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Porque elogiar é tão importante como reclamar
10.01.2019
Parece uma verdade aceite e inquestionável que o ser humano mais rapidamente tem necessidade de criticar do que de elogiar. Talvez seja por isso que, por lei, todos os estabelecimentos comerciais tenham de ter um Livro de Reclamações no qual também se pode, caso se deseje, elogiar. Mas o próprio nome do livro parece definir aquilo que é prioritário: queixar, criticar, apontar o que está mal. Foi porque entendia as coisas de outra maneira que Cristina Leal se lançou, há seis anos, neste projeto do Livro de Elogios. «O livro, no fundo, pretende dar o outro lado das reclamações, e ser um local onde as pessoas possam ter onde registar o que de bom existe em cada um de nós», diz a fundadora.


Desde muito cedo que Cristina se “queixava”, no bom sentido, de que não podia elogiar quando queria. Ia a todos os sítios e as pessoas olhavam com estranheza quando ela dizia que queria elogiar, e apontavam-lhe o Livro de Reclamações. Mas ela queria algo diferente, e por isso, ao regressar de uma viagem de «recolhimento» à Índia, sentiu que «o dedo de Deus» a tocou e lhe disse: «“Faz”... E eu avancei.»

Se hoje são centenas de empresas as que já aderiram ao projeto, no início «as pessoas achavam imensa graça», mas o ceticismo era a nota dominante. «No início estavam céticas, porque achavam que ninguém iria elogiar, mas como o elogio sincero também tem um cariz muito positivo, as coisas acabaram por começar a fluir», explica.

Os livros custam 20€ + IVA, e podem ser encomendados diretamente na loja em Carcavelos, num ponto de venda na Papelaria Fernandes ou pela internet. «Online somos uma empresa com rosto, com número de telefone fixo e telemóvel, porque faz-me impressão empresas online sem cara», afirma Cristina Leal.

O Livro de Elogios não é uma iniciativa governamental, nem de forma alguma é obrigatório por lei. Aliás, Cristina diz que deveria ser «naturalmente obrigatório», sem carácter de lei ou obrigação forçada. «Os benefícios para as empresas que optam por aderir a este projeto são diferentes em cada empresa. Algumas empresas partilham os elogios connosco, e nós partilhamos no nosso Facebook. Algumas empresas, as maiores, trabalham o livro com os seus funcionários ou como avaliação de desempenho», explica Cristina Leal.

Mas a história mais impressionante de como os elogios podem trazer benefícios e mudar vidas aconteceu ainda antes de se lançar com esta ideia. «Antes de eu lançar o livro, fui à Copimática fazer um trabalho, que estava a correr mal, mas o funcionário, que se chamava Hélder, conseguiu resolver tudo muito bem. No fim, eu disse que gostava de reconhecer o seu trabalho, e ele ficou muito aflito, sem saber o que fazer. Trouxe-me uma folha, eu escrevi o meu BI [Bilhete de Identidade], telefone e deixei um elogio. Disse-lhe que gostava que aquilo chegasse ao seu diretor. Passados uns anos, lancei o livro e quem é que me manda um pedido? A Copimática. Achei piada, e quando vi lembrei-me do rapaz. Isto passou, e um dia vou ao Oeiras Parque, onde tem uma Copimática, e vejo o Hélder. Isto para aí três anos depois daquela situação. Ele nunca me esqueceu, e quando me viu disse: “Olhe, sabe uma coisa, agora já me podia elogiar, porque já temos um livro de elogios.” Eu disse que sabia, porque tinha sido eu a criar, e ele disse “Não me diga! Olhe, a senhora salvou-me a vida. Eu estava com um processo disciplinar quando a senhora me elogiou, ia ser despedido, e foi aquilo que me salvou.” Eu não sabia da situação dele, mas o que escrevi teve impacto sobre ele e sobre a sua situação, e o Hélder hoje é gerente da loja, continua lá e está a sempre a dizer a toda a gente para usar o livro para elogiar», conta, divertida.

Ainda não tiveram quem tivesse desistido da ideia, mas há muitos que encomendam um e nunca chegam a encomendar outro, e quando Cristina pergunta, respondem que as pessoas pedem pouco o livro. No entanto, e do que já pôde ver no terreno, «quando vamos a ver é porque não têm o livro visível, e as pessoas não veem essa hipótese». «Aqueles que vemos que têm o livro exposto, vemos que é usado. Quando não está, pode haver desistência de elogiar e ser elogiado», aponta. É por isso é que, juntamente com o livro, o pack inclui uma monofolha e um autocolante, para que a loja possa colocar bem visível para todos os clientes que tem o livro disponível para ser utilizado.

Cristina Leal e a sua filha, as caras do projeto
Importante é que todos compreendam que, mais do que elogiar um prato ou um produto, o importante é «elogiar as pessoas». «O Livro de Elogios elogia pessoas, não tanto áreas. Na restauração podemos ter a tendência de elogiar a comida, mas a ideia é elogiar quem cozinhou, reconhecer não o produto, mas a pessoa que está à frente. Há pessoas muito boas em todo o lado», assegura.

Mais que um negócio, o Livro de Elogios é, para Cristina Leal, «um modo de vida». «O Livro não é uma ideia que se venda, é uma forma de estar na vida e uma forma de ser. Se uma pessoa genuinamente olhar para dentro e não vir que tem qualidades, porque nunca a ensinaram a reconhecer, e depois estiver atenta e perceber que não a ensinaram a elogiar os outros, então eu sinto que a ideia está vendida, porque quando a pessoa toma consciência de que é bom reconhecer as qualidades que temos, e reconhecer as qualidades nos outros, ficamos com a noção que a vida nos abençoa a todos. É funcionar numa base de reconhecimento positivo das coisas boas que as empresas têm, reconhecer os recursos que temos para sermos melhores, e para as empresas serem melhores», sustenta.

Pode ler o artigo completo na sua edição de janeiro da revista Família Cristã.
 
Texto e fotos: Ricardo Perna
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