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O verdadeiro sentido do Natal
24.12.2018
Vai-se tornando cada vez mais habitual que nas casas, escolas ou lugares públicos por ocasião do Natal se coloquem enfeites, luzes e a árvore de Natal, mas o presépio não. Também já tenho visto ruas ou rotundas em que as iluminações deixaram de ter símbolos cristãos alusivos à quadra que celebramos. Então que Natal é este?

O Papa Francisco o ano passado, na oração do Angelus, disse algo que nos ajuda a voltar ao verdadeiro sentido do Natal: «Quando rezardes em casa, diante do presépio com os vossos familiares, deixai-vos atrair pela ternura do Menino Jesus, nascido pobre e frágil no meio de nós, para nos dar o seu amor. É este o verdadeiro Natal. Se tirarmos Jesus, o que resta do Natal? Uma festa vazia. Não tireis Jesus do Natal! Jesus é o centro do Natal, Jesus é o verdadeiro Natal! Compreendestes?» (17/12/2017)

Estas palavras levam-me a meditar e a partilhar convosco o que o Natal representa para a Humanidade. Não só para os cristãos, uma vez que o Natal comercial se institucionalizou e «para muitas crianças de hoje, nascidas e criadas já em ambientes onde pouco ou nada penetra a luz do Evangelho de Jesus, afogadas em prendas, caras e sem grande relação com o espírito cristão da celebração que lhe deu origem, o Natal pode não passar da “festa das prendas”, como já se tem ouvido chamar» (José Ferreira, Os mistérios de Cristo na Liturgia).

Preparar e viver o Natal é fazer uma viagem de regresso às raízes da nossa fé, através de uma atitude interior de grande humildade – como o ambiente em que Cristo nasceu (na gruta de Belém). No centro do Natal não está apenas uma doce e dramática história familiar, explorada pelo consumismo, de um casal que procura hospedaria para o Filho de Deus. No centro do Natal reside o mistério fundamental do cristianismo, a Encarnação, em que Deus Se veste da fragilidade humana para a salvar. Escreveu a propósito o filósofo Soren Kierkegaard: «Os dois mundos desde sempre separados, o divino e o humano, entraram em colisão em Cristo. Uma colisão não para uma explosão, mas para um abraço.»

A vida humana não teria sentido se Cristo Salvador não tivesse encarnado e redimido a Humanidade. Aqui está o verdadeiro significado do Natal, que nem sempre é fácil descortinar no meio de tantos slogans natalícios tão apelativos. Mas no espírito do Natal encontramos a luz da nossa existência porque na manjedoura do presépio já se encontra a sombra da cruz. Natal e Páscoa estão ligados como um único acontecimento do mesmo mistério. Um mistério de salvação, um mistério de nascimento, de morte e ressurreição, um mistério de alegria que o medo não consegue apagar.

Diz São Paulo: «Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo.» Não será esta a verdade do Natal? O homem traz dentro de si o espírito filial, o desconcerto desta adorável presença e pertença divina: presença de um Deus que Se fez homem não apenas para viver em nós e participar no nosso quotidiano, mas também para poder dar sentido à nossa vida, dar-nos uma força que nos eleva, uma esperança que vai para lá da brevidade da nossa existência. Somos de Cristo. Há séculos que a Humanidade pertence a Cristo.

Jesus Cristo não é um mito ou uma ideologia, é uma pessoa que entra na raiz da nossa história e que até foi registado nos censos imperiais. No Menino que nasceu em Belém esconde-se o mistério de Deus que Se aproxima de cada ser humano a ponto de ter um rosto e um corpo de homem. Desde aquele momento que temos um Deus «Emanuel», isto é, o «Deus connosco» e a viagem da nossa vida é «with God on our side» («com Deus ao nosso lado»), como diz Bob Dylan, prémio Nobel da Literatura, numa das suas canções.