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Parlamento Europeu discute situação de Cabo Delgado
03.12.2020
As Comissões de Assuntos Externos e de desenvolvimento do Parlamento Europeu discutiram esta quinta-feira a situação em Cabo Delgado, Moçambique. D. Luiz Fernando, bispo da diocese de Pemba, interveio através da internet, como aliás muitos dos eurodeputados. O prelado disse que «há três anos foi iniciada uma guerra com homens armados e de lá para cá nos já temos mais de dois mil mortos e mais de 500 mil deslocados». D. Fernando Luiz salientou a situação de fragilidade em que se encontram os deslocados e as comunidades onde chegam. «Cada distrito de Cabo Delgado onde ainda não aconteceu a guerra tem milhares de pessoas deslocadas. Pemba, cidade capital, está com 150 mil deslocados. É uma tragédia humana, uma crise humanitária muito forte. A maioria das pessoas saiu das suas aldeias e deixaram tudo para trás. Muitas tiveram as suas casas e os seus bens queimados. Muitos perderam familiares. Há também meninas raptadas. As pessoas chegam às outras cidades sem nada, simplesmente para defender a vida», disse. No terreno, a Igreja, o governo e organizações não-governamentais trabalham em conjunto para «dar uma resposta a essa situação», nomeadamente «tentando atender às necessidades mais básicas: alimentação, água, roupas, lugar para ficar».



A província de Cabo Delgado tem 17 distritos, e «nove estão atingidos de alguma maneira pela guerra». O que significa que as pessoas estão em fuga desses nove para os restantes oito. «A ausência de ajuda humanitária por causa da insegurança acaba fazendo que as pessoas escondidas ou no mato passem a vir para as cidades, porque as organizações humanitárias saíram». Uma das ações que a Igreja tem desenvolvido, disse o bispo, é o acompanhamento psicossocial. «A violência é, muitas vezes, velada e, muitas vezes, as vitimas não têm coragem de denunciar. É preciso uma ajuda muito forte para detetar estes casos e ver de que maneira se pode ajudar. A Igreja tem feito um trabalho há quatro meses de apoio psicossocial, reunindo grupos, fazemos 5 a 10 encontros com cada grupo. E nesses grupos vão saindo muitas coisas. As pessoas vão trazendo para fora muitos dramas que viveram, traumas. As psicólogas que nós temos podem atender depois individualmente. Nós já vimos muitos casos. Situações dramáticas e também de violência. Quando detetamos, tentamos ajudar a vítima. Mas esse trabalho precisaria de ser intensificado. Há muita coisa escondida que ainda não veio à tona.»




Aos deputados do Parlamento Europeu e representantes de direções-gerais da Comissão Europeia, D. Fernando Luiz salientou as prioridades de ajuda: «Alojamento é uma das ajudas imediatas. Apoiar com material de construção. O povo está fazendo as suas casinhas com material local. Ajuda médica, sim. Em muitos desses lugares não há postos médicos ou não há ajuda suficiente. Seria muito bom que viessem equipas nessa área da saúde.» O bispo mostrou disponibilidade para trabalhar com a União Europeia no apoio às populações e disse esperar «que essa reunião traga saídas muito concretas em tempo mais urgente possível para nos ajudar».

D. Fernando Luiz agradeceu o apoio de várias campanhas em Portugal, Brasil e Espanha «Juntos por Cabo Delgado», mas defendeu que «ainda não chega»: «As nossas cidades estão sobrelotadas. [Os deslocados] começam a sair da província. Estão já em províncias vizinhas e há já informação que já chegaram ao centro do país e até à capital. Precisamos de ajuda para que essas famílias sejam atendidas condignamente.»

Na reunião, falaram eurodeputados de vários grupos parlamentares do Parlamento Europeu.
Paulo Rangel, do Partido Popular Europeu e do PSD, criticou as direções-gerais da Comissão Europeia: «Falam imenso sobre projectos de médio prazo. Falam de cheias e de segurança a médio prazo. Mas atenção: não falam sobre a ajuda imediata no terreno que é preciso pôr. Que tipo de ajuda alimentar, ajuda médica, ajuda em termos de alojamento é que a União Europeia está a dar? Há ONG, há organizações da sociedade civil mas não vemos no terreno a força da União Europeia e até de Portugal. Portugal está muito inativo. É fundamental criar esta consciência. Podem quantificar qual a ajuda que foi dada em bens, em dinheiro, em termos humanitários e o que pensam fazer até ao final do ano, com a época das chuvas?» Isabel Santos, do Partido Socialista Europeu e do PS, também questionou a ajuda que é preciso dar no concreto: «Há milhares de pedidos de ajuda todos os dias. Que diálogo é que a União Europeia está a manter com as Nações Unidas e com as organizações africanas para tentar encontrar uma resposta conjugada e integrada para toda esta crise? O povo de Moçambique não pode esperar mais. Todos os dias há crianças e mulheres violadas e raptadas. É preciso termos noção que todos os dias há pessoas mortas, decapitadas e desmembradas…»

Foram pedidas respostas concretas para esta crise, e responderam três responsáveis de direções-gerais da Comissão Europeia. Francesca Di Mauro, diretora da Cooperação Internacional e do Desenvolvimento na África Central, referiu-se a programas de médio prazo já em curso de formação e emprego de jovens locais em empresas petrolíferas europeias, com um custo de 21 milhões de euros. Di Mauro defendeu que «claramente a região de Cabo Delgado é uma prioridade para a nossa assistência humanitária, trabalho com a radicalização dos jovens. Temos de agir no terreno junto das comunidades para ver como abordar este problema». No concreto da crise actual, revelou que «estamos a deslocalizar escolas para que as crianças possam continuar a frequentar as escolas, temos também apoio alimentar e nutrição». Dominique Albert, chefe da unidade do Este e Sudeste de África, defende que «a resposta da União Europeia está em curso. Houve um aumento em relação ao que foi feito no ano passado. Esta é uma crise nova também para as organizações». Concretamente, lamenta que haja «um condicionalismo importante em termos de segurança nos distritos. Estes parceiros humanitários não conseguem lá entrar e depois há problemas com a própria capacidade das organizações». Contudo, «há distribuição de alimentos, água, saneamento, abrigos, protecção. No ano que vem Cabo Delgado será uma das prioridades. Diz respeito à nossa estratégia de financiamento na África Austral».
Em Portugal, a Comissão Nacional Justiça e Paz lançou hoje uma nota alertando para a situação de Cabo Delgado. «Os atentados que hoje atingem esta região do Norte de Moçambique são de uma gravidade extrema, equivalente à dos atentados terroristas que têm atingido a Europa multiplicada por cem ou por mil. Mas não têm recebido uma atenção sequer comparável a estes», lamenta a organização. A Comissão Nacional Justiça e Paz lança um apelo «aos governos de Moçambique e de Portugal, à União Europeia e às Nações Unidas: que se encontrem as formas mais adequadas de defesa das populações vítimas destes ataques». Aos portugueses, pedem que «contribuam para a urgente ajuda humanitária em favor dessas populações».
Em Portugal, é possível ajudar através de várias campanhas. A Cáritas tem contribuído através do Fundo de Emergências Internacionais. Também a Fundação AIS dinamiza a campanha «Cabo Delgado: A Igreja depende de nós». Pode contribuir aqui.
 
Texto: Cláudia Sebastião
Foto: Jacinto Olece/Cáritas
 
 
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