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Papa pede igreja «diferente» e convida todos ao «discernimento»
09.10.2021
O Papa inaugurou hoje no Vaticano a sessão de abertura do processo sinodal 2021-2023, pedindo uma Igreja «diferente», que supere «visões verticalizadas, distorcidas e parciais», com mais abertura e diálogo. Participaram no momento de oração conjunta que decorreu na Aula Nova do Sínodo mais de 200 membros de organismos internacionais de bispos, delegados de vida consagrada e movimentos laicais, membros da Cúria Romana e do Conselho Consultivo dos Jovens, criado após o Sínodo de 2018.


O Papa esteve no início dos trabalhos, e falou da sua visão do que é uma igreja sinodal. «Quando falamos duma Igreja sinodal, não podemos contentar-nos com a forma, mas temos necessidade também de substância, instrumentos e estruturas que favoreçam o diálogo e a interação no Povo de Deus, sobretudo entre sacerdotes e leigos«, disse, perante centenas de participantes reunidos na Sala do Sínodo.

Francisco defendeu a mudança estrutural para uma Igreja «sinodal», como «um lugar aberto, onde todos se sintam em casa e possam participar». «O Sínodo oferece-nos a oportunidade de nos tornarmos uma Igreja da escuta: uma Igreja da proximidade, que estabeleça, não só por palavras mas com a presença, maiores laços de amizade com a sociedade e o mundo», indicou.

O discurso destacou a diversidade de proveniência dos participantes, vindos de vários países, incluindo Portugal, e convidou a um «discernimento» sobre o tempo atual, que torne a Igreja solidária com os «cansaços e anseios da humanidade».

Francisco apresentou três «palavras-chave» para o Sínodo 2021-2023: «comunhão, participação, missão». «Comunhão e missão correm o risco de permanecer em termos algo abstratos, se não se cultiva uma práxis eclesial que exprima a sinodalidade no concreto de cada etapa do caminho e da atividade, promovendo o efetivo envolvimento de todos e cada um», apontou.


Para o Papa, está em causa a necessidade de promover um modo de agir «caraterizado por verdadeira participação» de todos os batizados. «Todos somos chamados a participar na vida da Igreja e na sua missão. Se falta uma participação real de todo o Povo de Deus, os discursos sobre a comunhão arriscam-se a não passar de pias intenções», precisou, admitindo que «sente-se ainda uma certa dificuldade e somos obrigados a registar o mal-estar e a tribulação de muitos agentes pastorais, dos organismos de participação das dioceses e paróquias, das mulheres que muitas vezes ainda são deixadas à margem». «Participarem todos: é um compromisso eclesial irrenunciável», indicou.

O Papa falou do Sínodo como uma “grande oportunidade para a conversão pastoral em chave missionária e também ecuménica”, mas admitiu que também existem «riscos», pedindo que este não seja um acontecimento de «fachada» ou uma espécie de «grupo de estudo».

A intervenção apelou ainda à superação do «imobilismo», que levaria a aceitar «soluções velhas para problemas novos». «É importante que o caminho sinodal seja verdadeiramente tal, que seja um processo em desenvolvimento; envolva, em diferentes fases e a partir da base, as Igrejas locais, num trabalho apaixonado e encarnado, que imprima um estilo de comunhão e participação orientado para a missão», apontou.

A intervenção concluiu-se com uma oração ao Espírito Santo, por uma «Igreja diferente», aberta à «novidade que Deus lhe quer sugerir».

Vinde, Espírito Santo! Vós que suscitais línguas novas e colocais nos lábios palavras de vida, livrai-nos de nos tornarmos uma Igreja de museu, bela mas muda, com tanto passado e pouco futuro. Vinde estar connosco, para que na experiência sinodal não nos deixemos dominar pelo desencanto, não debilitemos a profecia, não acabemos por reduzir tudo a discussões estéreis. Vinde, Espírito de amor, e abri os nossos corações para a escuta. Vinde, Espírito de santidade, e renovai o santo Povo de Deus. Vinde, Espírito Criador, e renovai a face da terra.

 
Pode ler o discurso do Papa na íntegra clicando aqui.

As primeiras intervenções da manhã ficaram a cargo da teóloga espanhola Cristina Inogés e do jesuíta Paul Béré, do Burquina-Faso, antes do discurso do Papa Francisco, após o qual o Papa deixou os trabalhos. Seguiram-se o cardeal Jean Claude Hollerich, relator-geral do Sínodo 2021-2023, e o cardeal Mario Grech, secretário-geral do Sínodo. Os mais de 200 participantes nesta sessão vão ouvir testemunhos de leigos, religiosos e bispos, além de uma saudação do irmão Alois, prior da comunidade ecuménica de Taizé, dos quais daremos conta num artigo próprio que pode ler aqui.


A reportagem em Roma é fruto de uma parceria estabelecida entre a Família Cristã, a Agência Ecclesia, o Diário do Minho e a Associação de Imprensa Cristã.

 
Texto: Ricardo Perna (com Octávio Carmo)
Fotos: Vatican Media
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