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Vida Cristã
Quando os santos são populares
21.06.2016
Junho é um mês marcado pelas festas dos santos populares. Lisboa e Porto, as duas cidades mais importantes do país, comemoram os seus santos padroeiros, Santo António e São João, dois santos que nos remetem não só para matrimónios e balões de fogo, mas também para a inauguração de um tempo festivo que no verão se vive muito por terras portuguesas.


O verão português é caracterizado pelas festas e romarias, pelas celebrações especiais e devocionais, pelas peregrinações e pelos foguetes, pelos arraiais e bailaricos tão próprios da nossa cultura. Mas estas festas não serão um acontecimento cultural que em nada se relacionam com a religiosidade que lhes está na origem? Até que ponto estas festas são realmente religiosas e cristãs?
Segundo o Pe. José da Silva Lima, historiador e escritor, a religiosidade popular define-se como «um conjunto de comportamentos, ritos e gestos religiosos de um povo, caracterizados pela simplicidade e pobreza (pelo menos externa), que, dentro da bipolaridade “religião oficial – religião praticada”, manifestam, por um lado, a sua relação e abertura ao divino, e, por outro, a sua contextura sociocultural portadora de elementos étnicos e de “desvios” inconscientes».

Diríamos que a religiosidade popular é uma maneira de viver a religião numa comunidade que tem um contexto próprio: com a sua história, os seus costumes, a sua cultura, a sua moral natural, as suas relações sociais e políticas, o seu quotidiano específico, as expectativas futuras, entre muitos outros fatores que caracterizam uma sociedade. Assim, é nestes aspetos que, de certa maneira, ao ser uma fé experimentada no concreto da vida, ela não é idêntica à fé desenhada pela doutrina e pela teologia.


As limitações da religiosidade popular
Em dezembro de 1975, o Papa Paulo VI publicava a Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, refletindo sobre a evangelização no mundo contemporâneo. O Santo Padre realçava que é a partir de Jesus e da Sua mensagem que se criam os caminhos para transmitir a fé. Paulo VI salienta que a religiosidade popular «tem sem dúvida as suas limitações. Ela acha-se frequentemente aberta à penetração de muitas deformações da religião, como sejam, por exemplo, as superstições.» E acrescenta que: «ela permanece com frequência apenas a um nível de manifestações cultuais, sem expressar ou determinar uma verdadeira adesão de fé.»

Temos um outro exemplo, muito comum, que é a relação comercial do fiel com Deus: eu faço isto, logo, Tu dar-me-ás aquilo. Este tipo de relação não é necessariamente má se integrada numa maior relação amorosa, filial, fiel, tal como observamos ao longo do Antigo Testamento e tal como escutamos nas palavras de Jesus: «Pedi, e ser-vos-á dado.» (Lc 11,9) Mas o "pedir" não se pode limitar apenas ao meu desejo, mas também à vontade de Deus para mim: «O vosso Pai celeste sabe do que necessitais antes de vós lho pedirdes.» (Mt 6,8)
Por outro lado, a religião é muitas vezes criticada por ser a fraqueza do povo que vê nela o seu ópio. De facto, se a minha relação com Deus me alienar da minha realidade ou me colocar numa redoma de segurança ilusória, então, tais críticas podem ser válidas. Todavia, nem a religião, nem a religiosidade popular se esgotam nessas representações. Sobre a religiosidade popular, certamente que lhe falta um maior amadurecimento intelectual, mas é a sua naturalidade, a sua simplicidade que se revela como a grande virtude da religiosidade popular.


A importância da religiosidade popular
No documento citado, Paulo VI continua: «Se essa religiosidade popular for bem orientada, sobretudo mediante uma pedagogia da evangelização, ela é rica de valores.» E dá como exemplo: «ela traduz em si uma certa sede de Deus, que somente os pobres e os simples podem experimentar; ela torna as pessoas capazes para terem rasgos de generosidade e predispõe-nas para o sacrifício até ao heroísmo, quando se trata de manifestar a fé; ela comporta um apurado sentido dos atributos profundos de Deus: a paternidade, a providência, a presença amorosa e constante, etc. Ela, depois, suscita atitudes interiores que raramente se observam alhures no mesmo grau: paciência, sentido da cruz na vida quotidiana, desapego, aceitação dos outros, dedicação, devoção, etc. Em virtude destes aspetos, nós chamamos-lhe de bom grado “piedade popular”, no sentido de religião do povo, em vez de religiosidade.» Não vemos bem retratada aqui a nossa querida piedade popular portuguesa?

No fim de contas, Paulo VI realça um aspeto importante que deve estar presente nas aproximações pastorais e de opinião que fazemos, como afirma: «Importa ser sensível em relação a ela [à religiosidade popular], saber aperceber-se das suas dimensões interiores e dos seus inegáveis valores, estar-se disposto a ajudá-la a superar os seus perigos de desvio. Bem orientada, esta religiosidade popular pode vir a ser cada vez mais, para as nossas massas populares, um verdadeiro encontro com Deus em Jesus Cristo.»
Cabe à nossa pastoral e aos próprios fiéis, contribuir para uma orientação saudável da fé autêntica que se vive intensamente em Portugal. E mais, contrariamente à maioria do Ocidente, no nosso país as tradições religiosas populares têm uma força enorme devido ao seu bom enraizamento e ao sentido que dão para a vida dos portugueses.

Nem todos estamos no mesmo ponto do caminho em direção a Deus. Estamos, sim, em pé de igualdade: somos todos criaturas amadas de Deus, e Ele quer que todos nós sejamos felizes! Este sentido fundamental, dom de Deus para todos nós, conduz-nos como povo a ajudar-nos mutuamente na receção desse dom e na sua transmissão.
 
Paulo Paiva
 
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