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Prioridade foi «alimentar a esperança com palavras preenchidas por bons testemunhos»
15.06.2020
Depois de dois mandatos, e um ano como interino, após a morte de D. José Policarpo, na presidência da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D. Manuel Clemente prepara-se para deixar o cargo durante a Assembleia Plenária dos bispos que se reúne a partir de hoje para eleger a nova presidência. À Família Cristã, fala de um tempo «exigente».


Que balanço se pode fazer deste tempo à frente dos destinos da CEP?
Foram sete anos de serviço na presidência da Conferência Episcopal. Um tempo exigente, porque exigentes foram os desafios da sociedade e da vida eclesial. Em 2013 estávamos a sair duma grave crise económica e social, como agora estamos noutra, trazida pela pandemia. Alimentar a esperança com palavras preenchidas por bons testemunhos foi e continua a ser a prioridade dos pastores da Igreja.

É inevitável começarmos pelo fim. A decisão de suspender as celebrações comunitárias foi a mais difícil da sua presidência?
Quando tivemos de suspender as celebrações com povo, fizemos algo inédito na vida eclesial. Mas inédito foi também o surto pandémico, no modo rápido e global como se expandiu, altamente contagioso. A generalidade do povo católico compreendeu e correspondeu com prontidão. A sociedade e as autoridades perceberam a nossa atitude. Nada nos foi imposto, porque nos adiantámos nas decisões, aliás em consonância com o que o Papa Francisco fez no Vaticano. A decisão do Senhor Cardeal Marto em relação ao 13 de maio em Fátima foi também neste sentido e bem aceite. Com tudo isto reforçaram-se alguns modos de comunhão eclesial, quer na convivência familiar como “Igreja doméstica”, quer na ligação mediática com crentes e outras pessoas, muito incrementada nestes meses. Ambas permanecerão, complementando e potenciando o habitual retomado.

Outras marcas do seu mandato foram as controvérsias com a ideologia de género, a eutanásia e os colégios com contrato de associação. Em todas, a posição da Igreja não foi a que prevaleceu...
Estes sete anos viram debates socioculturais muito fortes, por atingirem os pontos essenciais da vida e do que ela requer. Disseram e dizem respeito ao princípio e ao fim da existência humana, “da conceção à morte natural”, posta em causa pelo aborto e a eutanásia. Referem-se também ao trabalho e à subsistência digna das pessoas e das famílias, inclusive de quem chega, por imigração ou refúgio. Alargaram-se aos temas culturais propriamente ditos, como os respeitantes à liberdade de aprender e de ensinar, segundo a escolha de pais e encarregados de educação. Juntaram-se os temas ligados ao terceiro setor e às boas iniciativas da sociedade como tal, que merecem reconhecimento e apoio do Estado, ligando solidariedade (não esquecer ninguém) e subsidiariedade (estimular o que a sociedade faz por si própria e com bom resultado). Sobre qualquer destas temáticas a Conferência Episcopal pronunciou-se, quer pelo plenário, quer pelas comissões. Alguns documentos tiveram especial impacto, como as Notas sobre a Ideologia de Género ou a Eutanásia. Não se esqueceram entretanto os temas mais internos à Igreja, como a catequese ou a projeção missionária. No domínio particularmente sensível da proteção dos menores, a Conferência Episcopal insistiu no cumprimento estrito das orientações da Santa Sé e do Estado. Para tal se têm constituído as comissões diocesanas.

O seu mandato à frente da CEP coincide praticamente com o pontificado do Papa Francisco, e é ele quem o faz cardeal. Como olha para este pontificado?
O Papa Francisco tem-nos estimulado sempre no sentido de uma Igreja em missão, corresponsável e sinodal, atenta às várias formas de pobreza. É este o “programa” do seu pontificado, expresso na Evangelii Gaudium e em tudo o que se seguiu. Uma Igreja “hospital de campanha”, onde todo o sofrimento se acolha e ajude a curar, como aconteceu em torno de Cristo. Também no que diz respeito à família, base e escola da solidariedade. Na Amoris Laetitia, apresentou-nos o ideal cristão “sobre o amor na família”, que tem de ser apoiado pela atenção redobrada a todo o seu percurso. Não esquece os problemas que surgem e atende a cada caso específico, propondo o possível e rumando sempre a «novas decisões que permitam realizar o ideal de forma mais completa» (Amoris Laetitia, 303). Neste como noutros campos, creio que a proposta pastoral do Papa Francisco se apresenta assim, atendendo misericordiosamente a cada situação, sem desistir de chegar ao Evangelho totalmente cumprido.

Como vê o papel da CEP no todo da Igreja em Portugal?
O balanço destes sete anos deve fazer-se em relação à natureza e às finalidades da CEP. Esta define-se como «o agrupamento dos Bispos das Dioceses de Portugal que, em comunhão com o Santo Padre e sob a sua autoridade, exercem em conjunto certas funções pastorais em favor dos fiéis do seu território, a fim de promoverem o maior bem que a Igreja oferece aos homens, sobretudo por formas e métodos de apostolado convenientemente ajustados às circunstâncias do tempo e do lugar, nos termos do direito (cân. 447)» (Estatutos, art.º 1). As respostas anteriores evidenciam como se foi cumprindo esta atuação conjunta e concorde dos Bispos de Portugal. Assim avançaremos, em prática sinodal e projeção missionária, como o Papa Francisco sempre e bem insiste.

A entrevista a D. Manuel Clemente pode ser lida na íntegra na edição de junho da sua Família Cristã.
 
Entrevista: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna e Rita Bruno
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