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31.12.2018
Não vivemos no deserto. Estamos no coração da cidade dos homens com todo o fervilhar da vida plena de aventura, conquistas, derrotas, com o tempo sempre a avançar e os acontecimentos a atropelarem-se. Não é preciso termos o vício da informação para percebermos que um constante desassossego nos invade em cada minuto. Não podemos fugir para o deserto porque o bulício nos persegue onde quer que procuremos um refúgio.

Talvez não seja bem assim. Talvez este modo de dizer já padeça da derrota antecipada de quem se deixa esmagar sem dominar a vida e construir a história em vez de se deixar esmagar por ela. Temos ao nosso alcance meios de resistência, reflexão e capacidade de ultrapassar aquilo que parece ser a grande corrida que nos esmaga e deixa para traz.

Estou a pensar nos últimos acontecimentos, tragédias, jogadas políticas, aventuras do futebol, desconcertos da natureza. Felizmente que tudo tem estado a uma certa distância da nossa tranquilidade, mas nunca sabemos quando chegará o nosso dia e a nossa hora. Os que atravessam hoje situações dramáticas de toda a ordem há pouco julgavam que isso era com os outros, que só passava na televisão. E, entretanto, passou à porta, entrou em casa, invadiu o coração.

Não precisamos recorrer a exemplos imediatos. Eles estão sempre aí, atrevidamente preparados para se cruzarem na nossa vida nacional, comunitária, familiar ou pessoal. São muitas as brechas por onde o inimigo pode entrar. Temos mais recursos e defesas do que pensamos, mas andamos muitas vezes iludidos e desarmados, com a casa desarrumada e um dia “a casa vai abaixo”.

Será necessário olhar a vida por este ângulo?
Certamente não precisamos do medo para estarmos preparados para o que virá sem sabermos o dia nem a hora. Mas é bom lembrarmos frequentemente que não somos senhores do nosso destino. Basta ler as linhas das últimas notícias ou olhar as imagens para nos apercebermos da incerteza permanente que nos ameaça.
Há muitas fugas, distrações, diria mesmo divertimentos para nos alienar. É aí que a palavra assenta na sua (im)perfeição - alienar.

Os cristãos estão, por natureza (pela graça), munidos desse escudo de defesa que não lhes autoriza o medo ou a desilusão. Mas nunca podem estar indiferentes ao que acontece perto e longe. E a palavra solidariedade apesar de não vir expressamente no Evangelho, percorre-o em cada linha e é um pressuposto de todos os capítulos.

A vida é um pretexto para lançarmos mão do arado sem voltarmos para trás. Para vivermos sem medo como Jesus tão bem soube dizer. É que amanhã há mais acontecimentos para os quais temos de estar preparados…