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Por uma cultura do encontro
16.07.2018
Ainda não poisara a poeira das discussões, debates e da votação sobre a lei da Eutanásia e já novas batalhas se alinhavavam para o mesmo local, eventualmente à mesma hora, do amanhã mais próximo possível. E até lá?

Aqueles que mais têm feito por uma vida digna para que se tenha uma morte com dignidade são chamados à pedra, a fazerem tudo em consonância com a opção que tomaram, como se os outros – curiosamente do lado de quem detém o poder e, por conseguinte, decide quem e como ajudar – pudessem ficar de fora de qualquer compromisso ou responsabilidade, aguardando em ansiosa confiança o dia do próximo acerto de contagem de votos. Entretanto há tanto bem que todos podemos e devemos fazer.

Uma das grandes causas pela qual se debateu o Papa São João Paulo II foi a da cultura da vida em oposição à cultura da morte, que vai marcando a nossa sociedade, como um estilo de vida, sempre mais enraizado, onde se vai tornando sempre mais presente o relativismo, numa rede de ideologias que, por vezes, denota, além da procura de respostas, a justificação de uma certa inércia, até por motivos economicistas. Ainda que se apele ao respeito de uma pressuposta liberdade pessoal, esta, colide, por vezes, com o valor absoluto da própria vida ou da vida dos outros.

Todas as situações de sofrimento desafiam-nos a respostas mais empenhadas, mais envolventes e, seguramente, mais humanizantes e, naturalmente, mais cristãs. Não basta calar ou afastar aqueles cuja dor incomoda o sossego e a ausência importuna a consciência. A sabedoria está em procurar mudar um gemido ou um lamento em sussurros de vida que se partilha em invólucros que pesam e magoam, mas que pedem um rosto, um gesto, um sorriso, um afeto, uma palavra de proximidade que alivia a dor e dá sentido ao momento presente.

Na mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2014, o Papa Francisco sublinha a necessidade de se descobrirem novas possibilidades de encontro e de solidariedade entre todos: «Uma boa comunicação ajuda-nos a estar mais perto e a conhecer-nos melhor entre nós, a ser mais unidos. Os muros que nos dividem só podem ser superados se estivermos prontos a ouvir e a aprender uns dos outros. Precisamos de harmonizar as diferenças por meio de formas de diálogo, que nos permitam crescer na compreensão e no respeito. A cultura do encontro requer que estejamos dispostos não só a dar, mas também a receber de outros.»

Esta lição é para toda a vida e vale entre pessoas com histórias e passados distintos, olhares e perspectivas diferentes sobre os valores por que nos regemos e até, dentro das próprias famílias, cada vez mais díspares pelas diversas proveniências e diferentes gerações.

Nesta edição, quisemos olhar para a presença dos avós, cujo peso da sabedoria, das memórias da família e dos afetos embevecidos se deve preservar pelo mais vasto espaço de tempo possível. São eles que dão solidez aos encontros em família que devem transvazar para uma forma de estar marcada pela proximidade e o diálogo. «Não basta circular pelas “estradas” digitais, isto é, simplesmente estar conectados: é necessário que a conexão seja acompanhada pelo encontro verdadeiro», diz o Papa Francisco na mensagem de 2014.

As ocasiões de diálogo autêntico e construtivo cimentam o alicerce da cultura do encontro de que beneficia a qualidade, o respeito e a dignidade da vida.