessoas com muita perda física, que precisam de muita ajuda para tomar banho, vestir, etc, e tem de estar preparado para pessoas com demência, algumas delas, poucas, com alterações comportamentais, que podem influenciar muito a vida dos outros, e outros com alterações que não os incomodam a eles, mas que incomodam muito os outros. Nesse estudo que fizemos, o grande problema não era entre as pessoas que não tinham as demências e as demências iniciais, era estes dois grupos com as demências avançadas, a fase 3 da doença. É uma fase em que as pessoas estão noutro mundo, e para os que estão numa fase mais inicial é difícil, porque veem ao espelho o seu futuro, e por isso os lares teriam de ter lugares separados para essas pessoas. E depois temos de ter espaços para poder fazer o tal personal training, alguma estimulação, e atividades lúdicas e agradáveis para estas pessoas.

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Como é que avalia a atuação dos ministérios da Seg. Social e da Saúde, ambos responsáveis pela questão dos idosos?
Esta separação que em Portugal se faz das coisas que são do Ministério da Saúde e do Ministério da Segurança Social é totalmente artificial, porque estas pessoas não têm necessidades sociais de manhã e de saúde à tarde, eles têm-nas todas ao mesmo tempo. Uma das coisas que achamos é que os lares têm de alterações arquitetónicas e de estrutura e têm que ter alterações de recursos humanos. Os lares não podem ter apenas auxiliares e assistentes sociais, têm de médicos, enfermeiros permanentes, terapeutas de todo o tipo. Quando falamos nisso é sempre tudo muito caro, mas é preciso pensarmos que podemos fazer aqui vários tipos de resposta. Nós podemos ter aqui muitas destas pessoas em lares que podiam estar em Apoio Domiciliário e assim ficaria menos dispendioso.

Bom, aumenta os custos do Apoio Domiciliário...
Sim, isso é inevitável, mas nos lares, o que se passa é que neste momento estamos a fingir que estamos a fazer o que não estamos a fazer. Quando se diz, neste momento, que as pessoas que estão nos lares são portugueses como todos os outros e que têm acesso ao SNS através do seu centro de saúde, nós sabemos que, em 80 ou 90% dos casos, isto é falacioso. Os centros de saúde não têm capacidade nem de enfermeiros nem de médicos para assegurar o que é preciso, pelo que estamos a fingir que estamos a fazer uma coisa. O que achamos que é preciso é que, local a local, vamos avaliando. Onde acharmos que o centro de saúde tem capacidade de resposta, encantado da vida o médico vai e coordena, os enfermeiros fazem os cuidados, e tudo isso. O que queremos é que, se o centro de saúde não conseguir assumir contratualmente essa resposta, tem de nos ser autorizado contratarmos. O que não pode continuar a acontecer é estas pessoas que precisam de cuidados profissionais de saúde não os terem.


Mas isto foi uma situação despoletada pela pandemia?
A questão não é apenas o COVID. Claro que quando aparece, gera-se uma situação de crise que é preciso resolver, e as pessoas precisam de controlo médico e de enfermagem, mas os que estão ao lado dessas também precisam. Estamos a ter mais mortalidade não COVID precisamente porque as pessoas negativas, mas que são frágeis e doentes, têm o mesmo tipo de problemas pelo não acompanhamento. O que se está a passar agora é que, quando um lar tem casos positivos, é a desadequação total, e fica uma instituição em crise absoluta. Por um lado, porque não tem instalações adequadas para fazer separação ente positivos e negativos. Faz-se uma pseudo separação porque de facto não funciona. O que se tem estado até agora é obrigar as auxiliares, que são quem lá está, a fazerem de auxiliares, de enfermeiras, de médicas e a prestarem um cuidado para o qual elas não tiveram formação, e que exige imenso, sendo que, em alguns sítios, até têm problemas sociais. Uma auxiliar que trabalhe num lar em que há casos de COVID, quando vai para casa, as vizinhas não lhe querem falar, o merceeiro não deixa que ela entre na mercearia, são problemas reais, sociais.

O que é preciso fazer então?
Esta crise veio-nos despertar para uma necessidade muito profunda de repensar tudo o que é o apoio ao idoso, nestas lógicas que disse, desde o apoio domiciliário, ao centro de dia e ao lar. É evidente que repensar isto vai levar a soluções que custam mais dinheiro, não há como fugir a isso. Até agora, nenhum Governo quis avançar com soluções apropriadas para a demência, porque sabem que vão abrir uma Caixa de Pandora, porque o número de pessoas com demência é brutal, só vai aumentar, e qualquer pessoa sabe que um lar que tiver uma resposta preparada para as pessoas com demência vai gastar mais dinheiro, porque vai ter de ter um psicólogo, um neurocirurgião, entre outros profissionais. Isto vai custar, mas também implica que nós em Portugal tenhamos um misto de reforço das estruturas governamentais, porque todos nós pagamos impostos para que o Estado tenha dinheiro para apoiar isto, penso que estamos todos confortáveis em viver num país que tem essa missão social. Temos de começar a perceber que a velha figura do mecenato e do voluntariado tem de ser muito acarinhada, porque o dinheiro dos impostos não será suficiente. Para além disso, tem de ser possível que as ONG, instituições e Misericórdias possam ter atividade de recebimento de mecenato ou empresariais onde ganhem dinheiro para poderem ter estas atividades sociais.

Que neste momento não podem ter?
Neste momento podem ter, têm alguns entraves legais em algumas áreas, e estão a ter entraves fiscais nessas áreas. O que nós achamos que tem de ficar muito claro é que, se uma misericórdia tem uma atividade lucrativa e se esse dinheiro da atividade lucrativa é todo aplicado na área social, então não há que pagar impostos desse dinheiro, senão não temos dinheiro para sustentar a nossa parte social, e isto é uma reformulação que o país tem de fazer. Somos um dos países mais velhos, senão o mais envelhecido da União Europeia, e com uma capacidade financeira restrita, pois somos dos países mais pobres. Portanto, ou nós repensamos quer os cuidados que damos a idosos, quer o financiamento de tudo isto, ou Portugal não vai ser um país onde é agradável ser velho.

E há disponibilidade da parte do Governo em olhar para esse problema e assumir que terá de haver mais custos e mais investimento?
Teoricamente sim. Quando dizemos a qualquer membro do Governo o que eu acabei de dizer, todos se mostram entusiasmados. Inclusive, nós, UMP, assumimos o compromisso de, até ao final do ano, em colaboração com algumas universidades e personalidades que se dedicam a isto, lançar um documento enquadrador e desafiador do que acabámos de dizer.
Há coisas que não custam dinheiro e que podem ajudar muito: podermos juntar, em Portugal, a parte social e da saúde era fundamental.


Juntar num novo organismo?
O que eu acho pessoalmente é que os ministérios deviam ter uma parte junta, pelo menos o envelhecimento devia ser em conjunto, mas não é isso que temos visto nos últimos anos, temos visto até uma separação progressiva. Em Espanha, trabalham muito juntos, mas cá trabalham cada vez mais separados. Uma outra coisa que não custava dinheiro e que podiam agilizar muito isto, era as pessoas idosas, com necessidade de suporte, fosse qual fosse o suporte, terem que ter um plano de cuidados partilhado, e esse plano de cuidados atravessar todas as estruturas que ele percorresse. Eu faria um plano deste senhor Manuel, que vinha ter comigo e tem diabetes, tem de fazer insulina, vive numa casa de 2º andar sem elevador, precisa de ajuda para vir à rua, gosta muito de ler e é preciso ir lá duas vezes por semana levar uns livros. Agora, quem é que vai fazer o quê? Temos as atividades médicas em relação ao Sr. Manuel, e isso fica definido. Se, daqui a uns tempos, o Sr. Manuel for internado num hospital, a primeira coisa que o médico que o recebia era olhar para este plano, e saber como eram as condições dele, o que o médico tinha escrito, o que a assistente social tinha escrito, e agora esta equipa médica pegava nesse plano e dava-lhe continuidade, ajustando conforme a situação que tinham. Quando ele tivesse alta, iria para casa e esse plano é levado para a equipa cm quem ele estava e eles poderiam ver que cuidados ele teve no hospital, e quando um dia ele for para uma unidade de cuidados continuados leva o plano, chega à unidade e é acompanhado. Isto era fundamental.

E essa transversalidade de que fala não existe?
Nem por sombras! As pessoas não falam umas com as outras. Vou dar-lhe um exemplo, que acontece todos os dias: há um idoso que está num lar e tem de ir às urgências. Inevitavelmente, quando chegar à urgência vão dizer que está desidratado, que a culpa é do pessoal do lar que o deixou desidratar, e que tem uma infeção urinária, em 90% dos casos. Muitas vezes, as pessoas não estão desidratadas quando vão para a urgência, ficam desidratadas quando ficam 2 ou 3 horas à espera para serem atendidos. Agora imagine que eu tenho um médico na equipa de urgência que é o médico de continuidade com os velhos, e que conhece os lares da zona e conhece os lares da zona. Quando recebe o doente do lar, tem o tal plano de continuidade, vê o que se passa e faz o que for preciso. Há muitos doentes hoje em dia que estão a ir na sua fase terminal de vida a ir para as urgências, sobrecarregando as urgências, pois não vão lá fazer nada, e por outro lado são pessoas que vão morrer mal, numa maca do corredor, com pessoas que não conhecem, a passar os últimos 3 dias de vida desadaptados. Para evitarmos isto, teríamos de envolver as equipas de urgência dos hospitais e as equipas que estão nos lares, juntamente com as famílias, pois ainda há muito a ideia do “mande para o hospital, mande para o hospital”. Mas há muitas pessoas que sabemos que têm 3 ou 4 dias de vida, e passassem estes últimos dias de vida no lar onde sempre viveram, com pessoas que gostam delas à volta, com a própria família. Isto são casos extremos, mas que poderiam ser geridos desta maneira. Não estou a falar de cuidados continuados, isso é outra tipologia de cuidados, estou a falar de continuidade nos cuidados. Uma pessoa idosa precisa que haja uma sequência lógica no acompanhamento que ela tem. Se conseguíssemos ter esse plano, e hoje em dia era tão fácil ter tudo no nosso smartphone, já não estamos naquela fase em que é preciso andar com uma cartinha ou telefonar, o médico do lar envia por mail o plano ao colega do hospital. Portanto, com tudo isto, dizer que há alterações organizacionais que custam dinheiro, mas há alterações que não custam dinheiro e que podem ser muito eficazes na qualidade de vida das pessoas.

Está mais dependente da vontade?
Sim, o problema é que há uma questão de vontade política, e essa vontade implicava os dois ministérios serem capazes de falar um com o outro, e depois uma vontade organizacional que também é muito pesada. Há dez anos que ando a falar isto com os departamentos de informática quer da Segurança Social quer do ministério da Saúde, cada vez que lá vou ficamos todos satisfeitíssimo, porque a ideia é ótima e fácil de implementar, mas depois não se faz... há uma inércia pesada nisto, mas penso que temos de quebrar isto. O risco de ser muito mau ser velho em Portugal é muito grande. O peso de ser velho e pobre é muito grande, ser velho e ter estruturas desadequadas... as coisas têm de ser muito locais. Eu sou provedor de um lar em Mora, no Alentejo, e diretor de um hospital aqui em Lisboa. Muitas vezes tenho imensos problemas com as altas em Lisboa, porque são pessoas muito velhas, vivem em casas velhas, sem elevador, com umas escadas de acesso complicadíssimas. Eu estou muitas vezes a dar altas às pessoas e a dizer “olhe, você mantenha-se ativo, saia de casa”, e o tipo olha para mim a perguntar como é que sai de casa de uma casa sem elevador. A ideia dos vizinhos em Lisboa é anacrónica, porque muitas vezes nos andares de baixo já morreram os vizinhos que eles conheceram a vida toda, estão lá outras pessoas que eles não conhecem, as pessoas estão muito receosas uns dos outros, enquanto que em Mora, que é uma terra relativamente pequena, casa de piso térreo, nada disto é um problema. Em Mora, eu consigo estar a planear um apoio domiciliário e estar a fazer o menu e ter o vizinho do lado a observar e dizer “vocês não se preocupem, deixem aqui a medicação, que eu vou lá ao jantar e ajudo-o a deitar-se”, e vai! Há um tipo de estrutura social que existe numas terras e que noutras não, e por isso temos de nos adaptar e aproveitar o que há.

A verdade é que nos centros urbanos há uma tentação de deixar os idosos entregues à sua sorte...
Sim, a solidão e o isolamento são terríveis nas grandes cidades. Aí temos de passar a pensar em bairro ou freguesia, pensar mais pequeno.

Mas as estruturas hoje tendem a ser mais macro...
O problema aí é que, nas outras terras, temos várias misericórdias e elas tendem a trabalhar de forma mais local, micro. Na Grande Lisboa, só tenho uma Misericórdia, que é um instituto estatal. Claro que a Misericórdia de Lisboa, com os seus méritos, que tem muitos, depois tem um gigantismo, que é uma máquina muito grande. O Pe. Melícias fala na glocalização, que era pensar global, agir local, mas aqui em Lisboa é difícil fazer isso. Em Mora todos os dias recebo telefonemas de pessoas, vêm ter comigo ao café, e admito que o Dr. Edmundo Martinho não conheça os lisboetas todos (risos), as coisas aí variam.

A questão das residências autónomas são uma solução para o futuro, mesmo com os custos que implicam?
Sim, torna mais eficiente o cuidar das pessoas. Ter uma pequena aldeia onde se trata de tudo em conjunto. Há algumas, poucas, experiências em Portugal desse tipo, mas como diz, e muito bem, é algo que tem de ser pensado de raiz. É uma das soluções que pode ser pensado agora para os lares do futuro. Cá em Portugal isso tem duas dificuldades: uma é que o português é muito agarrado à sua casinha, e sair dela não é fácil. Eu acompanho doentes em Lisboa que vivem em casas muito grandes, de onde os filhos já saíram, e que hoje em dia até ganhavam em vender aquela casa e comprar um apartamento pequenino com elevador, e quando se lhes fala nisso é logo “ah eu não saio da minha casinha nem por nada”. Esse é um óbice, outro é que países onde isso funciona muito bem, como Suécia, Dinamarca e Holanda, são países em que as pessoas se institucionalizam muito mais precocemente. São países onde o tipo de rede familiar não tem nada a ver com a nossa, os filhos quando chegam ao 12º ano recebem um subsídio do Estado para irem para a faculdade e portanto saem de casa, não mantêm esta família latina como a nossa. É muito natural para essas pessoas, quando se reformam, irem logo para uma estrutura desse estilo.


Aqui há ainda um estigma das respostas sociais?
Repare, eu estive a ver uma aldeia deste tipo que existe na Holanda para pessoas com demência. É uma aldeia, depois tem uma cervejaria, uma cafetaria, e esses funcionários são terapeutas e as pessoas, quando vão lá, estão a beber o chá mas a fazer uma série de atividades terapêuticas. As pessoas que eu vi lá são pessoas em fase 1 e 2. Nós, aqui na UMP, fizemos uma unidade em Fátima só para demências, e quando eu desenhei aquilo pensei em as pessoas poderem participar na vida da unidade, e até poderem ajudar em algumas das atividades. Tive de desistir, porque as pessoas que vão para lá têm uma demência muito acentuada e têm de ser integralmente cuidadas, a maioria delas. O paradigma português é, e vai ser cada vez mais, que as pessoas vão entrar para os lares com dependência física muito grande ou demência, porque de resto ficam em casa. O que poderíamos fazer, e na Suécia há experiências muito interessantes disso, era fazer as tais aldeias, em que as casas são especialmente preparadas para isso. Na Suécia há uma experiência muito interessante de uma aldeia construída para pessoas com demência poderem lá viver. A quem entregaram a parte de decoração foi aos tipos do IKEA, que fizeram um trabalho espetacular. Você entra na cozinha, e todos os armários e gavetas são transparentes à frente, portanto a pessoa com demência consegue ver o que está dentro de cada gaveta e não precisa de as abrir todas. À noite, se a pessoa se sentar na cama, automaticamente acende a luzinha da porta da casa de banho, se a pessoa sair de casa deteta um alarme para que a equipas vigilância fique atenta, enfim, uma série de pequenos pormenores que sã muito interessante. Hoje em dia há já materiais que permitem até que uma pessoa com demência seja avisada que está a sair do circuito habitual e disponibilize ajuda. Quando pensamos na possibilidade de um novo lar, e mais ainda agora com o PARES que saiu agora e que vai permitir fazer alguns, é bom sermos arrojados e pensar em experiências inovadoras, se bem que eu acho, e isto é uma opinião pessoal, não nos interessa ter mais vagas de lar em Portugal. Acho que há uma cobertura nacional relativamente boa do número de vagas. O que tem de ser feito é adaptar os que pedem para se adaptar, e abandonar alguns muito velhos e fazer uma coisa toda de novo. Nisso sou muito radical, porque arranjar uma estrutura que tem 40 ou 50 anos não faz sentido, os quartos nunca vão ficar decentes, nem os espaços... mais vale deitar aquilo abaixo e fazer um novo, que até sai mais barato, com os materiais que existem hoje em dia.

Falou da adequação à realidade local, e isso significa que tem de haver locais com lares, outros com residências autónomas...
Sim, acho que em cada espaço tem de haver uma solução local.

E isso é possível com os fundos europeus, estas estratégias nacionais?
Acho que sim, e acho que se não o fizermos vamos deitar fora todos estes fundos europeus. Nós não tenhamos dúvidas de uma coisa: estamos muito centrados no nosso umbigo. Há dois ou três anos, quando se andava a falar muito de fazer unidades especializadas em demência, eu ia aos secretariados regionais da UMP, falava com 20 ou 30 misericórdias, e todos concordavam que só podia haver uma estrutura destas por distrito, “a minha”, todos queriam que fosse na sua misericórdia... mas não podemos pulverizar as coisas, a decisão local tem de ser tomada com critérios de eficiência, e tem de haver obrigatoriedade de eficiência e de prestação de contas, não no sentido de auditoria, mas de dizer “ok, eu tenho estes recursos nesta comunidade, a minha opção para esta comunidade é esta, custa tanto e daqui a dois anos vamos ver que resultado temos”, avaliando os resultados do que temos, o que é essencial.

Já falou duas ou três vezes no “lar do futuro”. Como é que podemos caracterizar esse lar?
Tem de ser um lar preparado para a sua população, pessoas com grande deficiência física, doentes, muitos com demência. Tem de ter espaços próprios para se trabalhar pessoas com demência, deficiência física avançada, e ter instalações onde seja muito fácil dar banho, vestir, fazer algumas terapias. Depois tem de haver espaços para cuidados clínicos especializados, em bora com algum cuidado, pois eu acho que não se deve entrar nos lares na área da infeciologia. Os hospitais neste momento estão cheios de infeções, e nós não devemos nos lares ter espaços para doentes infetados, e não acho que seja missão dos lares irem por aí.
Depois, ter o tal conjunto de recursos humanos da saúde, e o plano de cuidados que garanta continuidade, para mim é fundamental. Portanto, nos lares que existam, é adaptar e dar resposta a isto. Nos lares novos que se vão contruir de raiz, acho interessante se pudéssemos fazer algumas coisas experimentais com essa lógica: com resposta diferenciada para a grande dependência, a grande demência, mas que por outro lado possam dar à pessoa a intimidade que os lares atuais não dão, a intimidade da sua casinha. Há dois lares de misericórdia que estão feitos nesse sentido: há um no Mogadouro que é um edifício onde a zona central funciona como os serviços, mas as paredes laterais são apartamentos com varanda para a rua, e o corredor que separa os serviços dos quartos não é um corredor, é uma rua, tapada por cima, mas com empedrado, flores... acho isto muito interessante para quem vai fazer lares novos. Estas pessoas, mesmo com alguma limitação, têm de ter um padrão de qualidade de vida que já não se coaduna com o que desenhávamos há uns anos atrás. Há uns anos, as pessoas aceitavam que ir para um lar era entrar num regime militar: acordam todos à mesma hora, almoçam todos à mesma hora, fazer visitas, etc, e hoje em dia não é isso que as pessoas querem. Há uns tempos eu dizia, e ninguém percebeu, que temos tido uma população de velhinhas com lenço preto, e temos de nos preparar para idosos com rabo de cavalo e brinco na orelha a ouvir os Rolling Stones, e isto implica não apenas estruturas culturais de cabeça diferentes, mas uma exigência diferente. São pessoas que não vão para o lar para não fazerem aquilo que querem, vão querer ter a sua vida e a sua dignidade, acho que é por aí que temos de ir, criando estes espaços de intimidade e liberdade, que é uma coisa difícil porque instituições com 60 ou 70 pessoas não é fácil.
Estas estruturas têm de estar pensadas para dar resposta a esta situações. Há um risco de a humanidade ciclicamente vir a ter problemas destes, antigamente era de 100 em 100 anos, agora com esta história dos aviões secalhar será com intervalos mais pequenos, e temos de estar preparados para isso.

 
Entrevista e fotos: Ricardo Perna
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