Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
O vírus da desconfiança
22.09.2020
Primeiro ouvi o barulho. Quando olhei para trás, vi a garrafa de água caída no chão da Igreja, do outro lado do corredor. Numa outra altura, não hesitaria e ajudaria a senhora, da minha idade, a apanhar a garrafa. Não o fiz. Porquê? Tive medo de me aproximar. Talvez o meu comportamento fosse outro, se a senhora precisasse mesmo da minha ajuda. Tenho a certeza que sim.
Ao andar na rua, tento afastar-me das outras pessoas para a distância de segurança. O mesmo com pessoas que não vivem comigo… Até com espaços. Dou comigo a pensar no que este novo coronavírus tem feito à nossa relação com os outros. Sejam eles os outros da nossa casa, da nossa família, do nosso trabalho, os conhecidos, ou desconhecidos.

Tenho pensado que este novo coronavírus começou por ser também o vírus do medo. Fechámo-nos em casa, protegendo-nos e aos nossos por medo, medo de morrermos ou ficarmos doentes; medo de contagiar e provocar mal nos outros. A nossa casa era a nossa defesa, reduto de confiança onde, tomando todos os cuidados, tentávamos que não entrasse o maldito vírus. Fechamos-lhe a porta, lavamos tudo com desinfetante, lixívia, altas temperaturas. Os outros estavam à distância. Fora desse reduto seguro. Agora, saindo, estando mais no meio dos outros, quer-me parecer que esse vírus mudou, tornando-se o vírus da desconfiança.
É uma espécie de estado de alerta permanente. Temos de agir, dizem-nos, como se os outros estivessem doentes e nos pudessem contaminar. Desconfiamos, portanto. Desconfiamos até de nós próprios, dos nossos gestos. Usamos máscara, e bem, para proteger os outros. Sabemos que podemos estar infetados sem o saber e contaminar outros com este vírus que provoca a COVID-19. Cria-se uma certa desconfiança até em relação a nós próprios. Será que estamos a fazer tudo o que podemos? E se temos um pouco de tosse? E os outros? Se alguém espirra, protegemo-nos ou olhamos de lado a ver se está suficientemente afastado e se pôs o cotovelo à frente.

Não é por acaso que, em todo o mundo, aumentaram as denúncias junto das autoridades de pessoas com comportamentos de risco ou empresas a aproveitar-se da situação. Somos uma espécie de “polícias sociais”. Não condeno quem denuncia. Não me confrontei com nenhuma situação que o justificasse e, por isso, não sei o que faria. Mas questiono-me sobre o impacto desta desconfiança global na mentalidade social.

Este mês recomeçaram as aulas. As nossas crianças voltarão a estar com outras crianças, em espaços fechados. As mais pequenas sem máscaras. Será seguro? Serão tomadas todas as medidas para garantir o mínimo de risco? Poderão continuar a estar com os avós e com as pessoas com mais risco? E será o melhor estarem de máscara todo o dia ou não? À porta das escolas "amontoam-se" pais e crianças à espera para entrar.

São tantas as dúvidas nossas e de quem tem de decidir. Tomar decisões numa situação em que se vai sabendo cada vez mais, mas em que esse mais ainda é tão pouco, é ser uma espécie de trapezista sem treino.
 
Mas, então, como vencer esta desconfiança? Como fazê-lo com o vírus por perto? Como ter confiança numa situação em que tão pouca coisa parece certa e há tanto desconhecimento? Em que há contradições que parecem insanáveis. Como ganhar confiança é o grande desafio, pelo menos para mim. Um caminho de pequenos passos que só teve início quando me dei conta que este vírus me estava a atacar o coração. E o seu, também foi atacado ou já venceu este vírus da desconfiança?