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Recolhidos 214 testemunhos de abusos na Igreja em Portugal
10.02.2022
Um mês depois de ter começado a recolher testemunhos de pessoas que terão sido abusadas por membros da Igreja Católica em Portugal, a Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa (CIEASCICP) revelou em comunicado enviado às redações que já identificou «214 depoimentos prestados através do preenchimento do inquérito online, telefonemas e entrevistas presenciais».

Foto de Arquivo 
O trabalho feito até à data também permitiu perceber que as vítimas que decidiram prestar o seu testemunho nasceram entre 1933 e 2006, pelo que terão hoje entre 16 e 89 anos da idade, e em alguns foi possível, através dos testemunhos, «cruzar informação, o que naturalmente reforça a credibilidade dos testemunhos». «Os relatos descritos revelam sofrimento psíquico individual, familiar e social, por vezes escondido durante décadas e, em muitas circunstâncias, até ao momento deste depoimento tido como o primeiro a romper com o silêncio», refere o comunicado.
 
Os relatos chegaram «de todas as regiões do Continente, Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, urbanas e rurais, bem como de todos os grupos sociais e níveis de escolaridade», tendo até chegado relatos de emigrantes a residir no Reino Unido, Estados Unidos da América, Canadá, França, Luxemburgo e Suíça.
 
Na conferência de imprensa que serviu para apresentar a Comissão, esta informou que não iriam, ao contrário de estudos noutros países, fazer uma análise extrapolativa e quantitativa de casos, mas apenas reportar os casos detetados, e fazer uma análise qualitativa. No entanto, e porque muitas vítimas «apontam o conhecimento ou a forte probabilidade de, naquelas circunstâncias de tempo e espaço, outras crianças terem sido vítimas do mesmo abusador», o comunicado agora divulgado apela a que todas as vítimas possam deixar o seu testemunho, a fim de que se possa ter um retrato completo do que se terá passado nestes 72 anos na Igreja em Portugal.
 
A Comissão informa ainda que a maioria dos contactos estão a chegar através do inquérito online criado para o efeito, e receiam que «a divulgação do estudo pode não estar a chegar a certas franjas da população, nomeadamente as que vivem em margens sociais, culturais e económicas, infoexcluídas e no que frequentemente se refere como o “país profundo”», pelo que vão estabelecer contactos com outras estruturas de proximidade com essa população, como as comissões diocesanas, os institutos de vida religiosa, a Associação de Apoio à Vítima, o serviço de escuta dos Jesuítas, entre outros, a fim de poderem divulgar este estudo a essa população e «estabelecer pontes de diálogo para melhor aprofundar o estudo».
 
Todos os que possam ter sido vítimas de abusos por parte de membros da Igreja Católica em Portugal, padres ou leigos, podem deixar o seu testemunho através do número 917 110 000, no site darvozaosilencio.org, pelo e-mail geral@darvozaosilencio.org ou ainda por carta para “Comissão Independente”, Apartado 012079, EC Picoas, 1061-011 Lisboa.

 
Texto e foto: Ricardo Perna
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