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«Se entramos em Sínodo com uma visão política, isso seria destruí-lo»
01.10.2021
O Cardeal Jean-Clude Höllerich é o relator geral do Sínodo dos Bispos que inicia no próximo dia 10 de outubro em Roma. Em entrevista exclusiva à Família Cristã e à Agência Ecclesia, fala de um tempo novo que a Igreja se prepara para viver, enaltece o modo escolhido pelo Papa para caminhar e refere que, apesar das suas visões pessoais, vai para o Sínodo de mente aberta. «Digo o que penso agora sobre o sínodo, mas talvez daqui a uns três meses direi algo completamente diferente, esperando mesmo que a minha visão mude com o Sínodo», sustenta.


Como recebeu esta responsabilidade que o Papa lhe confiou para desempenhar neste itinerário sinodal?
Senti-me muito admirado, porque não estava à espera de nada disto. Tinham-me sondado sobre a possibilidade de quem poderia ser um bom relator-geral e indiquei algumas pessoas que, como pensei, poderiam fazer este trabalho muito bem. Mas não me nomeei a mim mesmo porque sabia que não poderia fazer isso (risos).
Estava em Portugal, num pequeno andar que tenho no Algarve, estava cá para fazer os meus exercícios espirituais, um retiro. Foi ali que soube que ia ser nomeado relator-geral.

Houve uma grande mudança sobre como deve ser um Sínodo. Não se trata apenas de o celebrar em 2023 devido à pandemia, mas deve ser algo mais. Para se chegar aí, haverá como que pequenos sínodos, se assim se pode dizer, nas dioceses, a nível continental, em diálogo com o Papa: esta será a instituição central do Sínodo. Como é que se pode ver esta mudança ou esta orientação do Papa Francisco?
Trata-se de uma grande mudança. A sinodalidade como a vivemos agora é um fruto do Vaticano II. Nós sabemos que a sinodalidade pertence à essência da Igreja, desde os inícios, mas foi o Vaticano II quem sublinhou o papel central do batizado, e a vida da Igreja como povo de Deus em caminho. E eu penso que estes são dois aspetos muito importantes para compreender o que o Sínodo quer ser, porque antes de mais tudo parte do batismo. Somos todos unidos pelo batismo. Pelo batismo, não há diferenças pelo facto de eu ser bispo, nada disso, e até há batizados fora da Igreja Católica.
Portanto, devem escutar-se os batizados. Sabemo-lo pela nossa teologia. Quando Celebro a confirmação com jovens, digo-lhes sempre: Deus dá-vos o seu Espírito, para serdes filhos adotivos. Então, agora, devem tirar-se daí as consequências. Isto significa que se deve dizer a estes filhos e filhos adotivos, a estes irmãos de Jesus, morto e ressuscitado, que a sua experiência é importante para a Igreja. A experiência da vida de cada batizado é importante, porque Deus está nela presente. E devemos discernir esta presença de Deus na nossa própria vida ou na vida dum grupo de batizados, de uma comunidade ou de uma Igreja local…
 
Será, então, também necessário encontrar espaços para praticar esta experiência?
Sim, eu penso que isto é, em primeiro lugar, a grande responsabilidade dos Bispos. O Bispo local tem a missão de ouvir o seu povo. E ouvir o seu povo significa nunca entrar no processo sinodal com um resultado já feito. Aqui devemos também servir-nos bem da teologia, que contribui intelectualmente com sentido, etc., e não se deve pô-la de parte, mas escutar o que o povo de Deus diz, ter fé em Deus e nas pessoas, que em geral é a mesma coisa.
 
Será que temos de aceitar que isso poderá provocar algumas confusões, porque não andamos habituados a um estilo assim?
Não, nós fazemos um exercício… Não é efetivamente apenas um primeiro exercício: já tivemos, por exemplo, o Sínodo dos jovens, do qual fiz parte, um pré-sínodo, e até me alegrei por ter podido enviar um jovem do Luxemburgo, e também houve inquéritos feitos em universidades católicas, etc. Portanto, estes elementos sinodais já entraram em uso, e depois veio o Sínodo especial para a Amazónia, no qual tive a sorte de participar, e foi toda uma rede que preparou este sínodo.
E esta rede pan-amazónica pôs-se à escuta do povo da Amazónia. Penso, efetivamente, que o que atualmente se faz é uma consequência lógica do que se viveu no Sínodo precedente. O Sínodo é um processo sinodal que se prolonga por dois anos. E começa nas dioceses, a nível mundial; o processo irá começar a 10 de outubro em Roma, na tarde desse domingo. Provavelmente haverá aí uma pequena reunião pré-sinodal no sábado de manhã; e, em setembro, todas as dioceses receberam, não somente o texto que é como um instrumento de trabalho, mas também um vademécum espiritual teológico.
 
Não são apenas unicamente instruções de como proceder ou então sumas teológicas deste itinerário?
Não, há um vademécum, e há diversas comissões que, no Secretariado do Sínodo, preparam o trabalho. Desde a minha nomeação, estou em contacto com essas comissões. De início, participo nas reuniões da comissão do Sínodo e nas reuniões do Secretariado do Sínodo.
Até mesmo durante as minhas férias em Portugal, tive de participar numa reunião, e até recebi um contacto bastante longo do cardeal Grech só para me falar de alguns pequenos detalhes do Sínodo.


Quero aproveitar para perguntar, porque nesta missão de preparação do Sínodo, sente-se a preocupação de dar espaço às mulheres. Por exemplo, 25% dos membros da comissão são mulheres. Trata-se também de um sinal para todos os trabalhos por que vão passar as dioceses?
Pessoalmente, penso que é muito importante para a Igreja mostrar que as mulheres têm um lugar na Igreja. Esta não é já uma questão a discutir, mas é uma coisa normal. Porque se partirmos do batismo, não vejo que o batismo dos homens seja mais importante do que o batismo das mulheres, é evidente. E o facto de o Papa ter nomeado a irmã Nathalie Becquart no mesmo plano dos bispos, como subsecretária do Sínodo, mostra que o Papa pensa a mesma coisa. Em sínodos precedentes já tivemos mulheres bastante audaciosas, que disseram realmente tudo o que pensavam. E eu posso dizer, como bispo, que é um bem pormo-nos a ouvir mulheres fortes.
 
Uma palavra sobre a sinodalidade…
A este respeito, gostaria de fazer uma reflexão pessoal. Deveríamos fixar as regras para vermos como a Igreja irá atravessar os tempos. Encontramo-nos numa mudança de civilização muito grande. Encontramo-nos completamente nos inícios duma nova era de informática, e isto só agora começou. Toda a nossa maneira de pensar, de sentir, de reagir tem que mudar; não podemos ser ingénuos. Estas mudanças vão-se dar assaz rapidamente.
Até agora na história da Igreja todas as mudanças foram bastante lentas, e a Igreja com as suas estruturas tinha todo o tempo para se adaptar ao mundo novo. Mas agora as mudanças são muito mais rápidas; então, há como que uma falta de unidade na Igreja: uns reagem à esquerda, outros à direita, uns avançam mais depressa, outros recuam…
A autoridade já não é aceite, e isto faz parte desta sociedade em que as autoridades já não se aceitam, as autoridades só se aceitam quando dizem coisas que as pessoas gostam de ouvir. E quando aparece algo diferente, a autoridade não é aceite. Portanto, é preciso encontrar uma forma de tomar decisões na Igreja em que os cristãos estejam verdadeiramente envolvidos, a fim de se poder caminhar, porque há pessoas que não querem caminhar, querem sentar-se e permanecer lá onde se encontram; outros, correm à esquerda ou à direita, mas a Igreja para poder caminhar tem de ser em conjunto. E eu penso que uma tal sinodalidade será contra todos os extremismos eclesiológicos, a longo prazo, quer da direita quer da esquerda.
 
Neste esquema, haverá o risco dos que querem ficar, e que nem querem caminhar, saírem da Igreja?
É certo, isto sempre existiu; e há de continuar. Agora há um mundo para progredir em caridade, ou seja, convidar cada um e todos a caminhar connosco, e isto não é uma questão de política do Sínodo, nem é uma política da Igreja, é a forma de Deus estar no mundo. Naturalmente, isto tem de ser feito de modo cristão em que cada um é importante, quer seja da esquerda ou da direita, mas sim, é importante que a Igreja avance.
 
Tivemos uma experiência na Europa, particularmente na Alemanha que foi bastante comentada, e criou polémica. Será que se deve tirar lições destes acontecimentos e sobretudo, fazer intervenções mediáticas, como nos compete, ou deveríamos pensar um Sínodo por exemplo não somente dum ponto de vista político, de direita ou de esquerda, com progressistas ou conservadores, mas como um acontecimento eclesial?
Eu penso que sim. Tenho muito respeito pelos bispos alemães que tentam ensaiar este caminho; são até meus vizinhos e até os conheço. Mas o que eles fizeram foi como que um Sínodo antes do Sínodo. E aí há, pelo que me parece do exterior, pelo menos bastante política: os bispos posicionam-se como quem dá entrevistas, e não deve ser assim. Se dou uma entrevista agora, é somente para dizer que quero sair à escuta do que se dirá e do que se fará, e não adianto as minhas conclusões pessoais.
Digo o que penso agora sobre o sínodo, mas talvez daqui a uns três meses direi algo completamente diferente, esperando mesmo que a minha visão mude com o Sínodo, portanto entro num processo aberto. Não se trata da política da Igreja para forçar tal e tal coisa. Porque, se entramos em Sínodo com uma visão política, isso seria destruí-lo mesmo antes de começar.
 
Pensa que este Sínodo é verdadeiramente a mudança que o Papa Francisco quer dar ao futuro da Igreja?
Penso, penso que para ele isto é algo de muito importante. Ele é o Papa do Concílio, e este (sinodalidade) é um elemento importante do Concílio. Ele quer que o caminho do Concílio continue; para ele isto é essencial. Por vezes é criticado quer pela direita quer pela esquerda por não tomar tal e tal decisão, mas talvez ele nos esteja a dizer que não lhe compete a ele tomar a decisão, mas que somos nós quem a deve tomar. E isto revela a grandeza do Papa.

 
Entrevista: Octávio Carmo e Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna
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