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Papa publica exortação sobre os jovens e para os jovens
02.04.2019
Foi publicada hoje a exortação pós-sinodal Christus Vivit, «Cristo vive», que surge na sequência do sínodo sobre os jovens que decorreu em outubro passado no Vaticano. A exortação já tinha sido assinada pelo Papa Francisco na sua visita ao Santuário do Loreto no passado dia 25 de março, e foi hoje apresentada publicamente, através de uma conferência de imprensa na Sala de Imprensa da Santa Sé.

 
A exortação surge assim na sequência da discussão tida ao longo de quase um mês no Vaticano, e é um documento que, ao mesmo tempo, se dirige aos jovens, mas também ao Povo de Deus em geral, «aos seus pastores e fiéis, porque a reflexão sobre os jovens e para os jovens nos convoca e estimula a todos», escreve o Papa no ponto 3. É por isso que, em alguns pontos, o Santo Padre fala diretamente aos jovens e, em outros, sobre os jovens.
 
São 299 pontos que procuram enquadrar aquilo que foi o jovem na história da Igreja, a partir do Evangelho, procuram estabelecer desafios e linhas de ação para os jovens e para quem lida com eles, e pretendem criar um espaço de intervenção que o jovem ainda não possui dentro da Igreja e dentro da sociedade civil, enquanto tarefa missionária do jovem.
 
O Papa reconhece que se deixou «inspirar pela riqueza das reflexões e dos diálogos do Sínodo do ano passado», e admite que reúne neste documento «as propostas que me pareceram mais significativas». Continua a não haver uma grande importância dada às questões da sexualidade, uma das áreas onde a reflexão ficou mais aquém das pretensões de alguns, à semelhança do que aconteceu no Sínodo.
 
O primeiro capítulo percorre todos os momentos em que, na Bíblia, um jovem assume alguma espécie de protagonismo, recordando histórias do Antigo e do Novo Testamento, como as de José, David, Samuel, do jovem rico, ou do filho pródigo.
 
Depois, e olhando para a Igreja, Francisco afirma, no ponto 34, que «ser jovem, mais do que uma idade, é um estado do coração». «Daí que uma instituição tão antiga como a Igreja se possa renovar e voltar a ser jovem em diversas etapas da sua longuíssima história», pode ler-se. É em vista desta renovação, que se pode conseguir com os jovens, que o Papa pede ao Senhor que «liberte a Igreja daqueles que a querem envelhecer, encerrar no passado, detê-la, imobilizá-la», mas «também que a liberte de outra tentação: julgar que é jovem porque cede a tudo aquilo que o mundo lhe oferece, julgar que se renova porque esconde a sua mensagem e se mimetiza com os demais». «É jovem quando é ela própria, quando recebe a força sempre nova da Palavra de Deus, da Eucaristia, da presença de Cristo e da força do seu Espírito em cada dia. É jovem quando é capaz de regressar uma e outra vez à sua fonte», refere o ponto 35.
 
O papel dos jovens nesta renovação é precisamente o de, segundo o Papa, «ajudar a manter-se [a Igreja] jovem, a não cair na corrupção, a não desistir, a não se orgulhar, a não se converter em seita, a ser mais pobre e testemunhal, a estar próxima dos últimos e dos descartados, a lutar pela justiça, a deixar-se interpelar com humildade».

 
Para isso, diz Francisco, «faz-nos falta criar mais espaços onde ressoe a voz dos jovens», espaços onde se possa «ter em conta a visão e também as críticas dos jovens». Sobre isto, o ponto 218 do documento retoma um dos pedidos do Documento Final do Sínodo. «Neste âmbito, nas nossas instituições precisamos de oferecer lugares próprios aos jovens, que eles possam arranjar a seu gosto e onde possam entrar e sair com liberdade, lugares que os acolham e onde se possam aproximar espontaneamente e com confiança, indo ao encontro de outros jovens tanto nos momentos de sofrimento ou de tédio, como quando desejem celebrar as suas alegrias». Apesar disto, o Papa nada refere sobre a proposta de conferir aos jovens assento nos lugares de decisão das diferentes hierarquias eclesiásticas dos países, uma das principais novidades saídas do Documento Final.
 
Os obstáculos dos dias de hoje
O Papa dedicou uma parte da exortação a falar dos vários problemas e obstáculos que se colocam aos jovens nos dias de hoje. Desde logo, «muitos jovens vivem em contextos de guerra e padecem a violência numa inumerável variedade de formas: sequestros, extorsões, crime organizado, tráfico de seres humanos, escravidão e exploração sexual», e a outros, «por causa da sua fé, custa-lhes encontrar um lugar nas sociedades em que vivem e são vítimas de diversos tipos de perseguições e, inclusivamente, da morte». O Papa fala ainda das crianças soldados e dos delinquentes «forçados» em virtude do contexto onde crescem, e não esquece «os jovens ideologizados, utilizados e aproveitados como carne para canhão ou como força de choque para destruir, amedrontar ou ridicularizar outros», bem como os que padecem de «formas de marginalização e exclusão social por razões religiosas, étnicas ou económicas». «Recordamos a difícil situação de adolescentes e jovens que engravidam e a praga do aborto, bem como a difusão do HIV, as várias formas de dependência (drogas, jogos de azar, pornografia, etc.) e a situação das crianças e jovens da rua, que não têm casa, nem família, nem recursos económicos», pode ler-se no ponto 75.
 
Sobre isto, o Papa fala a todos a pede uma Igreja que «chora frente a estes dramas dos seus filhos». «Nós queremos chorar para que a sociedade também seja mais mãe, para que, em vez de matar, aprenda a dar à luz, para que seja promessa de vida. Choramos ao recordar os jovens que já morreram pela miséria e pela violência, e pedimos à sociedade que aprenda a ser mãe solidária. Essa dor não nos larga, caminha connosco, porque a realidade não se pode esconder», anestesiando os jovens «com outras notícias, com outras distrações, com banalidades».
 
O Papa dedica alguns pontos a falar sobre o ambiente digital e as suas vantagens e riscos, alertando para o perigo de «confundir a comunicação com o mero contacto visual», e estabelece o desafio que os jovens enfrentam de «interagir com um mundo real e virtual, em que penetram sozinhos, como num continente global desconhecido». «Os jovens de hoje são os primeiros a fazer esta síntese entre a pessoa, o próprio de cada cultura e o global. No entanto, isso requer que consigam passar do contacto virtual a uma boa e sã comunicação», alerta n ponto 90.

 
A crise dos abusos sexuais, bem como todo o tipo de abusos, não foi esquecida pelo Papa, que agradece aos que «tiveram a coragem de denunciar o mal sofrido», uma vez que «ajudam a Igreja a tomar consciência do sucedido e da necessidade de reagir com determinação», mas não esquece todos os que trabalham no sentido contrário, que são, afirma, a «maioria». «Peço aos jovens que se deixem incentivar por esta maioria. Seja como for, quando virdes um sacerdote em risco, porque perdeu a alegria do seu ministério, porque procura compensações afetivas ou está a desviar-se do rumo, atrevei-vos a recordar-lhe o seu compromisso para com Deus e para com o seu povo, anunciando-lhe o Evangelho e alentando-o a manter-se no bom caminho. Assim prestareis uma ajuda de valor inestimável numa coisa fundamental: a prevenção que permita evitar a repetição de tais atrocidades», pede o Papa no ponto 100.
 
Caminhos a seguir no «Grande Anúncio»
O Papa pede ainda que as comunidades realizem «um exame da sua própria realidade juvenil», «para poderem discernir os caminhos pastorais mais adequados».
 
Aos jovens, pede que reconheça uma coisa «fundamental». «Ser jovem não é apenas a busca de prazeres passageiros e de êxitos superficiais. Para que a juventude cumpra a finalidade que tem no percurso da tua vida, deve ser um tempo de entrega generosa, de oferenda sincera, de sacrifícios que doem, mas que nos tornam fecundos».
 
Para isso, dedica um dos capítulos diretamente a eles, falando-lhes do «Grande Anúncio». «Quando [Deus] te pede alguma coisa ou quando, simplesmente, permite aqueles desafios que a vida te apresenta, espera que lhe dês espaço para te poder fazer seguir em frente, para te promover, para te amadurecer. Não o incomoda que lhe apresentes as tuas interrogações, aquilo que o preocupa é que tu não fales com Ele, não te abras, com sinceridade, ao diálogo com Ele», escreve o Papa no ponto 117.
 
Aos jovens, o Papa pede ainda que, depois da confissão, «crê firmemente na sua misericórdia, que te liberta da culpa». «Se Ele vive, isso é uma garantia de que o bem se pode tornar caminho na nossa vida, e de que as nossas fadigas servirão para alguma coisa. Então podemos deixar as lamentações e olhar para a frente, porque com Ele é sempre possível», sustenta o Santo Padre.
 
A exortação defende ainda que «a juventude é um tempo abençoado para o jovem e uma bênção para a Igreja e para o mundo». Por isso, o Papa apela a «perseverar no caminho dos sonhos», mas avisa contra uma tentação que afeta muitos jovens no seu contacto com a Igreja, a «ansiedade», «uma grande inimiga quando nos leva a baixar os braços porque descobrimos que os resultados não são imediatos». «Os sonhos mais belos conquistam-se com esperança, paciência e empenho, renunciando às pressas. Ao mesmo tempo, não nos devemos deter por insegurança, não devemos ter medo de apostar nem de cometer erros. Devemos ter medo, isso sim, de viver paralisados, como mortos ainda em vida, convertidos em seres que não vivem porque não querem arriscar, porque não perseveram nos seus compromissos ou porque têm medo de se equivocar. Mesmo que te equivoques poderás sempre levantar a cabeça e começar de novo, porque ninguém tem o direito de te roubar a esperança», escreve o Papa no ponto 142.
 
Para que isto seja possível, o Papa retoma uma ideia que já tinha deixado passar na Jornada Mundial da Juventude de Cracóvia, em 2016, a necessidade dos jovens saírem do «sofá». «Não confundais a felicidade com um sofá nem passeis toda a vossa vida diante de um ecrã. Tampouco vos deveis converter no triste espetáculo de um veículo abandonado. Não sejais automóveis estacionados, pelo contrário, deixai brotar os sonhos e tomai decisões. Arriscai, mesmo que vos equivoqueis. Não sobrevivais com a alma anestesiada nem olheis o mundo como se fôsseis turistas. Fazei barulho! Deitai fora os medos que vos paralisam, para que não vos convertais em jovens mumificados. Vivei! Entregai-vos ao melhor da vida! Abri a porta da gaiola e saí a voar! Por favor, não vos aposenteis antes de tempo», apela Francisco no ponto 143.
 
O Papa alerta ainda para os perigos de, «frente a um mundo tão cheio de violência e de egoísmo», os jovens correrem o risco de «se encerrarem em pequenos grupos, privando-se assim dos desafios da vida em sociedade, de um mundo vasto, desafiante e necessitado. Sentem que vivem o amor fraterno, mas talvez o seu grupo se tenha convertido num mero prolongamento do seu eu. Isto agrava-se se a vocação do leigo for concebida apenas como um serviço no interior da Igreja (leitores, acólitos, catequistas, etc.), esquecendo que a vocação laical é, sobretudo, a caridade na família, a caridade social e a caridade política: é um compromisso concreto a partir da fé para a construção de uma sociedade nova, é viver no meio do mundo e da sociedade para evangelizar as suas diversas instâncias, para fazer crescer a paz, a convivência, a justiça, os direitos humanos, a misericórdia e, assim, estender o Reino de Deus no mundo».
 
É no mundo lá fora que o Papa quer os jovens, «lutadores pelo bem comum, sede servidores dos pobres, sede protagonistas da revolução da caridade e do serviço, capazes de resistir às patologias do individualismo consumista e superficial», embora avise que a missão não será «fácil e cómoda». «Alguns jovens deram a vida para não travar o seu impulso missionário», alerta.


 
A beleza de acolher todos os jovens
Todo o percurso de vida do jovem será tanto mais rico quanto for possível incluir nele os contributos dos anciãos, escreve o Papa. No Sínodo, relembra, os jovens foram criticados por nem sempre estarem disponíveis para escutar os mais velhos, e o Papa começa por afirmar essa importância. «A Palavra de Deus recomenda que não se perca o contacto com os idosos, para se poder aproveitar a sua experiência», diz, embora fale diretamente aos jovens para lhes dizer que «isto não significa que tenhas de concordar com tudo o que eles dizem, nem que devas aprovar todas as suas ações». «Um jovem deveria ter sempre um espírito crítico. São Basílio Magno, referindo-se aos antigos autores gregos, recomendava aos jovens que os estimassem, mas que aceitassem apenas o bom que eles lhes pudessem ensinar. Trata-se, simplesmente, de estar abertos para acolher uma sabedoria que se comunica de geração em geração, que pode conviver com algumas misérias humanas, e que não há razões para desaparecer frente às novidades do consumo e do mercado», defende no ponto 190 da exortação.
 
Sobre as propostas dirigidas aos jovens, o Papa recomenda a leitura do Documento Final, mas refere três caminhos para os jovens. A «busca», onde se deve «estimular os jovens e dar-lhes liberdade para que eles se entusiasmem missionando nos âmbitos juvenis», e o «crescimento», em que o Papa pede aos agentes pastorais que acalmem «a obsessão por transmitir um excesso de conteúdos doutrinais e tentemos, em primeiro lugar, suscitar e enraizar as grandes experiências que sustentam a vida cristã», e se fortaleçam as experiências em «projetos que os fortaleçam, os acompanhem e os lancem ao encontro dos demais, no serviço generoso e na missão».
 
O Papa fala muito na necessidade de disponibilizar ações de «serviço» como forma de abrir uma «oportunidade única para o crescimento e também de abertura ao dom divino da fé e da caridade», e elogia as organizações que despertam «especial atenção» ao «contacto com a criação e são sensíveis até ao cuidado do ambiente, como acontece com os Escuteiros e com outros grupos», experiências que «podem significar um caminho de iniciação na escola da fraternidade universal e na oração contemplativa».

 
Sobre a pastoral juvenil, o Papa alerta para a construção de um projeto que seja capaz de «criar espaços inclusivos», mesmo para quem não está totalmente dentro da realidade da fé. «Nem sequer faz falta que alguém assuma completamente todos os ensinamentos da Igreja para que possa usufruir de alguns dos nossos espaços para jovens. Basta que participe numa atividade aberta a todos os que sintam o desejo e a disposição de se deixarem encontrar pela verdade revelada por Deus», defende o Papa, que sugere que «algumas propostas pastorais podem supor um caminho já percorrido na fé, mas precisamos de uma pastoral popular juvenil que abra portas e ofereça espaço a todos e a cada um com as suas dúvidas, os seus traumas, os seus problemas e a sua busca de identidade, os seus erros, a sua história, as suas experiências de pecado e todas as suas dificuldades».
 
O Papa sugere que os jovens criem «novas formas» de missão, como «as redes sociais», mas alerta os jovens que a sua vocação não se manifesta «apenas nos trabalhos que tiveres de fazer». «A tua vocação orienta-te para extraíres o melhor de ti para glória de Deus e para bem dos outros. O importante não é apenas fazer coisas, mas fazê-las com um sentido, com uma orientação».
 
Mesmo enfrentando as dificuldades da sociedade e do mercado de trabalho, o Papa pede a cada jovem que nunca enterre «definitivamente uma vocação, nunca te dês por vencido». «Continua sempre a procurar, pelo menos, modos parciais ou mesmo imperfeitos de viver aquilo que, segundo o teu discernimento, reconheces como uma verdadeira vocação», escreve, no ponto 272.
 
Até porque, conclui, «quando alguém descobre que Deus o chama a alguma coisa, que foi feito para isso – quer para a enfermagem, quer para a carpintaria, a comunicação, a engenharia, a docência, a arte ou para qualquer outro trabalho – será capaz de fazer brotar as suas melhores capacidades de sacrifício, de generosidade e de entrega». «Saber que não faz as coisas automaticamente, mas com sentido, como resposta a um chamamento que ressoa no mais profundo do seu ser, para dar alguma coisa aos outros, faz com que essas tarefas deem ao seu próprio coração uma experiência especial de plenitude».

 
Texto e fotos: Ricardo Perna
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