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«Quando comecei a dormir numa casa, os meus olhos não abriam»
16.05.2018
Sónia Varela recebe a reportagem da FAMÍLIA CRISTÃ na sua casa, em Lisboa. Está sentada numa mesa junto à janela a fumar. Primeiro, olha-nos com alguma desconfiança, vencida pela presença de quem nos acompanha. São as amigas da Associação para o Estudo e Integração Psicossocial (AEIPS). Depois, abre o coração e desfia as memórias de uma vida que não chega aos quarenta anos. É ainda jovem e sorridente. Diz ter sido sempre feliz, mesmo durante os dez anos em que viveu na rua.

Sónia Varela viveu 10 anos na rua.

A primeira vez que ouviu falar no projeto Housing First não teve «grande reação». Davam-lhe casa e não pediam nada em troca. A sugestão era boa, mas sentiu medo. «Uma pessoa nestas condições degradadas... Eu estou péssima… Fiquei com receio de mim própria. Sei lá se ia fazer o certo. Era certo sair da rua, não é? Mas…» A pausa deixa perceber o dilema que viveu.

«Os meus olhos não abriam»
Passou algum tempo até à segunda abordagem. Já nem se lembrava da primeira. Nesse dia foi logo para uma casa. «Era muito boa, só que eu estava um bocado forte e não cabia no polibã e fazia-me impressão.» Há oito anos que está na casa atual. «Nos primeiros dias, quando comecei a dormir numa casa mesmo, os meus olhos não abriam. Não sei se era da luz, da claridade, da natureza que vivia na rua com a natureza da casa... E eu era uma rapariga que na rua estava sempre acordada, horas e horas. Fazia diretas.» Teresa Duarte, presidente da AEIPS, diz que isso é comum a muitos participantes deste projeto. «Na rua, dormem com um olho aberto e outro fechado. Quando têm uma casa, só dormem nos primeiros dias.»

Teresa Duarte é presidente da Associação para o Estudo e Integração Psicossocial

A Associação para o Estudo e Integração Psicossocial iniciou o projeto Housing First – Casas Primeiro, em 2009. Teresa Duarte explica que «proporciona o acesso direto a uma casa individual, a não ser que queiram ou sejam casais ou muito amigos. E isso é muito importante porque muitos não aderiam aos projetos de alojamento porque tinham muita gente e sentiam-se inseguros». As casas são arrendadas em vários locais de Lisboa, permitindo que estas pessoas possam criar redes de vizinhança e de relação em contextos diferentes.

Uma vida difícil desde a infância
A história de Sónia é dura. A mãe morreu quando tinha dez anos. «Enquanto vivi com a ela, dormi no máximo umas cinco vezes na rua. Desde os meus dois anos e meio, três, dormi umas cinco vezes na rua», conta.

Começou a trabalhar com 13 anos, passou por casas de várias tias, pai, padrasto até ir viver com uma amiga. «Dos meus 13 até aos meus 17 anos eu não tinha falta de nada, de nada. Tive sempre trabalho, tinha roupa, tinha tudo, tive uma vida mesmo boa», diz a rir. As saídas à noite eram quase diárias e ia ao cabeleireiro todos os meses. Até que tudo mudou quando a amiga «desapareceu de repente, emigrou». Com o trabalho não conseguia suportar as despesas da casa. A rua foi o seu destino nos dez anos seguintes.

O Presidente da República visitou o projeto e tem alertado para o problema dos sem-abrigo.

«Sentem-se mais seguros na rua»
Teresa Duarte rejeita a ideia de que muitos sem-abrigo não querem deixar a rua. «Não é porque queiram, mas porque têm medo, estão mais vulneráveis e sentem-se mais seguros na rua», explica. Por isso, uma casa é importante e sem qualquer condição prévia. «Quando propomos a questão da casa é para ir para a sua própria casa, da qual têm a chave, e não obrigamos a comprometerem-se em fazer um tratamento psiquiátrico ou de dependência de drogas ou de álcool. A casa é o ponto de partida. As outras questões são tratadas depois», revela a presidente da associação. Com a casa vem a obrigação de respeitar as regras do condomínio, o acesso aos serviços de saúde e sociais. Há acompanhamento «na gestão da casa, elaboração de ementas, confeção de refeições, apoio nos pedidos de documentação que muitos não têm ou autorizações de residência». Uma coisa vai levando a outra, com o acompanhamento e visitas dos técnicos a casa. «Temos dado conta que muitas pessoas reduzem ou terminam os consumos mesmo sem tratamentos», diz Teresa.

Até agora ninguém perdeu a casa e tem havido até quem tenha feito as pazes com a família. O acesso à casa não tem limite de tempo. Os participantes têm de contribuir com 30% do rendimento que tiverem para as despesas. Dos cerca de 80 apoiados, 30 já saíram porque se autonomizaram ou voltaram para as suas terras de origem onde têm o apoio da família.


Por todo o país há várias organizações a promover projetos de Housing First para sem-abrigo com doença mental ou com dependências. A ideia nasceu em Nova Iorque precisamente com sem-abrigo com doenças mentais e tem sido replicada por todo o mundo.

Este artigo é um excerto da reportagem publicada na FAMÍLIA CRISTÃ de maio de 2018.

 
Reportagem: Cláudia Sebastião
Fotos: Ricardo Perna/ Presidência da República- Miguel Figueiredo Lopes

 
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