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Presidente da CEP defende intervenção militar em Moçambique
22.12.2020
D. José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e bispo da diocese de Setúbal considerou, em entrevista a Família Cristã, que a resolução do conflito em Moçambique terá de passar por uma intervenção militar externa. «A uma certa altura eu acho que vai ter de ser. Estamos a falar de gente fanática, onde não servem só as palavras. Eu sou totalmente contra a guerra, mas a humanidade deve ter capacidade de intervir», referiu o prelado.

 
As declarações surgem na sequência do que tem sido as intervenções do bispo de Pemba. Há dias, numa conferência promovida por organizações portuguesas, referia essa necessidade de uma intervenção externa. «As nossas forças de defesa não conseguiram conter e a guerra continua. Os nossos militares conhecem melhor as matas, mas falta-nos um serviço de inteligência mais forte que nos possa ajudar», adiantando que «capacetes azuis ou outra forma de ajuda que seja mais eficaz» é necessária no terreno.


 
A intervenção visaria garantir a preservação da vida das populações, segundo defende D. José Ornelas. «Se tenho um terrorista, ou um tipo que é violento, que está a pôr em causa a vida das outras pessoas, a polícia tem de intervir, e vai procurar intervir com todos os meios necessários, incluindo a força, para evitar que a violência se exerça sobre pessoas inocentes», sustenta, acrescentando que «os capacetes azuis são uma forma de proteger os inocentes a nível mundial» e que «a sociedade nas nações tem de ter a capacidade de fazer isso, como tem feito».
 
No entanto, avisa que essa intervenção não pode ser feita sem planeamento, porque «podem descambar», mas afirma que Portugal tem experiência, das missões na República Centro-Africana, «de sucesso». «Intervenções deste tipo vão ser sempre necessárias, e têm de ser bem ponderadas, preparadas e com pessoas que sabem o que vão fazer, e que ajam em benefício das populações», pede.
 
À semelhança do que defendeu o bispo de Pemba na conferência, D. José Ornelas também não considera que a raiz da questão seja religiosa, e fala numa «manipulação» de grupos fanáticos por parte de entidades que «cavalgam em cima da miséria» do povo. «A questão religiosa é manipulada. Que existe dentro de grupos religiosos alguma fanatização é verdade, mas é através de uma manipulação de tudo isto, não tenho dúvidas, e isso acontece com todas as religiões. Esta forma de interpretação religiosa conflitual é importante debatê-la, porque quando acabamos por impedir ou tentar sufocar o elemento religioso como tal, o resultado vão ser estes populismos a desenvolverem-se mais», considera, falando de «agendas» que vêm de fora. «São grupos de poder que querem dominar. Primeiro servem-se do nacionalismo, e vamos atrás porque concordamos, e depois se consegue pôr lá o dedinho de Deus, está o caldo feito. É uma blasfémia contra Deus. Isto não é um Deus, são eles que dizem o que Deus deve ser, porque é para o interesse deles, não é para o interesse de Deus», critica.
 
Papel da Igreja e da União Europeia
Olhando de fora, D José espera que a presidência da União Europeia contribua para resolver o conflito. «Folgo ver que a nível do governo português ainda nestes dias teremos um ministro a ir a Moçambique estudar modos de cooperação», diz, acrescentando que «a nossa ligação a este país pode ajudar dentro da União Europeia», que tem um papel «fundamental» em todo este processo.
 
Para além disso, defende que a presença da Igreja é essencial para as populações. «O conhecimento que a Igreja tem de estar no local e de se ligar com diversas etnias, e trazer estas pessoas de diversas origens e sensibilidades a sentarem-se nos mesmos bancos é uma realização do projeto. Estar lá, e estar presente, para as pessoas, porque elas precisam. Grande parte das vítimas são cristãos, missionários e líderes das comunidades locais, e é uma presença fundamental para ultrapassar as crises», sustenta o presidente da CEP.
 
D. José Ornelas fala de um tema que «é importante para o mundo». «É bom que esteja nos nossos meios de comunicação, e que não se deixe cair este tema, porque é fundamental para o mundo», considera, até porque, defende, «se chega a Moçambique, não fica por ali», avisa.
 
Bispo de Pemba preocupado com a população
Na já citada conferência, D. Luiz Lisboa  informou que a guerra já fez 2 mil mortos e mais de 600 mil deslocados, que se vão juntando nos distritos da província que ainda estão em paz e na província vizinah de Nampula, que já tem «mais de 40 mil deslocados». «Em Metuge, vizinho de Pemba, há 7 acampamentos, com cerca de 60 a 70 mil deslocados, no acampamento e em casas. Num acampamento podem estar 4 a 6 mil pessoas, e não há barracas nem lonas para todos. Os dois últimos acampamentos que foram formados não há nem barracas nem lonas, e estão numa situação muito provisória, muito difícil», conta, explicando que receberam a visita de uma comitiva de bispos vizinhos e que um deles, e que um deles lhe disse «eu estive no Darfur, mas aqui está muito pior», contou o bispo, para exemplificar a premência da ajuda.
 
D. Luiz Lisboa explicou, no entanto, que a «ajuda que tem vindo não pode parar». «Estamos apenas a dar assistência imediata às pessoas, mas temos pela frente anos de reconstrução, não apenas de edifícios, mas de vidas. Muitos que saíram vão querer voltar, e quem voltar não vai ter nada para recomeçar, há muito trabalho pela frente», referiu.
 
Por isso, falou de várias formas de ajuda que pode ser dada por quem está fora. «Em primeiro lugar, a oração, que move montanhas e comove o coração de Deus. Depois, tornar isto falado e conhecido pelas pessoas, para que elas se abram ao outro. Finalmente, alguma ação de solidariedade que seja possível», pede, referindo que «é muito importante quando as igrejas se unem a nós, seja por telefonemas, seja por campanha». «Cada conferência e diocese tem de achar uma maneira de poder ajudar. Não sou eu que vou sugerir e propor nada, penso que cada país tem os seus problemas e na medida em que possa ser solidário, é sempre bem vindo», concluiu.

 
Texto, fotos e vídeo: Ricardo Perna
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