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Os «inúteis servos» do Evangelho
23.04.2018
Em pleno Tempo Pascal, os cristãos contemplam o Mistério de Cristo na expressão máxima da sua revelação, descrita pelo evangelista João, quando Jesus disse a Nicodemos que «Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por meio d’Ele» (Jo 3,17). O gesto da doação divina, totalmente gratuito e incondicional, revela a natureza de Deus, que Se dá inteiramente por amor, independentemente da resposta humana ser de aceitação ou de rejeição.

A atitude de total obediência à vontade do Pai e de altruísmo sem pretensiosismos nem restrições às necessidades do próximo foi ensinada por Jesus quando referiu o exemplo dos servos que depois de terem feito tudo o que lhes fora ordenado dizem: «Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer.» (Lc 17,10) Depois de cumprirem as suas obrigações, estes servos aguardam o momento em que voltarão a ser necessários, sem demandar honrarias ou formas de compensação descabidas e inoportunas.

Na perspectiva de Jesus, ninguém está acima dos mandamentos e das obrigações para com Deus e o próximo. Salvaguardando as capacidades e possibilidades de cada um, ninguém fica isento desse encargo, nem mesmo o cumprimento constante dos próprios deveres permite um tempo de folga no que toca a responsabilidades para com o que é justo, bom, necessário e possível.

Com o proliferar de iniciativas e angariação de recursos económicos para obras e atividades no campo da ação social, em favor dos mais desfavorecidos, foi surgindo a sensação de que quem se dedica a estas causas se encontra envolvido num estado de graça permanente ou resguardado por um manto protetor contra toda a adversidade que o isenta de assumir as suas responsabilidades. Vem isto a propósito de quanto se falou sobre os desgovernos nas IPSS (Instituição Particular de Solidariedade Social), logo surgindo vozes que exigiam a concentração no Estado de todas as atividades no âmbito da solidariedade social, menosprezando quanto de bom tem sido feito nessa área, precisamente devido à inoperância, ineficácia ou mesmo total ausência do Estado. Sem esquecer que os desgovernos no sector público levaram o Estado, ainda há bem poucos anos, à beira da falência com as consequências dramáticas que todos sentimos.

Há que reconhecer que tanto nas instituições privadas como nas públicas existe o risco do sentimento de impunidade, devido ao sucesso alcançado, instalando-se a convicção de se poder estar acima da lei, achando-se no direito de dever ser tratado de forma excecional. No campo da psicologia, a síndrome de presunção (hybris syndrome) configura formas comportamentais, típicas de um tempo excessivamente autorreferencial, que se enquadram num estilo de vida autoritária e arrogante, marcado ainda pela gestão imprudente de recursos que rapidamente se transforma em bola de neve com efeitos nefastos para as instituições, empresas ou para o próprio Estado. Porém, não se confunda a obra com os padrões de vida desses gestores, em face do quanto aquela é imprescindível para todos os que ainda beneficiam dela.

Tudo o que se tenha feito de bom no passado não isenta ninguém das suas obrigações presentes e futuras, no mesmo espírito e na mesma atitude de altruísmo e abnegação de Cristo crucificado, força e sabedoria de Deus (1Cor 1,3).