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Os jovens, os adultos e a televisão
23.05.2019
Foi há poucas semanas, numa sessão que juntou cerca de 200 alunos do ensino secundário com um especialista de marketing. A certa altura ele fez uma espécie de sondagem: quantos dos presentes tinham visto televisão na véspera? Metade levantou o braço. O conferencista não pareceu estranhar: «Esperava que fosse ainda menos», disse, «está em decréscimo».

De facto, a televisão compete hoje com os meios por onde navegam os adolescentes e jovens, disponíveis a todo o momento e em toda a parte nos seus smartphones, a vibrar no bolso das calças. Estará a televisão a perder público jovem?

Se se fizer o exercício de ver um dia inteiro de televisão, do acordar ao deitar, fazendo zapping, sobretudo entre os principais canais generalistas, percebe-se um fio condutor, com três características, que atravessa não só os programas da manhã e da tarde mas também a informação e, claro, os concursos, sobretudo os chamados reality shows.

A primeira característica é a emoção. A televisão apela às nossas emoções. Faz-nos rir, chorar, indignar, empolgar. Independentemente das razões e do sentido. A emoção é imediata e intensa. Pensar, avaliar, refletir, parece longínquo e desnecessário quando se está a viver uma emoção. E nós, seja pelo cansaço do dia, pelas deceções, pela solidão ou pela preguiça, ali ficamos, numa vida de faz de conta, julgando conviver com pessoas que não nos conhecem e deixando que se instale em nós uma perceção da realidade feita do mundo de emoções que a televisão cria.

 A segunda característica é a superficialidade. Na televisão tudo é aparência e o tempo é sempre, e propositadamente, curto. A superficialidade é viciante, porque não dá muito trabalho e cria uma ilusão de domínio. Tudo o que requer tempo e compreensão profunda não é compatível com o método da televisão, que tem de enfeitiçar com imagens, saltar de assunto em assunto, surpreender, mostrar o que não seria suposto ver, prender a atenção.

A certa altura, damos connosco sem paciência para a vida real, que nos parece lenta, complexa e maçadora. A televisão é um adversário desigual dos livros, da escuta, da contemplação da natureza, do silêncio, da espera, da atenção. Até do amor. E da fé. Torna-nos superficiais, sem darmos conta, e isso mina as relações, o trabalho, a política, a vida.

Por fim, a terceira característica: o apelo aos nossos instintos mais básicos e mais baixos. É ingénuo pensar que o que vemos não nos influencia. O que entra pelos olhos deixa uma marca, que não desaparece nem com o esquecimento. As coisas feias, violentas e despudoradas, quando vistas, criam em nós uma tolerância à baixeza, uma familiaridade com a mesquinhez, um hábito mau, que nos vai fazendo.

Os reality shows vivem disso. Do nosso lado mais pobre e inconfessável. Que nos faz ter a tentação de espreitar pelo buraco da fechadura; que nos provoca um olhar de desprezo e desrespeito pelos outros; que nos torna cínicos em relação à possibilidade de relações humanas verdadeiras. O problema dos reality shows não são os pobres protagonistas que aceitam fazer aquele papel deplorável num programa de televisão. O problema somos nós, que estamos lá para assistir, porque fomos perdendo a capacidade de repudiar, querer melhor, preferir não ver.

Mas, sendo assim, a gravidade maior dos reality shows não será o efeito que tem nos jovens, que em todos estes aspetos são mais vulneráveis, ingénuos, manipuláveis? Talvez não. Eles têm acesso a coisas bem mais sofisticadas e terríveis nos seus smatphones.

O que é deseducativo para os jovens é terem, como seus interlocutores, educadores e referências de vida adultos que veem reality shows.