Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
​Pandemia: 20 mil casais à espera para casar pela Igreja
18.03.2021
São cerca de 20 mil os casais de noivos que estão a aguardar pelo desconfinamento para poderem celebrar o seu matrimónio pela Igreja. As contas são feitas por Joaquim Valente, responsável pela Federação dos Centros de Preparação para o Matrimónio. «Não sei quantos casamentos havia por ano na igreja, mas este ano temos 20 mil casais para casar este ano, se tudo funcionar bem», diz este responsável.

 
Este é um número elevado, justificado pela quantidade de casais que frequentaram os CPM ao nível nacional durante estes dois últimos anos, a quem os confinamentos e a lotação muito limitada nas celebrações impediram a realização da cerimónia. «Teremos destes dois anos oito mil casais em espera para realizar o casamento agora, dos que passaram pelo CPM ([Curso de Preparação para o Matrimónio], que abrange 30 a 40% dos que se casam pela Igreja», o que significa segundo as contas, que «seriam 20 mil casais à espera de casar».
 
Segundo o jornal Público, o Instituto Nacional de Estatística indicou que o ano de 2020 teve os números mais baixos desde 1886, altura em que se começaram a fazer registos. Foram registados 18.889 casamentos, de acordo com dados preliminares publicados esta terça-feira pelo INE. O ano que tinha o pior registo era 1918, logo a seguir à I Guerra Mundial, em que se registaram 30.236, mas agora os valores baixaram muito.
 
Em 2019 tinham-se registado, segundo o INE, 33.272 casamentos em Portugal, dos quais 10.037 foram católicos e 22.404 civis. A expetativa é, portanto, que, em 2021, este número duplique, no que diz respeito às cerimónias religiosas, mas também às civis.
 
Filipe Loio e Marisa Branco tinham casamento marcado para dia 6 de junho de 2020, e iniciaram o CPM em fevereiro. «Fizemos um mês presencial, sem limitações, e o resto já foi com máscara e distanciamento, mas ainda presencial», conta-nos Filipe. Depois, veio o confinamento e a incerteza levou-os a ponderar alterar a data. No entanto, foi mesmo o medo o maior fator que pesou na balança de uma decisão que «nos custou muito». «Começámos a ficar com receio de poder haver contágios durante o casamento, porque naquela altura não havia vacina à vista, e ficámos com medo de casar. Não era só a diminuição do número de convidados, era mais o receio de que alguém ficasse contagiado no dia do casamento», lembra Marisa, enquanto explica que foi uma decisão «bem aceite» por todos.

 
Apesar de no verão do ano passado ter sido possível celebrar casamentos, a verdade é que o fator comunitário influenciou a decisão de muitos casais de esperar por uma altura em que pudessem ter todos os que desejavam à sua volta naquele dia. «Há uma componente comunitária muito importante na celebração do matrimónio... Não é apenas uma coisa espiritual, não podemos retirar a vertente celebrativa, humana e de convivência com a família», explica-nos o Pe. Paulo Jorge, assistente nacional da Federação.
 
Os desafios e as aprendizagens da pandemia
Durante o confinamento, o trabalho dos CPM não parou, mas passou para o digital. «Estamos a fazer CPM digitais e estão a funcionar lindamente. Isto era um compromisso que tínhamos para a nossa direção, e digo isto com muita fé e humildade: a pandemia veio ajudar-nos a concretizar os objetivos que tínhamos, que era poder fazer chegar esta caminhada a todos os casais, estivessem eles onde estivessem», diz Joaquim Valente.

Joaquim Valente, responsável pela Federação dos Centros de Preparação para o Matrimónio 
A realidade dos CPM virtuais vai manter-se, mesmo depois da pandemia, garante este responsável, que dá exemplos de como pode ser útil a colmatar problemas que estavam a ser sentidos. «O digital vai-se manter, e vão coabitar os dois sistemas. A diocese de Beja, que vinha a dizer que era muito difícil os noivos movimentarem-se, porque a diocese é grande e só havia CPM no centro da diocese: está ultrapassada essa questão com o digital. O problema dos noivos que estão espalhados pela Europa [e que queriam casar em Portugal, com acontece com muitos emigrantes] está também resolvido, via digital», explica Joaquim Valente, que não retira importância à componente presencial. «Claro que o presencial vai-se manter, porque o presencial dá outras raízes, mas a experiência do digital tem sido muito positiva», conclui.

 
Texto e fotos: Ricardo Perna
Continuar a ler