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​Os gestos do Papa para acabar com a guerra na Ucrânia
25.03.2022
O Papa Francisco prepara-se para hoje, mais ao final da tarde, consagrar a Rússia e a Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria, executando o mesmo gesto que João Paulo II fez, neste mesmo dia, em 1984, na sequência do pedido que Nossa Senhora transmitiu a Lúcia na Cova de Iria.

 
Mas este não foi o único gesto do Papa no contexto desta guerra da Ucrânia, agora que passa um mês do seu início, pelo que recordamos aqui os gestos que têm marcado a luta do Papa pelo fim da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, que já apelidou de «massacre».
 
Antes de mais, as palavras. Incontáveis tweets e referências ao conflito têm marcado as publicações e discursos públicos do Papa, mas entre as palavras, os gestos.
 
Há um mês, a 25 de fevereiro, um dia depois de iniciar a ofensiva russa, Francisco deslocou-se ele, de surpresa, à embaixada russa, para expressar preocupação com o que estava a suceder então. «Durante a visita, que durou cerca de meia hora, o Papa quis manifestar a sua preocupação pela guerra na Ucrânia», informava na altura o portal Vatican News.
 
No dia seguinte, a 26 de fevereiro, o primeiro telefonema para o presidente ucraniano, Vlodomir Zelensky, permitia que o Papa expressasse «a sua mais profunda dor pelos trágicos eventos que estão ocorrendo no nosso país», segundo relatos da embaixada da Ucrânia junto da Santa Sé.
 
O primeiro sinal de apoio material aos refugiados surge dia 2 de março, quando, através da Esmolaria Pontifícia, a cargo do cardeal Konrad Krajewski, que estará hoje em Fátima para realizar o ato de consagração ao mesmo tempo que o Papa o fará em Roma, entregou materiais de primeira necessidade para serem enviados para a Polónia, em conjunto com os bens de tantos que se juntavam em Itália. Mas não só por aqui: nesse mesmo dia, anunciavam que o Papa iria enviar fundos para que os núncios que estivessem em áreas de acolhimento de refugiados pudessem prestar ajuda direta no terreno nesse mesmo acolhimento.

No dia 3 de março, uma entrevista do núncio apostólico em Kiev, D. Visvaldas Kulbokas, mostra um pastor que não deixa as suas ovelhas, em nome do Papa. «Aqui represento o Papa perante a Ucrânia, mas também perante o povo e as Igrejas na Ucrânia. Tenho não só o dever, mas também a possibilidade de estar perto das pessoas. Então meu lugar é aqui», referiu ao portal de notícias SIR.
 
A 6 de março chegaria talvez um dos gestos mais fortes do Papa: enquanto muitos países retiravam os seus diplomatas do país, Francisco enviou dois emissários – o cardeal Konrad Krajewski, esmoler pontifício, e o cardeal Michael Czerny, prefeito do Dicastério para o Desenvolvimento Humano e Integral – para que, em nome do Papa, expressassem «proximidade» para com as pessoas que estavam nos centros de refugiados na Polónia e Roménia, e ainda em Lviv, onde o cardeal Konrad passou alguns dias, tendo mesmo presidido a uma cerimónia inter-religiosa no dia 11, na catedral de Lviv, que juntou católicos, ortodoxos e judeus para rezarem pela paz.

Foto @ Mariusz Krawiec | Família Cristã 
No mesmo dia, agradece o trabalho dos jornalistas no terreno, «um serviço que nos permite estar perto da tragédia daquela população e nos permite avaliar a crueldade de uma guerra» e disponibiliza Santa Sé para mediar o conflito e «para fazer tudo, para colocar-se ao serviço desta paz».
 
No dia 8 de março, é a vez do cardeal Secretário de Estado, Pietro Parolin, telefonar diretamente ao ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, a pedir o fim dos combates. «Em particular, reiterou o apelo para interromper os ataques armados, garantir corredores humanitários para civis e socorristas, substituir a violência das armas pela negociação», referia uma nota divulgada pelo porta-voz da Santa Sé aos jornalistas.
  
No dia 10 de março, e após o bombardeamento de uma maternidade em Mariupol, o cardeal Parolin falou de novo aos jornalistas para considerar que este era um ato «inaceitável» e para criticar as declarações proferidas dias antes pelo Patriarca de Moscovo, que considerou «correm o risco de inflamar ainda mais os ânimos, levando a uma escalada que não resolverá a crise de modo pacífico».

Foto © Ricardo Perna
No dia 13 de março, um domingo, talvez a palavra mais forte do Papa Francisco. Percebia-se a emoção na voz quando, durante o Angelus, proclamou da janela do Palácio Apostólico «Em nome de Deus, parem o massacre!». «Acabámos de rezar a Nossa Senhora. Esta semana, a cidade que leva seu nome, Mariupol, tornou-se uma cidade mártir da guerra desoladora que está a devastar a Ucrânia. Diante da barbárie da matança de crianças, de inocentes e de civis indefesos, não existem razões estratégicas plausíveis: deve-se somente cessar a inaceitável agressão armada, antes que reduza as cidades a cemitérios», disse o Papa na altura.
 
Dia 14 de março, ao receber o primeiro-ministro da Eslováquia, um dos países que está a acolher refugiados, incluiu esse tópico na agenda da conversa particular com o responsável político daquele país. No mesmo dia, o cardeal Parolin voltou a disponibilizar a Santa Sé para mediar o conflito, «uma vontade da qual o próprio Papa Francisco falou e que permanece válida», referia na altura em entrevista a um canal italiano de televisão.
 
No mesmo dia em que anuncia a consagração que irá ocorrer hoje em Fátima no Vaticano e um pouco por todo o mundo católico, recebe uma carta do presidente da câmara de Kiev a pedir a sua presença em Kiev, como forma de forçar o fim dos confrontos. Na resposta, Francisco mostrou-se «próximo ao sofrimento da cidade, do seu povo, daqueles que tiveram de fugir e daqueles que são chamados a administrá-la».
 
Neste mesmo dia, 16 de março, um dos contactos mais importantes: Francisco fala em videochamada com Cirilo, patriarca de Moscovo, que se tem colocado ao lado de Vladimir Putin neste conflito e insiste em não condenar a invasão russa, apesar dos muitos sacerdotes ortodoxos que o têm feito.
 
Dias depois do seu regresso, o Papa volta a enviar no dia 17 de março o cardeal Michael Czerny para a Ucrânia, desta vez pela Eslováquia, para voltar a contactar com os refugiados e transmitir a oração do Papa.
 
No dia 21 de março, o Papa faz uma visita surpresa ao hospital pediátrico Bambino Gesú, do Vaticano, que acolhe algumas crianças refugiadas da guerra que precisavam de tratamentos médicos, num gesto de carinho e proximidade. «Fui visitar as crianças feridas, que estão aqui em Roma. A uma falta um braço, outra tem uma ferida na cabeça… Crianças inocentes! Penso nos milhões de refugiados ucranianos, que têm de fugir, deixando tudo para trás, e sinto uma grande dor pelos que não têm sequer a possibilidade de fugir», disse, na altura.

Foto © Vatican Media 
Um dia depois, a dia 22 de março, o segundo telefonema para o presidente ucraniano para discutir os corredores humanitários, e onde o presidente Zelensky, que não é católico, tem oportunidade de lhe dizer que o papel da Santa Sé na mediação do conflito poderia ser muito importante.
 
Hoje volta então a ter um gesto, porventura dos mais significativos, para procurar a paz neste conflito, desta vez junto de Deus e Nossa Senhora, e não junto dos agentes políticos em causa ou junto dos refugiados. O impacto disto só será visto mais tarde, mas por enquanto o que parece certo é que todo o mundo estará a rezar com Francisco, hoje, a partir das 16h (hora de Portugal).

 
Texto: Ricardo Perna
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