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«Querida Amazónia» abre caminho aos leigos, mas foge de polémicas
12.02.2020
O Papa Francisco publicou hoje a exortação apostólica «Querida Amazónia», que resulta da leitura do Sínodo dos bispos dedicado à Amazónia que aconteceu em outubro passado no Vaticano. O documento é uma declaração de amor à Amazónia, como escreve Andrea Tornielli, diretor de comunicação do Vaticano, no seu editorial, que aponta claramente no sentido de uma maior aproximação da Igreja naquele local às raízes amazónicas e a uma maior preponderância formal, designada pela Igreja local, dos leigos e das mulheres nas comunidades.


No entanto, o ponto mais quente do Sínodo passado, que dizia respeito à ordenação de homens casados, é aflorado no documento, mas sem uma definição clara. De facto, o documento final do Sínodo dos bispos tinha pedido a «ordenação sacerdotal de homens idóneos e reconhecidos pela comunidade, que tenham um diaconado permanente fecundo e recebam uma formação adequada para o presbiterado». Apesar de, formalmente, Francisco «apresentar, de maneira oficial, o citado Documento, que nos oferece as conclusões do Sínodo», e referir que a sua exortação não substitui o documento final, ou seja, não o contradiz, a verdade é que os pontos que se referem à organização das comunidades não são claras sobre o caminho a percorrer, abrindo espaço à interpretação.

No ponto 85, no capítulo dedicado à inculturação do ministério, Francisco refere a necessidade de «uma resposta específica e corajosa da Igreja» para aquela parte do mundo, adiantando que «há necessidade de ministros que possam compreender a partir de dentro a sensibilidade e as culturas amazónicas». Depois, reafirma que o sacramento da Ordem é «específico do sacerdote» e deixa «só ele a habilitado para presidir à Eucaristia». «Esta é a sua função específica, principal e não delegável», diz.

No entanto, o ponto 89 refere que, «nas circunstâncias específicas da Amazónia, especialmente nas suas florestas e lugares mais remotos, é preciso encontrar um modo para assegurar este ministério sacerdotal», porque os leigos «precisam da celebração da eucaristia, porque ela faz a Igreja. Por isso, o Papa pede, num primeiro momento, que os bispos sejam mais «generosos, levando aqueles que demonstram vocação missionária a optarem pela Amazónia», e que se reveja, a fundo, «a estrutura e o conteúdo tanto da formação inicial como da formação permanente dos presbíteros, de modo que adquiram as atitudes e capacidades necessárias para dialogar com as culturas amazónicas».

O ponto 92 abre uma interpretação maior desta questão, uma vez que, mesmo afirmando que são necessários sacerdotes, «isto não exclui que ordinariamente os diáconos permanentes – deveriam ser muitos mais na Amazónia –, as religiosas e os próprios leigos assumam responsabilidades importantes em ordem ao crescimento das comunidades e maturem no exercício de tais funções, graças a um adequado acompanhamento», e defende que uma «Igreja de rostos amazónicos requer a presença estável de responsáveis leigos, maduros e dotados de autoridade, que conheçam as línguas, as culturas, a experiência espiritual e o modo de viver em comunidade de cada lugar, ao mesmo tempo que deixem espaço à multiplicidade dos dons que o Espírito Santo semeia em todos», reforçando esta ideia com o Código de Direito Canónico em nota de rodapé, que confirma que «é possível, por escassez de sacerdotes, que o Bispo confie uma «participação no exercício do serviço pastoral da paróquia (…) a um diácono ou a outra pessoa que não possua o caráter sacerdotal, ou a uma comunidade».

O Papa considera ainda, no ponto 94, que, «onde houver uma necessidade peculiar, Ele já infundiu carismas que permitam dar-lhe resposta», e que, por isso, importa que a Igreja tenha capacidade para «abrir estradas à audácia do Espírito, confiar e concretamente permitir o desenvolvimento duma cultura eclesial própria, marcadamente laical». «Os desafios da Amazónia exigem da Igreja um esforço especial para conseguir uma presença capilar que só é possível com um incisivo protagonismo dos leigos», escreve o Papa.

Neste sentido, e procurando fazer face à escassez de sacerdotes, Francisco sugere a criação de «grupos missionários itinerantes».



Mulheres com reconhecimento oficial por parte das autoridades eclesiais
Sobre as mulheres, Francisco reforça uma das sugestões do Documento final do Sínodo que referia a necessidade de criação de «novos ministérios» para as comunidades. Com efeito, o Papa pede que a Igreja estimule «o aparecimento doutros serviços e carismas femininos que deem resposta às necessidades específicas dos povos amazónicos neste momento histórico».

No ponto 103, o Papa escreve mesmo que as mulheres, «que de facto realizam um papel central nas comunidades amazónicas, deveriam poder ter acesso a funções e inclusive serviços eclesiais que não requeiram a Ordem sacra e permitam expressar melhor o seu lugar próprio». «Convém recordar que tais serviços implicam uma estabilidade, um reconhecimento público e um envio por parte do bispo», alerta.

Necessidade de inculturação e um novo rito amazónico
Outra proposta que tinha saído do Documento Final do Sínodo era a criação de um rito amazónico. Sobre esta questão, e mesmo não se pronunciando oficialmente sobre ela, o Papa Francisco é muito claro na necessidade de avançar no «esforço de inculturação da liturgia nos povos indígenas», defendendo, no ponto 82, que é possível «receber na liturgia muitos elementos próprios da experiência dos indígenas no seu contacto íntimo com a natureza e estimular expressões autóctones em cantos, danças, ritos, gestos e símbolos».

Aliás, Francisco refere que é possível, «de alguma forma», receber «um símbolo indígena sem o qualificar necessariamente como idolátrico. «Um verdadeiro missionário procura descobrir as aspirações legítimas que passam através das manifestações religiosas, às vezes imperfeitas, parciais ou equivocadas, e tenta dar-lhes resposta a partir duma espiritualidade insculturada». Durante o Sínodo, uma igreja em Roma foi vandalizada e símbolos considerados pagãos foram atirados ao rio, o que gerou na altura grande polémica.

É neste sentido que o Papa defende que deve «encarnar-se a pregação, deve encarnar-se a espiritualidade, devem encarnar-se as estruturas da Igreja», uma encarnação «de maneira original em cada lugar do mundo».

A Igreja deve «indignar-se»
A exortação está dividida em quatro sonhos que o Papa tem para a Amazónia. No que diz respeito ao sonho social, o Papa critica que a Amazónia tem sido apresentada como um enorme vazio que deve ser preenchido, (...) numa perspetiva que não reconhece os direitos dos povos nativos ou simplesmente os ignora como se não existissem e como se as terras onde habitam não lhes pertencessem».

Francisco critica os poderes locais que, «com a desculpa do progresso, fizeram parte de alianças com o objetivo de devastar, de maneira impune e indiscriminada, a floresta com as formas de vida que abriga». O Papa fala mesmo de «injustiça e crime», e diz que a Igreja precisa «indignar-se». «Não é salutar habituarmo-nos ao mal; faz-nos mal permitir que nos anestesiem a consciência social», refere, no ponto 15.

«Podem-se encontrar alternativas de pecuária e agricultura sustentáveis, de energias que não poluem, de fontes dignas de trabalho que não impliquem a destruição do meio ambiente e das culturas. Simultaneamente é preciso garantir, para os indígenas e os mais pobres, uma educação adequada que desenvolva as suas capacidades e empoderamento. É precisamente nestes objetivos que se mede a verdadeira solércia e a genuína capacidade dos políticos. Não servirá para devolver aos mortos a vida que lhes foi negada, nem para compensar os sobreviventes daqueles massacres, mas ao menos para hoje sermos todos realmente humanos.»


O Papa reconhece que, no passado, «muitos missionários não estiveram do lado dos oprimidos», e admite que «não podemos excluir que membros da Igreja tenham feito parte das redes de corrupção, por vezes chegando ao ponto de aceitar manter silêncio em troca de ajudas económicas para as obras eclesiais», e por isso pede maior transparência em questões de dinheiros.

A exortação está cheia de citações poéticas sobre a beleza da Amazónia, e termina com um apelo a um esforço ecuménico no sentido de defender esta zona do planeta. «Tudo isto nos une. Como não lutar juntos? Como não rezar juntos e trabalhar lado a lado para defender os pobres da Amazónia, mostrar o rosto santo do Senhor e cuidar da sua obra criadora?»

O documento termina com uma longa oração à «Mãe da Amazónia».
Texto: Ricardo Perna
Fotos: Vatican News
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