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Refugiados em Lviv: «há esperança, mas há muito medo»
17.03.2022
À medida que a guerra na Ucrânia avança, aumentam os números de refugiados. O ponto de passagem mais comum dos refugiados que pretendem sair da Ucrânia para a Polónia é Lviv, uma cidade que fica a cerca de 100 km da fronteira, onde reside e trabalha o sacerdote paulista Mariusz Krawiec, um dos três sacerdotes da congregação que ali residiam e que não abandonaram a sua missão.

O Pe. Mariusz Krawiec no seu estúdio de rádio 
O Pe. Mariusz, que é polaco, fala num dever de pastor. «Como diz o evangelho, o pastor jamais abandona o seu rebanho. Decidimos permanecer, nós os três paulistas aqui presentes nesta comunidade fundada há apenas oito anos. Não podemos abandonar as pessoas», diz à Família Cristã em conversa telefónica a partir de Lviv.
 
O sacerdote polaco é jornalista, correspondente da Rádio Vaticano, e tem um programa de rádio semanal na rádio Maria. O resto da comunidade dinamiza uma pequena editora e tem duas livrarias em funcionamento, agora encerradas, uma em Lviv e outra em Kiev, que tem estado livre de quaisquer bombardeamentos, em virtude de estar colocada no edifício da Catedral de Kiev. «A nossa livraria não foi bombardeada porque se encontra no edifício da Catedral, ao lado, por isso estamos relativamente seguros, tanto que a funcionária da livraria decidiu permanecer ali e não voltar para a sua casa, pois é mais seguro. Ela dorme na livraria, pois tinha muito medo de se mover pela cidade», conta.
 
Medo é um dos sentimentos mais comuns hoje em dia nas pessoas que residem ou que passam por Lviv a caminho da fronteira. O Pe. Mariusz tem prestado apoio a várias dessas pessoas. «Ontem recebi uma chamada de uma senhora ucraniana de Varsóvia que dizia que a sua filha e a sua neta, grávida, com cerca de 25 anos, partiram de comboio de uma das cidades bombardeadas, onde viviam em bunkers por causa dos ataques, na esperança de que a jovem pudesse dar à luz num hospital e não num bunker. Pediram ajuda e fui esperá-las à estação de Lviv, onde chegaram depois de dois dias a andar de comboio sem saberem por onde andavam, pois as placas das estações tinham sido retiradas por questões de segurança. Enfim chegaram ontem à noite, e eu acolhi-as na nossa comunidade. Dei-lhes de comer e queria que elas dormissem, mas elas estavam tão apavoradas que disseram que não queriam dormir, queriam partir imediatamente para a fronteira, para a Polónia. Então eu peguei no carro e em 2 h estávamos na fronteira. Elas não tinham praticamente nada consigo, apenas uma pequena mala. Chegados à fronteira, acompanhei-as até ao controle e disse ao polícia que a jovem estava grávida, de 8 meses, e logo as deixaram passar, oferecendo ajuda. Foram muito gentis. Esta manhã já recebi um sms de Varsóvia, confirmando que elas tinham chegado bem. São tantas histórias similares a esta», conta o sacerdote.

Os refugiados chegam às ruas de Lviv, recebem alguma assistência e ficam a aguardar viagem para a Polónia. 
Lviv tem estado, para já, afastada do cenário de guerra e bombardeamento, pelo que é relativamente seguro estar na cidade, mas o medo de que tudo possa mudar foi tornado mais real no sábado passado, quando os russos bombardearam instalações militares a apenas 45km da cidade. «O perigo existe, as bombas podem atingir-nos, mas até ao momento a nossa zona não foi alvo dos russos. Se isso acontecer será um enorme desastre, porque em Lviv estão quase 2 milhões de pessoas que fogem da Ucrânia, atravessando exatamente esta região», explica, neste que é o maior ponto de saída de refugiados da Ucrânia.
 
As pessoas que vai encontrando têm diferentes formas de viver a situação. «Há esperança, mas há muito medo, lágrimas, vontade de sair do País, sobretudo os que presenciaram os bombardeamentos», conta o Pe. Mariusz, que revela que conversou «com muitas destas pessoas e estão muito inseguras, crianças que choram, não conseguem dormir»...
 
O país não tem uma prática religiosa generalizada, já que a história desta região vem do tempo da União Soviética, «que fechou e proibiu as igrejas de funcionar, sobretudo nas cidades grandes, onde agora está a guerra». «Até 1991 não existiam igrejas nestas cidades. Nos últimos 30 anos recomeçaram a abrir as igrejas, mas há muita gente que não tem uma prática consolidada ou sequer um referencial religioso», revela o sacerdote paulista.
 
No entanto, a minoria que tem essa fé – católicos são apenas 6% da população – não se afastaram dela por causa da guerra, antes viram a sua fé «fortalecida». «Os católicos, pequeno rebanho, minoria, aumentaram o seu fervor e a sua fé. No sofrimento buscam o contato com  Deus. Eu pessoalmente não vi ninguém que tenha diminuído a fé por causa da guerra, bem pelo contrário», conclui.

Um momento de oração na pároquia do Pe. Mariusz 
Há dias, receberam a visita do cardeal Konrad Krajewski, esmoler do Papa, que visitou a Ucrânia e esteve com os refugiados em nome do Papa Francisco, numa visita que foi «pastoral, não diplomática. «A visita foi muito importante, tanto que foi valorizada e enfatizada até mesmo pelo Governo. Veja que o cardeal veio aqui não como político, como diplomata, mas como uma pessoa que quer estar perto, presente, em nome do Papa. O testemunho da presença. Ele não tinha intenção política, foi uma visita pastoral», explicou o sacerdote polaco a residir na Ucrânia, que não tem dúvidas que «a diplomacia do Papa é importante para parar a guerra».

O cardeal Konrad Krajewski com crianças refugiadas em Lviv

 
Texto: Ricardo Perna
Fotos: Mariusz Krawiec
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