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Os professores do meu coração
12.09.2019 09:00:00
Quase a começar as aulas, vêm-me à memória os meus próprios professores. Percebo que os que mais me tocaram e dos quais me recordo foram aqueles que fizeram diferente, que acreditaram em mim e que me desafiaram. A professora de Português que fazia concursos de escrita nas suas turmas. O professor de Eletrotecnia que nos punha a montar circuitos e a verificar quanto consumiam os eletrodomésticos lá de casa. A de Geografia que nos fez, em grupos, aprender mais sobre as Aldeias Históricas, organizando exposições. A de Português no ensino secundário que nos estimulou a conhecer melhor os Açores através do romance Mau tempo no canal. Mais uma vez em grupo, investigámos, contactámos o Governo Regional, o Museu do Traje e costurámos os trajes típicos da região. O de Filosofia que criou uma Banda Desenhada para explicar a história da Filosofia e o pensamento dos grandes filósofos. O de Comunicação do secundário que, connosco, organizou verdadeiros milagres: filmávamos, editávamos e apresentávamos um telejornal antes de 1996, com apenas uma câmara de filmar doméstica e dois vídeos. Outros havia para recordar. Daqueles empenhados, que estimulavam, acompanhavam e se interessavam por mim e por nós.

As marcas que os professores deixam nas nossas vidas são habitualmente boas, creio. Claro que também há aqueles que ficam no nosso coração por más razões. Mas em conversa com outras pessoas, percebi que, décadas depois, quase todos recordam os professores “diferentes”. E isso é muito bonito, porque são professores que não se acostumaram, que se interessam pelos seus alunos, que os conhecem e sabem estimular. A pena que tenho é que muitos começam a desistir de ser diferentes ou estão afogados em burocracias e papeladas, como ouço dizer a professores amigos. Poderia ser um problema destes que conheço, mas a verdade está longe disso…

Os dados sobre o burnout dos professores são preocupantes e levam-me a temer pela nossa sociedade. Com base em questionários a 19 mil professores, a investigadora Raquel Varela concluiu que mais de 60% dos professores sofrem de exaustão emocional. Em julho, as notícias não eram animadoras. A Fenprof divulgou que três professores terão morrido a trabalhar: uma ficou caída em cima do teclado do computador enquanto lançava notas, outra em plena sala de aula e outro quando enviava por email dados pedidos pela escola. Sejam quais forem as razões que tenham levado a estas mortes, a verdade é que temos de tratar da saúde dos nossos professores. Lembro-me de que, em criança, ser professor era ter uma das profissões mais importantes e prestigiantes. Essa importância foi-se diluindo e, hoje em dia, quem quer ser professor? Não é à toa que temos uma classe docente cada vez mais idosa…

Confiar o cuidado e a educação de um filho a outra pessoa é um dos maiores desafios que se pede aos pais. É difícil confiar o nosso maior tesouro a alguém que, em muitos casos, não conhecemos. Temos de confiar que vão ser capazes de cuidar e tratar bem, no mínimo. Aceitar que nunca farão como nós fazemos nem como gostaríamos que fizessem e tentar encontrar um equilíbrio aí. Ajudar a melhorar o que for possível. Os educadores de infância e professores não são os pais dos seus alunos. A sua função é diferente e têm grupos enormes de crianças para acompanhar e ajudar a crescer. Precisam do apoio e do estímulo dos pais. Muitas vezes, um simples “obrigado” basta. Costuma agradecer aos professores e educadores dos seus filhos ou netos?