Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
Os Vencedores
15.02.2016
Este mês teve um dia dedicado aos doentes (11 fevereiro), e eu tiro-lhes o chapéu. O “meu” último doente já não está cá, acabaram-lhe o jogo. O «vou-te apanhar» estava exausto de tanto correr e não quis jogar mais.

«Vou-te apanhar» é o nome que eu dou ao cancro. Da “minha gente” – aquela que é constante na nossa vida e no nosso coração, feita da mesma fibra que nós, neste caso da família mais chegada – já levou dois. Da minha família alargada, deixei de os contar.

Cansou-se sempre! Sim, está bem dito, foi o cancro que se cansou, porque não há injustiça maior do que dizer que alguém «perdeu a batalha contra o cancro». Só mesmo quem não presta muita atenção às palavras ou não passa por ele é que pode achar que alguém que encara um cancro de frente e lhe diz «apanha-me se conseguires» pode algum dia ser considerado um “perdedor”.

Primeira vitória: ouvir o diagnóstico e manter-se presente, mesmo quando se abriu uma cratera debaixo dos pés.

Segunda vitória: vê-lo a doer nas lágrimas de quem nos ama, deitadas cá para fora ou mantidas fechadas a sete chaves.

Terceira vitória: continuar a olhar, todos os dias, para esses olhos, e conseguir ver o mesmo que se via antes.

Quarta vitória: reunir as tropas em meia dúzia de dias e apresentar-se na linha da frente para a batalha.

Quinta vitória: correr para a frente, ao invés de fugir, ao mesmo tempo que, de peito aberto, se grita «apanha-me se conseguires».

Podia continuar a lista, mas perdia-se a poesia de uma doença transformada em vitórias.

Só quem não guarda na memória todos os sorrisos esboçados em dias de tratamentos, em vésperas de consultas e exames pode achar que se perdeu alguma coisa. Só quem não ouve os verbos pronunciados no futuro mesmo quando, após o primeiro ciclo de quimioterapia, o tumor não regrediu, é que pode achar que se ficou atrás da linha da meta. Só quem não presta atenção à vontade de viver de quem às vezes não se consegue levantar pode não ver apenas vitórias.

Só quem não aprende uma lição de vida perante um «eu sou feliz sabias?» pronunciado numa respiração ofegante para controlar um grito de dor, não conclui que a medalha de ouro já ninguém a leva, a não ser o doente que temos à nossa frente, futuro sobrevivente ao cancro ou não.

Os meus doentes morreram, mas ai de quem me diga que perderam a batalha. Foram duas vitórias completamente diferentes no percurso, mas totalmente iguais nos recordes que bateram. E o primeiro foi o terem partido sem nos terem deixado a nós como perdedores.

A maneira como passaram pela doença ensinou-me que por mais difícil que possa ser a vida – e se ela pode fazer doer –, há sempre maneira de tirarmos alguma coisa boa de cada dia em que respiramos, mesmo que seja para viver só depois de ter passado a dor. Em algum momento da vida, havemos de nos lembrar do propósito de cada lição que aprendemos e vê-la como um enriquecimento e não como uma perda.

Pode ser que eu tenha tido sorte com os meus vencedores. Ou pode ser que devamos tirar o chapéu a todas as pessoas que vencem todos os dias que vivem com a sua doença.