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Ouvir e dizer
25.07.2016
As palavras magoam, têm força de arma, mas também de colo e de aconchego. As palavras atingem-nos e vergam-nos, mas também nos conseguem fazer sentir heróis, no topo do mundo.
 
Não há como, portanto, negar-lhes a força, a intensidade e a intenção. As palavras são o que são e têm o seu significado, mas a intensidade e intenção é-lhes dada por quem as diz, e o seu impacto é permitido por quem as ouve.
 
Por vezes, deixamo-nos atingir facilmente, creio, mas porque estamos mais concentrados no seu potencial negativo.
 
Naturalmente este texto não surge inocentemente. Ele vem, por um lado, em «minha defesa» (privilégios de quem tem onde escrever) e, por outro, em defesa de outros que frequentemente numa tentativa (certo, pode ser desajeitada) de “fazerem conversa” são vistos como agressores.
 
À terceira gravidez ouvimos muitas palavras de espanto, mas também de admiração. Eu sempre olhei para elas com um sorriso e nunca lhes vi maldade. Nunca me senti agredida, nem na necessidade de dar nenhuma “resposta torta”. Mas tenho percebido que perguntas como: «É o terceiro? Mas queriam ou foi acidente?», «Foram à procura do menino?» ofendem muitas outras pessoas. Observações semelhantes a «grandes malucos», «corajosos» e outras que tais, já foram objeto de “retaliação verbal” e de uma indignação, a meu ver, exacerbada.

Faz-me uma certa confusão interpretar observações de circunstância com atos mal-intencionados de pessoas que muitas vezes não nos conhecem sequer o suficiente para perderem tempo a tentar ser desagradáveis.
 
É dado adquirido do senso comum que a comunicação não é fácil, precisamente porque envolve mais do que uma pessoa, que arrasta consigo o peso das suas experiências e as suas próprias intenções.
 
Precisamente porque não é fácil e porque as palavras têm impacto, é que não deve ser um tema deixado de lado, nem deve ser uma área em que nos consideramos senhores da razão.

Da parte de quem diz (e agora contra mim falo), tem de haver disponibilidade para aceitar que o outro se ressinta do que lhe dizemos, mas sobretudo tem de existir humildade para perceber que o impacto do que dizemos não está só em nós, mas também em quem nos ouve. Se quem nos ouve se sente atingido, melhor será avaliar o modo como dizemos as coisas.
 
Da parte de quem ouve talvez seja necessário um exercício de abertura ao outro, esperar que o outro não nos queira mal, ou não esperar que a intenção de um terceiro seja sempre a de nos atingir. No fundo, é também um exercício de humildade, o de baixar o nosso grau de “importância” na vida do outro, para que não pensemos que vive para nos desconsiderar ou invejar.
 
Para dizer e para ouvir, facilita, se escolhermos ver o lado bom.