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Portugal: Novo núncio recusa responsabilidades nos abusos no Chile
14.10.2019
O novo núncio apostólico da Santa Sé em Portugal, D. Ivo Scapolo, concedeu uma entrevista ao jornal El Mercurio, do Chile, onde aborda, pela primeira vez de forma pública, as polémicas relacionadas com o seu alegado papel no encobrimento de casos de abusos sexuais no Chile, uma crise que levou à renúncia de vários bispos e à intervenção do Papa Francisco.

Foto DR
D. Ivo Scapolo rejeita todas as acusações de encobrimento que lhe são feitas no Chile e explica que, «em consciência, posso afirmar que cumpri até o fundo o meu dever como representante pontifício e que os meus superiores não deixaram de apreciar o meu trabalho».

Apesar disso, revela que «foi muito doloroso constatar a realidade dos abusos na Igreja». «Impressionou-me o grande número de denúncias surgidas ultimamente, embora na maioria dos casos os factos não sejam recentes», afirmou.

Um assunto sensível mas, acima de tudo doloroso, para as vítimas e para a Igreja no Chile, que deve sentir «vergonha». «Todos devíamos sentir raiva, dor e vergonha se alguém comete um abuso, mais ainda se é contra um menor de idade, e ainda por cima se é cometido por uma pessoa que, como o sacerdote, tem uma especial responsabilidade», pode ler-se.

Acusado de não ter recebido as vítimas, o prelado italiano reconhece que recebeu «várias pessoas que entregaram o seu testemunho, como vítimas ou denunciantes», e lamenta que, «em alguns casos, isso não tenha sido possível e que
tenha causado sofrimento em algumas pessoas».

O bispo esteve debaixo de fogo por causa da pouca informação que terá chegado a Roma e ao Papa Francisco antes da sua visita ao país, que o levou até a defender o bispo acusado dos abusos, situação pela qual o Papa teve de se retratar mais tarde. D. Ivo Scapolo defende-se, atribuindo as culpas a outras «fontes de informação». «O que lhe posso dizer é que o núncio é uma das fontes de informação da Santa Sé», referiu ao jornalista, acrescentando, quando questionado se o erro esteve com os bispos chilenos, que «não tenho elementos para responder a essa pergunta».

Contudo, o novo núncio apostólico reconhece que à Igreja chilena faltou «coragem» para lidar com as denúncias que eram feitas. «Como Igreja, várias vezes não tivemos a coragem de acolher as denúncias e tomar a tempo as devidas medidas», reconheceu.
Sobre as lições para o futuro, D. Ivo Scapolo aponta «a necessidade de sermos mais empáticos, o dever de acompanhar as vítimas, o assegurar procedimentos mais adequados, o trabalhar na prevenção».

No dia 29 de agosto, o Papa Francisco nomeou o arcebispo italiano D. Ivo Scapolo, de 66 anos, como novo núncio apostólico (embaixador da Santa Sé) em Portugal, após ter sido, desde 2011, o representante diplomático do Papa no Chile; sucede no cargo a D. Rino Passigato, que apresentou a sua renúncia após ter superado o limite de idade estabelecido no Direito Canónico. Será um regresso a Portugal do prelado que, na década de 80, por aqui tinha passado como secretário. «Regresso com agrado à nunciatura em Portugal onde fui Secretário nos fins dos anos 80. Como o Chile, também Portugal é um lindo país, com uma gloriosa história e um rico património artístico», afirmou na entrevista.

D. Ivo Scapolo nasceu em Pádua, a 24 de julho de 1953, e foi ordenado sacerdote a 4 de junho de 1978; entrou no serviço diplomático da Santa Sé em 1984 e exerceu missão nas representações pontifícias de Angola, Portugal, Estados Unidos da América e na secção para as Relações com os Estados da Secretaria de Estado do Vaticano. Como núncio apostólico, representou a Santa Sé na Bolívia (2002-2008), Ruanda (2008-2011) e Chile (2011-2019), segudno dados da Agência Ecclesia.
 
Texto: Ricardo Perna
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