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Saber ver e ouvir
29.02.2016
Gosto de observar as pessoas. Não de as espiar, nem só olhar. Mas de as ver verdadeiramente com todos os sentidos e com o coração aberto. Nas ruas, nos transportes públicos, nos acontecimentos sociais... Gosto tanto de observar as pessoas quanto de as ouvir e escutar os sons da natureza em geral. Sinto-me sempre mais rica, a aprender e a ser questionada permanentemente. Antes dos telemóveis inteligentes era mais fácil. Agora dou por mim, tantas vezes, distraída a percorrer páginas na internet, saltando de uma para outra. Enquanto isso, a vida continua à minha volta. Não foi assim naquele dia.

Tinha-me dado conta deste uso do telemóvel, para mim, desajustado. Traçara o propósito de aproveitar a Quaresma para me libertar do “vício”. À hora de almoço, o metropolitano seguia muito cheio. Vi entrar uma mulher e duas crianças. Cedi o lugar e o menino mais novo sentou-se. Devia ter uns seis anos. À sua frente estava a irmã, uns anos mais velha. Permaneci de pé junto da família, mas por pouco tempo. O menino depressa trocou o lugar que lhe cedi pelo colo da irmã. Ela dava-lhe beijinhos na bochecha e sussurrava ao ouvido o que me pareceu serem juras de amor fraterno. Sentei-me e, com um sorriso, disse compreender que ele preferisse aquele colinho ao lugar que lhe tinha cedido.

Afinal, o banco não era nada carinhoso nem dava beijinhos assim tão bons. Segui viagem enternecida com aquele amor tão transparente e tão fraterno. Pouco importava que além da diferença de idades, a menina tivesse Trissomia 21. Ali só havia amor entre os irmãos e entre os três. Era um amor que quase se podia tocar. Era muito visível nos gestos, nos olhares, na cumplicidade. Não posso deixar de pensar nas crianças que não nascem por terem indícios de serem portadoras desta doença.

Quantas vezes, não ouvimos as pessoas referirem-se a estas crianças como “coitadinhos”. Ali só vi gigantes. As crianças e a mãe gigantes em amor. Como é bom ter irmãos e família! Já passaram várias semanas e aquela família continua comigo, a fazer-me sorrir por dentro quando os recordo. Até mim chega ainda a voz da menina, que baixinho continuava a dizer ao irmão: «Vou estar sempre contigo! Estou sempre contigo!»