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Portugal: Em 2 anos, metade das dioceses vão ter bispo novo
28.01.2022
Com a nomeação de D. José Ornelas para a diocese de Leiria-Fátima, aumenta o número de dioceses sem bispo titular em Portugal. A nomeação acaba por ser uma surpresa, já que ainda em maio este ano, D. António Marto referia à Família Cristã que esperava levar «até ao fim o programa» na diocese (que só terminava em 2023) e que não atirava a «toalha ao chão», mas D. António Marto acabou por revelar hoje, na sua saudação ao novo bispo de Leiria-Fátima, que, afinal, o pedido de resignação já tinha acontecido há um ano, aquando dos seus 74 anos.

 
O processo de nomeação episcopal tem estado envolto em alguma polémica, com muitos a defenderem um modo de nomeação mais sinodal, sem tanto “segredo”, que tornaria o processo mais transparente para todos. Em entrevista à Rádio Renascença, o próprio D. José Ornelas considerou que «o sistema que temos não é perfeito». «Penso que devemos mudar o processo em dois pontos: um no âmbito das consultas para nomeação de bispos, e depois agilizar o processo para que se possa chegar mais rapidamente a dar soluções às dioceses, porque períodos muito longos de ausência, ou de sede vacante, não são úteis para as comunidades, não é positivo», referiu.
 
Lá fora, uma carta de 83 padres no Brasil pedia uma mudança na forma de nomeação dos bispos, que, acusavam, nem sequer ouvia «as igrejas locais», ou os «próprios bispos», num contexto de pedido para maior nomeação de bispos negros naquele país.
Em Portugal ainda, Borges de Pinho, teólogo e professor jubilado da Universidade Católica Portuguesa, afirmava ao jornal 7Margens que «devemos repensar o processo de escolha». «Tal como funciona, o sistema favorece um certo carreirismo eclesiástico, sobretudo neste momento em que há uma diminuição clara de possíveis candidatos. Há pessoas que podem programar a sua vida no sentido de vir a ser escolhidos e isso marca a conduta de alguns jovens padres», observa.

A própria velocidade do processo tem sido algo criticado. A título de exemplo, o substituto de D. Anacleto demorou um ano e dois meses a ser encontrado, enquanto D. Jorge Ortiga entregou a sua resignação há quase três anos, tendo acedido ao pedido do Papa para que se mantivesse apenas mais um ano à frente da arquidiocese. O próprio D. José Ornelas, na sua reação à nomeação para o cargo de Leiria-Fátima, deixou logo claro que espera que a nomeação do novo bispo de Setúbal seja rápida. «Esperamos sim que isso [a nomeação do novo bispo] não demore muito, porque isso não é bom», advertiu o prelado.

D. José Cordeiro deixará a diocese de Bragança-Miranda para ficar à frente da Arquidiocese de Braga 
Como é que se nomeia um bispo?
O processo de nomeação episcopal é, por si, demorado. É responsabilidade do núncio apostólico, que é o representante da Santa Sé em cada país, fazer a auscultação de quem entenda para perceber quais os candidatos ao lugar de bispo titular. Feita a auscultação, é criada uma terna, um conjunto de três candidatos cujos nomes e perfis são enviados diretamente a Roma, para que o Papa possa tomar a sua decisão, em conjunto com a Congregação para os Bispos, liderada pelo cardeal Marc Ouellet, que lidera esta estrutura que apoia o Papa na sua tomada de decisão e afirmou, em entrevista ao Vatican News, não querer para bispos «"carreiristas sociais", pessoas que buscam os primeiros lugares, mas homens que sinceramente querem servir os seus irmãos e mostrar-lhes o caminho da fé e da conversão».
 
Em Portugal, os próximos tempos trarão muitas mexidas na liderança das dioceses. Desde logo, ressaltam os casos de Angra e Bragança-Miranda, sedes vacantes aos quais se junta agora Setúbal, mas não só.
 
D. Ivo Scapolo, núncio apostólico em Portugal, terá também D. Manuel Felício, bispo da Guarda, a celebrar 75 anos de vida já em novembro deste ano, o que significa mais um pedido de renúncia ao cargo de bispo titular e mais uma diocese que fica a aguardar nomeação.
 
Na diocese do Porto, D. Pio Alves já tem 76 anos, pelo que a nomeação de um bispo auxiliar também deverá ser uma tarefa em mãos para o núncio, embora o Porto já tenha atualmente três bispos auxiliares, pelo que poderá perder um sem necessidade de substituição imediata.
 
As resignações seguintes serão em Lisboa. Desde logo, D. Joaquim Mendes, que completará 75 anos em março de 2023, mas também D. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa. O prelado completa em julho 74 anos, pelo que em julho de 2023 deverá apresentar a sua resignação, pouco tempo antes de Lisboa acolher a Jornada Mundial de Juventude, não sendo previsível que seja substituído antes da realização do evento.

D. Manuel Clemente completa 75 anos mesmo antes do início da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa
Em dezembro de 2023, D. Antonino Dias, bispo de Portalegre-Castelo Branco, completa 75 anos e, mais longe, a completar 75 anos em 2024, está D. Manuel Quintas, bispo titular do Algarve.
 
Com uma média de 66 anos de idade nos bispos titulares, é de esperar que essa média possa agora baixar com as saídas anunciadas de D. Jorge Ortiga e de D. António Marto, assim como de D. Manuel Felício, e a esperada entrada de bispos mais novos, mas a renovação da geração é sempre um assunto sensível.
 
O que é certo é que, em cerca de dois anos, 10 das 21 dioceses portuguesas receberão ou precisarão de um novo bispo titular, sendo que o número poderá ser maior se a nomeação para alguma delas implicar transferência de um bispo titular de outra diocese. Uma remodelação que vai permitir rejuvenescer o episcopado português em termos de idade, e poderá corresponder a mudanças na sua liderança também, mas que não é claro quanto tempo demorará.
 
Texto e fotos: Ricardo Perna
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