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Vida Cristã
Que critérios devem os cristãos utilizar ao votar?
04.10.2019
Em véspera de eleições, leia a resposta do Mons. Feytor Pinto sobre a escolha que os cristãos devem fazer ao votar. Que critérios devem usar para optar?

Pe. Vitor Feytor Pinto
 
A responsabilidade política dos cristãos
No diálogo de Jesus com Nicodemos, lê-se que Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho Unigénito. Acrescenta depois que Ele (Jesus) não veio condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo. A Igreja não está presente para condenar o mundo, mas para o salvar.
  1. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, sublinha a importância da dignidade humana, o sentido da comunidade humana e a urgência de uma atividade que construa o mundo novo.
  2. Para conseguir tudo isto sente-se a preocupação em promover com urgência cinco pilares da sociedade humana: família, cultura, responsabilidade socioeconómica, vida política e paz.
  3. Para tal, pede-se sobretudo aos leigos que tratem da ordem temporal, orientando-a segundo Deus para que progrida e assim glorifique o Criador e Redentor.
  4. Na ordem social, os últimos Papas têm proclamado insistentemente a dignidade do trabalho, a urgência da reconciliação entre os povos, a necessidade de um diálogo político, para a definitiva construção da paz.
Na proclamação dos direitos humanos, em 1948, sobressaem os grandes valores do Evangelho. Se fossem respeitados e elevados à sua melhor realização, o mundo seria outro. Então, torna-se necessária uma organização política, social e económica assente nesses direitos humanos. Nem só a Igreja, nas intervenções dos Papas e dos bispos, tem influência nesta nova sociedade. Todos os cristãos têm responsabilidade política, isto é, devem intervir para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna.



O Concílio Vaticano II foi muito claro ao dizer que a intervenção política dos cristãos era uma urgência. No documento sobre a presença da Igreja no mundo, refere-o expressamente. Resumidamente, afirma:
  1. A necessidade de ver a realidade da atual organização política. Não podem aceitar-se os totalitarismos, nem a autoridade de um só. Embora com defeitos, é necessária na sociedade uma sã democracia, em que todos são iguais e livres na sua participação.
  2. A comunidade humana organiza-se politicamente para promover o bem comum, o que implica respeitar a igualdade de todos os homens e a capacidade de os governantes os servirem constantemente. A política é um desafio para o “serviço”, não pode ser uma oportunidade para o “poder”.
  3. É indiscutível a colaboração de todos na vida política. Os cidadãos participam na escolha dos seus governantes pelo voto. Estes intervêm na construção de uma sociedade melhor.
  4. A Igreja, presente na sociedade pelos seus membros, tem o dever de olhar para a realidade. Intervir criticamente para a solução dos problemas, colaborar nas grandes decisões quando justas, contribuir para uma sociedade que vive em democracia, para o bem da dignidade e da liberdade de todos.
Todos os Papas, desde o concílio Vaticano II, têm insistido na ação social da Igreja. A preocupação pelos mais pobres, com a inclusão dos marginais, com a organização de cuidados, com a educação e a saúde, revelam uma verdadeira intervenção política, contribuição para a cidade nova que se quer construir.

Perguntar-se-á, quando em tempo eleitoral, qual a atitude dos cristãos ao depositar o seu voto. Responder-se-á em síntese, se concorrem ao ato eleitoral muitos partidos, o cristão deve discernir quais os valores que cada partido defende. O conhecimento da diversidade dos projetos é fundamental e exige a reflexão para uma escolha responsável. Além disso, o cristão deve estruturar a sua consciência tendo em atenção apenas o bem-comum, não as ideologias, nem os grupos sociais em que eventualmente se insere. Também neste aspeto o cristão deve ser crítico. Além disso, é urgente respeitar todos os outros e aceitar os resultados do ato eleitoral.

Com a sua atitude, o cristão não poderá colaborar em conflitos inúteis que contrariam a grande lei do amor. Na definição da Igreja, Povo de Deus, o Concílio Vaticano II pôs uma condição: «lutar pela dignidade e liberdade dos filhos de Deus». Esta é, em síntese, a vocação política dos cristãos.
 
 
 
Texto: Monsenhor Feytor Pinto
Foto: Pixabay/mohamed_hassan
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