Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
Santidade em debate na Feira do Livro
11.06.2018
No passado sábado, dia 9, debateu-se, na Feira do Livro de Lisboa, a mais recente exortação apostólica do Papa Francisco Gaudete et exsultate. A teóloga Cátia Tuna e o padre Gonçalo Portocarrero de Almada analisaram o documento e dialogaram sobre os desafios que o Papa deixa à Igreja e aos crentes.



Para Cátia Tuna, «esta exortação é profundamente ética e vê a santidade como um saber-fazer». Daí que Francisco defenda que «a santidade se entorna pelos dias e no dia a dia de cada um. Procura ver os bastidores daquele que se propõe à santidade». A teóloga lembra que as edições da exortação têm capas com painéis de santos e considera muito apropriada a escolha. «O Papa convida-nos a fazer o nosso próprio painel de santos da nossa vida», defende. Para Cátia Tuna, Francisco retoma na exortação alguns temas que já tem vindo a abordar como a simplicidade da santidade, a unidade dos cristãos e «as bem-aventuranças como BI dos cristãos».



Mas a exortação fala também do «dom das lágrimas e dom do riso». Confessando que ao ler a exortação fez um «copioso exame de consciência», a teóloga afirma que «é uma exortação combativa em termos interiores». E, neste contexto, entende também «a questão do maligno». «Se o mistério do mal estiver só entre o homem e Deus há uma bifurcação difícil de gerir. A questão do maligno é responsabilizante para o leitor», afirma.

Já o Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada lamenta que tenha havido «uma certa secularização do conceito de santidade» e lembra que «ouvimos falar do santo laico ou chamar Sua Santidade ao Dalai Lama, quando a santidade é um atributo próprio cristão». Este sacerdote cita Santo Agostinho que dizia: «O meu peso é o meu amor.» O Pe. Gonçalo explica: «Não é tanto aquilo que eu faço. Eu valho o que vale o meu amor. No amor, somos todos iguais. Na inteligência não. Mas a santidade não depende da inteligência, depende do amor, e nisso somos todos iguais. A santidade pode ser aferível pela perfeição na caridade.»

O Pe. Gonçalo lembra que, tradicionalmente, «o mundo era visto como um lugar onde a santidade não era possível». E este sacerdote acredita que esta ideia ainda está enraizada em muitos. O Pe. Gonçalo recorda uma conversa com um seu amigo sacerdote que lhe falava de um leigo que desempenhava vários cargos de liderança na paróquia. «E eu perguntei: “E é bom marido? É bom pai? É bom cidadão? É bom profissional?” E ele não sabia dizer. “Suponho que sim.” O principal desafio da sua vida é na sua vida matrimonial e familiar. Os leigos não podem refugiar-se na sacristia e alhear-se do mundo!», defende.

Na exortação, o Papa fala de vícios e desafios aos crentes, leigos e clero. Cátia Tuna vê aí um alerta: «O Papa distribui as cartas do baralho. Se pensamos que há os conservadores e os progressistas, ele diz que os vícios estão em todo o lado e na comunidade.» Nem se chega à santidade e a Deus só pelas obras nem só pela razão. «A salvação é dom de Deus. O perdão é o cume da graça. É o desejo gratuito de Deus para nada.» O Pe. Gonçalo acrescenta que hoje «há uma certa tentação de querer fazer uma síntese pessoal e, muitas vezes, quer-se viver um cristianismo a la carte, à minha maneira. Também há a tentação de pensar que por si própria a pessoa se pode salvar ou que não precisa de se salvar.»

O sacerdote diz que a santidade não é uma coisa de antigamente como pode parecer e lembra os posters que os adolescentes têm nas paredes dos quartos: «São como uma espécie de santinhos das avós deles. Todos precisamos de referências que inspirem a nossa vida.» Mas reconhece traduzir para as pessoas deste tempo o que é a santidade. «As pessoas têm medo que a religião venha tirar independência ou a vida e Jesus vem dar-nos a vida e a vida em abundância. A santidade não é outra coisa que a felicidade», defendeu.

Cátia Tuna e o Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada correspondem-se na revista FAMÍLIA CRISTÃ. Na rubrica Cartas trocadas dialogam e discutem temas pastorais. A mesa redonda foi moderada por Rita Bruno, chefe de redação da FAMÍLIA CRISTÃ.
 
Texto e fotos: Cláudia Sebastião
Continuar a ler