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Pastoral da saúde: fazer acontecer de novo
11.02.2022
No mundo antigo muitos doentes eram considerados pecadores e por isso marginalizados. Jesus mudou o paradigma: promoveu a saúde integral das pessoas saudáveis e dos doentes, acolheu e integrou os doentes. Os evangelhos dizem que Jesus “ungido por Deus com a força do Espírito Santo, passou fazendo o bem e curando a todos, porque Deus estava com Ele” (Act 10,38). Na verdade, o ministério terapêutico de Jesus foi de tal forma importante e impactante que um quinto dos evangelhos se refere a curas de uma grande variedade de doenças. Nenhuma, nem sequer os males psíquicos e espirituais, resistiam ao poder curador de Jesus.

Jesus tornou os discípulos continuadores da sua missão de curar e salvar. Ordenou-lhes que anunciassem a Boa Nova e curassem (cuidassem) os doentes (cf. Mt 10,6-8). E a Igreja deu continuidade ao mandato de Jesus, como nos dão conta os Actos dos Apóstolos em múltiplas passagens e os Padres da Igreja. No velho mundo pagão, a Igreja fez nascer um mundo novo com pequenas comunidades compassivas que organizaram o cuidado dos pobres e dos doentes.

Nos primeiros séculos, as pestes foram prova de fogo para a evangelização e para a caridade da Igreja. Na peste do ano 260, diz-nos Dionísio de Alexandria que os pagãos expulsavam os doentes seus familiares do meio deles e depois fugiam, abandonando-os e tratando-os como lixo. Os cristãos, por seu lado, permaneciam, como refere Cipriano de Cartago: «Os que estão bem cuidam dos doentes, os parentes atendem amorosamente os seus familiares como é devido, os amos mostram compaixão pelos seus escravos enfermos, os médicos não abandonam os seus doentes (…) Estamos aprendendo a não ter medo da morte». E Eusébio descreve: «A maioria dos nossos irmãos cristãos mostraram um amor e uma lealdade sem limites, sem lastimar-se e pensando nos outros. Sem temer o perigo, tomaram a seu cargo os doentes, atendendo a todas as suas necessidades e servindo-os em Cristo (…) Os melhores dos nossos irmãos perderam a vida desta maneira, um bom número de presbíteros, diáconos e leigos chegaram à conclusão de que a morte desta maneira, como resultado de uma grande piedade e de uma fé forte, se parece em tudo semelhante ao martírio».

Quando a liberdade religiosa foi permitida no império, na primeira parte do século IV, a Igreja construiu uma rede de hospitais, primeiro junto às Catedrais e nos Mosteiros, e depois espalhada pelo território conforme a inspiração e generosidade de religiosos e grupos de cristão leigos. Associado ao cuidado dos doentes, geralmente pobres, estava também o cuidado dos pobres com a construção de albergarias. Esta ideia inédita fundada na misericórdia de um Deus Amor deu à caridade dois pulmões: cuidar dos enfermos e cuidar dos pobres com compaixão. Não foi de forma nenhuma pequena a obre da Igreja nem o é hoje. A saúde foi preocupação da Igreja até ao século XX, e continua a sê-lo hoje particularmente fora da Europa. À volta de 80% das instituições de saúde são da Igreja.

Com a Revolução Francesa, deu-se o início da nacionalização dos hospitais e da saúde pelo Estado. O paradigma da misericórdia deu lugar ao paradigma da solidariedade e do direito do cidadão e a saúde foi secularizada. O sistema de saúde que temos hoje é um bem e deve-se à nacionalização dos hospitais e à universalização da saúde como um direito de cidadania. Mas devemos reconhecer também que é fruto da evangelização: a caridade levedou como fermento nas sociedades europeias ao longo da Idade Médio e do Renascimento e fermentou o coração das instituições públicas modernas. A saúde, entre nós, foi nacionalizada em 1974. Aos cuidados da Igreja permanecem algumas franjas dos mais pobres, nomeadamente pessoas com doenças mental, e é-lhe dada ainda a possibilidade de assistir espiritualmente os doentes nos hospitais públicos.

Livre dos territórios hospitalares e de tudo o que isso hoje significa, devendo apenas servir espiritualmente os doentes e os profissionais através das capelanias, a Igreja tem hoje mãos livres e a força do Espírito para desenvolver e recriar a compaixão e a misericórdia no meio do mundo, lugar onde estão as comunidades cristãs, as paróquias. Nelas se faz muito e bem, sobretudo aos pobres e idosos. É muito o trabalho e numerosas as instituições edificadas: centros de dia, lares, apoio domiciliário, refeições, caritas, etc. Mas não se pode dizer o mesmo em relação ao cuidado dos doentes, situação que é inversa ao que vemos espelhado nos evangelhos. Jesus não fundou uma Caritas nem construiu centros de dia ou lares, embora tivesse recorrido uma ou duas vezes a um inédito banco alimentar. (Numa só vez alimentou cinco mil pessoas (cf. Lc 9,14). Existe trabalho pastoral com doentes nas nossas paróquias, mas este não teve o mesmo desenvolvimento que a Pastoral Social. Parece que a Igreja ficou sem grande criatividade depois da perda dos Hospitais nos séculos XIX/XX. O cuidado pastoral com os doentes aparece geralmente envolto em grande timidez e cheio de grandes ambiguidades que é necessário ultrapassar para fazer brilhar a Boa Nova da saúde e da salvação.

À semelhança de Jesus que acolhia e curava e da Igreja que, ao contrário do mundo pagão, não abandonava os doentes durante as pestes e foi capaz de construiu uma rede hospitalar, somos desafiados a construir comunidades compassivas e misericordiosas nestes tempos de individualismo e de descarte. Somos desafiados a retornar ao Evangelho, isto é, a tornar presente a pessoa de Jesus, o Médico Divino, junto dos doentes, suas famílias e cuidadores. E isso pode ser feito usando os meios pobres que Jesus usou e que são apelativos para o homem de hoje: o testemunho, a compaixão, a gratuidade, o acolhimento caloroso, a escuta, a proximidade às necessidades, a oferta de sentido da vida e de reconciliação, a atitude de bênção, a solicitude e a comunhão dos irmãos no Senhor.

Muito disso já é feito, mas para ser mais eficaz, visível, motivador e decididamente evangelizador, é necessário que a solicitude pelos doentes seja uma acção de toda a comunidade e não apenas de alguns ministros, como desafia o Papa Francisco na sua mensagem para o Dia mundial do Doente, devendo ainda ser centrada nas pessoas e suas necessidades -doentes, suas famílias e cuidadores. É necessário para isso uma pastoral de proximidade e presença que seja organizada, integrada, articulada, perceptivel. Isto é, é necessário fazer acontecer uma renovação pastoral ou uma nova pastoral da saúde que recoloque os doentes no coração da comunidade, lugar onde sempre devem estar. Só desse modo é possível cumprir o apelo do Papa de oferecer aos irmãos e irmãs doentes a proximidade de Deus, a sua bênção, a sua Palavra, os Sacramentos e a proposta de um caminho de crescimento e amadurecimento na fé. Na verdade, o doente é pessoa e por isso é sempre mais importante que a sua doença.