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Quando o mais fraco é o mais necessário
18.04.2016
Uma das belas imagens para descrever a comunidade cristã, na riqueza da diversidade de carismas e ministérios de que cada um é portador e que é chamado a desempenhar, é a da comparação com o corpo humano feita por São Paulo: «Há, portanto, muitos membros, mas um só corpo. O olho não pode dizer à mão: “Não preciso de ti”; nem a cabeça dizer aos pés: “Não preciso de vós.” Pelo contrário, os membros do corpo que parecem fracos são os mais necessários.» (1Cor 12,20-22) A divisão existente na comunidade de Corinto levou a esta feliz descrição da articulação dos órgãos e membros do corpo humano entre si, em que cada um, por ser diferente, é necessário para um bom funcionamento de todo o corpo. Ao considerar os mais fracos os mais necessários, São Paulo percebera que órgãos como o cérebro e o coração são dos mais frágeis e mais necessários, daí a natureza os ter protegido melhor.

A descrição paulina vem a propósito da nossa realidade humana nas formas de convivência entre pessoas de diferentes capacidades, formações, culturas, faixas etárias, relações familiares, etc.
Tem-se debatido a questão da eutanásia, por isso, esperamos com esta edição elucidar os leitores quanto à visão que consideramos mais justa, na perspetiva cristã, indo às causas no que toca à forma como são tratados e motivados os doentes e os idosos. O Papa Francisco não se cansa de chamar a atenção para a dimensão inclusiva da sociedade, da necessidade de irmos às periferias sociais (não apenas geográficas), onde estão os esquecidos e carenciados de tantas necessidades primárias, não só para uma qualidade de vida digna, mas até para sobreviverem. A família é escola de inclusão onde se aprende a dar lugar e espaço a todos, do mais idoso ao mais novo, em que os mais fracos são as forças de agregação e de referência da família. As crianças, os idosos e os doentes estão entre os mais vulneráveis, daí serem dos que mais se devem proteger da ausência de apoio, carência de afetos, falta de autoestima, devendo ser, inclusive, protegidos deles próprios, dada a inexperiência de uns e a relutância de emoções de outros, na ideia de não se sentirem peso para ninguém.

Dizia um idoso que «quando um velho morre, é uma biblioteca inteira que arde». Cabe aos que ficam preservar até ao fim essa “riqueza” e salvaguardar todo o acervo de memórias, experiências motivacionais e referências únicas da identidade e da história vivida da própria família, que continua a desenrolar-se em cada membro que a compõe. A família é escola de partilha, espaço em que todos, como afirmou o Papa Francisco, «têm lugar à mesa dos afetos, das histórias, dos acontecimentos», tornando-se «uma experiência fundamental» em especial para os mais novos. Cabe aos mais idosos, com a simples presença, serem centro gravitacional das referências e dos valores pelos quais se deve reger a sociedade de amanhã que hoje exige respeito, dignidade e espaço para todos, mas que ensina o seu contrário se não souber lidar com os mais fracos. Estes serão sempre necessários para impedirem que as decisões basilares das pessoas e das instituições encaminhem a sociedade rumo ao precipício do utilitarismo, do economicismo e do comodismo em prejuízo do valor supremo da vida.

Com a emissão de uma nota pastoral em que os bispos portugueses rejeitam que seja posta em causa a inviolabilidade da vida, louve-se o empenho denodado de todos os que, sem pejo nem rodeios, testemunham os valores cristãos, no espaço público, em favor da vida e da sua dignidade.
 
A família é […] espaço em que todos, como afirmou o Papa Francisco, «têm lugar à mesa dos afetos, das histórias, dos acontecimentos», tornando-se «uma experiência fundamental».