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Presidenciais e o assunto que não existe
01.03.2021
Eleições legais e ordeiras são sempre um momento alto da democracia. O povo expressa a sua vontade e define a linha de rumo do país. As presidenciais de 2021, acontecendo durante uma grande catástrofe da História, são, além disso, também uma vitória da resiliência, coragem e elevação dos portugueses, ficando como uma prova da maturidade da nossa democracia.

Desde o princípio que o resultado não era duvidoso. Nesta República semipresidencialista, o incumbente costuma ter vitória garantida, o que pode indicar nostalgia monárquica ou sabedoria da limitação de mandatos, conforme a interpretação. Assim, todos sabiam que o popular presidente Marcelo Rebelo de Sousa iria continuar no cargo. As dúvidas eram a dimensão da vitória e a dimensão da abstenção, acabando a primeira por ser maior, e a segunda menor que o previsto.

É óbvio que nas eleições só conta o vencedor. Isso é sempre verdade, mas especialmente nas presidenciais, onde os objetos da escolha são não pessoas coletivas, mas individuais; um partido pode ter eleitorado, um indivíduo não. Assim, nesses sufrágios, os votos esfumam-se no final do escrutínio.

Todos os especialistas sabem isto perfeitamente. Mas no debate mediático, a primeira finalidade não é informar, mas entreter. Por isso muitos comentadores, que se consideram os únicos a quem foi revelado “aquilo que realmente aconteceu no dia 24”, falam com absoluta certeza sobre um assunto que não existe. Aquilo que realmente ocupou a generalidade das notícias e comentários foram não as presidenciais, mas as legislativas; legislativas que não houve, nem estão para haver. Todos sabem perfeitamente que não existem no horizonte sufrágios para o Parlamento, estando os próximos marcados para outubro de 2023. Além disso, estão perfeitamente conscientes de que os votos pessoais pouco têm que ver com os partidários. Mesmo nos casos em que existe identificação direta entre candidato e partido, é evidente que numa eleição legislativa concorrem oficialmente todas as formações, cobrindo o espectro, enquanto nas presidenciais a geometria é variável e as lealdades distintas.

No entanto, apesar de serem peritos, e portanto obrigados a seguir o rigor analítico que justifica que falem, são eles próprios a enveredar por especulações, extrapolações e fantasias. Assim se falou em ondas de choque, revoluções, grandes vitórias e grandes derrotas, quando a única coisa que realmente aconteceu foi a manutenção da situação, com recondução do presidente.

Se tivessem existido legislativas no dia 24 o que teria acontecido? Eis uma pergunta totalmente inútil e ociosa, que uma democracia madura só pode ignorar. A existência de mandatos com duração definida existe precisamente para eliminar tais devaneios e turbulências.

Qual é o impacto que estes resultados presidenciais terão nas próximas legislativas? Esta pergunta é bastante mais razoável, mas a única resposta séria que os analistas lhe podem dar, como perfeitamente sabem, é ignorância. Se, como asseguram continuamente, o quadro político português está em grande transformação, a única conclusão lógica é que muito vai mudar até lá.

A conclusão das presidenciais de 2021 só pode ser que o país está calmo, as instituições funcionaram e o eleitorado manteve o rumo, tudo coisas raras no Ocidente atual. O resto são conversas ocas.