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Presidenciais EUA: o ano do populismo
23.07.2019
8 de novembro de 2016 – Os norte-americanos irão às urnas escolher o seu próximo presidente – ou a sua próxima presidente. Hillary Clinton, a candidata do Partido Democrático, de centro-esquerda, é a favorita; Donald Trump, o populista de direita, escolhido pelos eleitores do Partido Republicano, parece ter poucas possibilidades de ser escolhido, mas já causou um enorme abalo na política norte-americana.
 
Quando Donald J. Trump anunciou, em junho de 2015, que era candidato à presidência dos Estados Unidos, pouca gente terá levado a sério a ideia. É certo que, por via do seu talento para a autopromoção, ele era já uma das personalidades mais conhecidas do país, mas as suas credenciais enquanto político eram nenhumas.

A celebridade de Trump vinha dos seus empreendimentos imobiliários, das suas participações em reality shows, e até do divórcio conflituoso com a sua primeira mulher, mas, no que diz respeito a política, pouco se sabia de concreto. Só há quatro anos, quando pôs em dúvida a naturalidade de Barack Obama (só os nascidos no país é que podem ser presidentes), é que Trump mostrou com clareza o seu alinhamento com as franjas mais radicais do Partido Republicano.

Trump contra imigrantes e muçulmanos
Mesmo assim, as suas primeiras declarações enquanto candidato não deixaram de causar surpresa pelo extremismo. O milionário defendeu a construção de uma vedação na fronteira entre os Estados Unidos da América e o México para impedir a entrada de imigrantes ilegais, que qualificou como ladrões, assassinos e violadores. Propôs também a proibição da entrada de qualquer muçulmano nos EUA, de modo a proteger o país do terrorismo. A sua política externa assenta num princípio simples, que contraria tudo o que os governos norte-americanos têm feito nos últimos 70 anos: virar o país para dentro e deixar de garantir a segurança dos seus aliados, mesmo os que façam parte de alianças formais, como a NATO.

Estas ideias estão tão distantes do discurso tradicional republicano das últimas décadas que, inicialmente, foram vistas como sendo pouco mais do que um golpe de publicidade. Trump foi qualificado como um candidato sem credibilidade, sem apoiantes e sem hipóteses, mas as eleições primárias do Partido Republicano mostraram o erro crasso dessas avaliações. Donald Trump derrotou facilmente mais de uma dezena de oponentes, alguns dos quais tinham enorme apoio dentro da estrutura do partido.
Nem os seus insultos constantes contra adversários dentro e fora do partido, nem o seu discurso xenófobo diminuíram o seu apelo eleitoral – bem pelo contrário, aumentaram-no. A verdade é que Trump canalizou o descontentamento de uma parte importante do eleitorado republicano, que até agora não se revia em nenhum dos candidatos mais tradicionais. Esses eleitores são predominantemente homens, brancos, conservadores, idosos ou de meia-idade, com baixos salários. São dezenas de milhões de pessoas e há muitos anos que pensam aquilo que Trump agora diz.

Hillary Clinton favorita?
A candidata do Partido Democrático, Hillary Clinton, é vista por uma grande parte dos norte-americanos como o exemplo acabado desta forma comprometida e corrupta de fazer política. Ao longo de décadas de vida pública, ela e o seu marido, o ex-presidente Bill Clinton, surgiram associados a muitos dos grandes grupos económicos e financeiros que são responsabilizados pela última grande crise.

Não admira, por isso, que a candidatura de Hillary à nomeação democrata tivesse encontrado um obstáculo difícil vindo da ala esquerda do partido. Bernie Sanders, um socialista assumido, defende limitações radicais às atividades das grandes empresas financeiras de Wall Street, o aumento dos impostos sobre os mais ricos, a criação de um serviço nacional de saúde gratuito para todos os cidadãos e a legalização dos imigrantes ilegais, entre muitas outras medidas consideradas até há pouco como perigosas e irresponsáveis por quase toda a gente.

O populismo de esquerda de Sanders não foi suficiente para lhe dar a vitória nas primárias, mas chegou para assustar Clinton. O seu programa eleitoral inclui agora várias propostas apresentadas por Sanders, mas mesmo assim não é certo que os apoiantes do seu ex-adversário votem nela em novembro.

O que deverá dar a vitória a Clinton na eleição presidencial é o facto de esta eleição ter uma participação muito maior do que as primárias. Nestas, vota apenas uma pequena parte do eleitorado, as tais minorias mobilizadas; nas presidenciais, votam habitualmente cerca de 50% dos cidadãos em condições de votar. Num universo desta grandeza, os extremistas e populistas tendem a ser o que sempre são em circunstâncias normais – uma minoria.

No entanto, ainda que Donald Trump perca, fica o aviso: mesmo num país como os Estados Unidos, governado democraticamente há quase 250 anos por dois partidos moderados e por presidentes relativamente sensatos, há sempre a possibilidade de algo muito diferente acontecer um dia.

Pode ser em 2016 ou noutro ano. Pode ser com Donald Trump ou com outro(a) candidato(a). Se a política do costume não resolve os problemas das pessoas, elas acabarão por arranjar outra.
 
Texto: Rolando Santos
Reportagem publicada na FAMÍLIA CRISTÃ de outubro de 2016.
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