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«Se os centros de saúde não estiverem a funcionar, não há referenciação de casos novos»
24.11.2020
Vítor Rodrigues é presidente da Liga Portuguesa contra o Cancro (LPCC). Durante este tempo de pandemia, diminuiram os rastreios, o diagnóstico está a demorar mais, oq ue se pode tornar preocupante para o futuro. Nem tudo é mau, já que os doentes oncológicos conseguiram manter os seus tratamentos, com poucos atrasos e cancelamentos.


Qual é o ponto de situação em relação aos rastreios das patologias de foro oncológico neste tempo de pandemia?
Já tínhamos alguns problemas no Serviço Nacional de Saúde (SNS) antes da pandemia. Problemas que eram conhecidos a nível de recursos humanos, e a nível de algum investimento em equipamento tecnológico, porque as máquinas têm de ser substituídas e havia alguma falta de investimento. Esta pandemia aparece já com um SNS com alguns problemas, e nenhum de nós estava preparado para isso. Aparece e os rastreios pararam, por uma questão de segurança, obviamente, das pessoas e dos nossos funcionários. Os hospitais tiveram ali 2 ou 3 semanas de algum desconforto, vamos chamá-lo assim, assim como todos nós, que tivemos 2 ou 3 semanas de baratas tontas.
Entretanto, em termos hospitalares, IPO ou grandes hospitais, que tratam estas doenças – os privados pararam completamente – recebem a norma 9/2020, que, na nossa opinião, foi uma excelente norma, que introduziu normas de funcionamento hospitalar em termos da oncologia. As palavras chave foram separar COVID positivos e negativos, adiar sempre que possível e tratar se inadiável. Basicamente foram as três ideias chave. Isto permitiu que os hospitais oncológicos, digamos para ser mais fácil, tivessem balizas, instruções e conseguiram, com alguma rapidez, estruturar-se. Introduziram mecanismos de segurança, não fizeram grandes adiamentos de tratamentos, fizeram relativamente poucos, e de alguma forma os hospitais oncológicos nunca deixaram de fazer tratamento da doença oncológica. Não estão a 100%, mas nunca deixaram de fazer. Aliás, o sistema oncológico, em termos de oferta de cuidados de saúde, em Portugal, é talvez uma das áreas da doença que está mais bem organizado.
Os problemas que tem havido tem sido sobretudo alguns atrasos, e em alguns casos significativos, nos exames complementares de diagnóstico e a nível das consultas presenciais de diagnóstico, nomeadamente ao nível dos centros de saúde. Nos centros de oncologia tem havido diminuição da referenciação.

O problema está então nos casos novos que porventura terão surgido?
Exatamente. Aliás, ainda não há muito tempo vi uma notícia que indicava que o IPO de Lisboa tinha uma diminuição de 20% nas referenciações. Os que estão nos hospitais estão a ser mais ou menos bem tratados, não a 100%, que há falhas, mas o problema está na referenciação. O sucesso que tem havido na diminuição da mortalidade, no aumento da sobrevivência e maior qualidade de vida do doente oncológico é feito à custa de um diagnóstico precoce e de um tratamento de qualidade e atempado. Se os diagnósticos são atrasados, através dos exames complementares de diagnóstico, se através das consultas presenciais, que estão diminuídas, as pessoas que têm de ser diagnosticadas e tratadas não chegam ao hospital oncológico.

E isto pode ter uma fatura cara mais tarde?
Enquanto que há situações em que há uma fatura maior, como enfartes do miocárdio, AVC, diabetes, porque tem um impacto a curto prazo, em termos de doença oncológica vai aparecer mais a médio prazo essa fatura. Vai haver uma menor diminuição da mortalidade, vai ter impacto, estamos perfeitamente conscientes, só que é a médio e longo prazo.

Um impacto maior na mortalidade?
Em princípio sim, esperemos é que não seja muito significativo.

E que outras situações de preocupação existem?
Depois temos o problema dos cuidados continuados em ambulatório, na medida em que estão muito dependentes das equipas dos centros de saúde e da mobilidade centro de saúde-domicílio. Menos acompanhamento dos doentes na sua residência. E ainda outro ponto de que se ouve falar e que nós temos feito muito ênfase, que são as juntas médicas. As juntas médicas foram suspensas em março, já foram retomadas, mas a um nível ínfimo, muito pequeno, e as pessoas que foram diagnosticadas não podem ir à junta médica, apesar de a requererem, e não podem obter o atestado de incapacidade multi usos, que é o ponto inicial e necessário para se obterem aqueles benefícios que todos conhecemos, e este é outro ponto.

E em relação ao rastreio?
Relativamente ao rastreio, o rastreio da mama fechou a 16 de março em todo o país, exceto no Norte, onde a situação é diferente, e foi retomado em todo o país mais ou menos a 16 de junho. O Norte é um problema diferente, porque tinha acabado o protocolo entre a ARS do Norte e o Núcleo Regional do Norte, e ele teve de ser renegociado por aspetos formais, jurídicos e também a pandemia não ajudou. Pensamos que o protocolo vai ser assinado este mês, esta semana, e em 1 ou 2 semanas o Norte também vai recomeçar. Em termos de operação dos centros de saúde, eles estão a operar com muita coisa, e é evidente que descuram situações de rastreio de cancro do colo do útero, e portanto está muito, muito atrasado, um rebate brutal, atividade muito residual. A mesma coisa acontece com o colo retal, pelas mesmas razões, agravado pelo facto de, em caso de pesquisa de sangue oculto nas fezes ser positivo, obriga a uma colonoscopia, que é um procedimento que, em termos técnicos e de segurança não é fácil, exige um conjunto de critérios de procedimentos e é natural que a retoma dessas colonoscopias vá sobretudo para os casos em que já há sinais e sintomas e de alguma forma descure, em termos relativos, os casos positivos na pesquisa de sangue oculto nas fezes.

Esta é a situação atual. No que diz respeito à sensibilidade das pessoas, haverá alguma retração na ida aos consultórios, centros de saúde, hospitais, com algum receio?
Sim, muito, muito grande. Só para utilizar o exemplo do rastreio do cancro da mama, nós temos 2/3 dos habituais participantes. Se num dia tínhamos 100 pessoas numa unidade móvel, nós convocamos as mesmas 100 pessoas, mas são vão 60 ou 70, isto numa situação de rastreio, onde ainda nem sequer há doença. A nível da referenciação há muito medo, e há pessoas que faltam aos tratamentos, sobretudo se não sentem nada. Se não sentem nada dizem “eu estou bem, posso adiar o meu tratamento”.

Esse é o principal problema?
É um grave problema neste momento. Todos nós vimos as imagens de Itália e Espanha, temos essas imagens cravadas, eu tenho, confesso, e a doença oncológica, na medida em que aparece em pessoas mais idosas, as pessoas, muitas delas da província, dizem que estão bem em casa e não querem ir para um hospital onde podem apanhar alguma coisa. Há um receio muito grande por parte das pessoas, e é um ponto onde todos temos de batalhar, dar-lhes alguma serenidade, não é dizer que podem ir à vontade, porque em nenhum sítio estamos protegidos do Sars-Cov2, agora há sítios de maior risco e de menor risco. Dizer às pessoas que, por favor, não vão a casamentos e batizados, não se juntem à bruta, como estamos a ver os estudantes universitários, mantenham todas as regras de etiqueta respiratória e máscara, mas vão aos vossos tratamentos e exames, não descurem essa parte.

Em termos dos rastreios, é possível perceber, em média, quantas pessoas que vão ao rastreio têm efetivamente cancros?
Em termos do cancro da mama, nos últimos 30 anos, temos, grosso modo, 3,5 a 4 pessoas por cada mil têm cancro. Nas repetições, 1,5 por cada mil têm cancro. Isto porque, quando repete, o especialista já consegue comparar a imagem com a de dois anos anteriores. E, se na primeira vez temos cancros com evolução de 1 ano, 1 mês, 2 anos, até 3 e 4 anos, quando repetem, se tiverem, têm no máximo evolução de 2 anos, detetam-se menos. Numa primeira vez, apanhamos todos os cancros que existem, mas numa segunda vez apanhamos apenas os que se desenvolveram nesse período.
Por cada mês que se parou o rastreio, nos 3 meses, há 80 cancros cujo diagnóstico ficou atrasado. Depois nos meses em que há diminuição, continua a haver 15 ou 20 que não estão a ser diagnosticados.

Quando falamos da importância do diagnóstico precoce, estamos a falar da diferença entre conseguir a remissão do cancro ou a morte?
Em alguns casos sim, noutros casos, se for uma diferença entre um diagnóstico muito precoce e um diagnóstico precoce, a influência não será muita. Se for entre um diagnóstico precoce e um diagnóstico feito quando já há sinais e sintomas, aí a diferença já será maior.

Portanto, uma pessoa que tenha já alguns sintomas e esteja a esconder...
Aí é perentório que vá ao médico. Se o cancro, per si, for um cancro de evolução rápida, sim, o risco é muito grande. Se for de evolução lenta talvez não, mas o problema é que nunca sabemos qual é o que temos, só muito mais tarde é que se faz o prognóstico, mas o risco é muito grande.
É grave que as pessoas estejam à espera que passe esta pandemia para fazer algo em relação aos sintomas que possam ter. Se tiverem sinais ou sintomas, é forçoso que façam o possível por não faltar, que relevem o medo e vão tratar disso. A posição que as pessoas têm vai ser fundamental, e o seu comportamento vai ser o mais fundamental. É que o tratamento está mais ou menos garantido, com um ou outro atraso, de algum bloco que feche, mas está muito nas mãos das pessoas.

Mas a inoperância dos centros de saúde também tem que ser resolvido, porque se as pessoas quiserem ir, não há capacidade para as acolher...
Esse é um ponto fundamental, porque se os centros de saúde não estiverem a funcionar, se não forem libertados de algumas tarefas em termos de COVID, depois não há referenciação de casos novos.

Mas faz sentido colocar-se este peso todo nos centros de saúde, que, mesmo antes da pandemia, já reportavam, alguns, dificuldades de funcionamento?
Voltamos ao início. O SNS já estava em grande stress. Deixe-me ser cínico, no sentido filosófico: quando se dá toda a atenção à necessidade que existe de comprar 500 ventiladores, mas não se fala nos profissionais que têm de estar preparados para trabalhar com os ventiladores, que não são robots, e o foco da atenção vai para os ventiladores, quando deveria ir para a organização e para a estruturação e para ter profissionais de saúde suficientes para responder a uma vaga, e esses profissionais de saúde neste momento estão estoirados, e eu tenho alguns na minha família, eu acho que alguma coisa vai mal. A organização é fundamental, e tivemos 4 meses em que perdemos tempo, não preparámos os planos, os serviços para responder ao que todos nós sabíamos, que era que vem aí outra vaga, e todos sabíamos disto. Nunca há só uma vaga, há 2, 3 ou 4 consoante a capacidade que tenhamos de cortar as coisas. Não vemos neste momento ainda autorização para testes rápidos. Não podemos estar à espera do resultado de um teste PCM 24 ou 48 horas, temos de ter testes rápidos, e mesmo que haja falsos positivos ou negativos, meia dúzia, é um problema, mas interessa-nos os outros 95% de verdadeiros negativos e positivos, e os resultados têm de sair rapidamente, em 30 minutos, 1h. Não podemos dizer “vá para casa e em 24 ou 48 horas damos o resultado”. Só agora é que aparecem os testes rápidos, mas temos de as testar e dar o resultado, não podemos estar à espera quando já existe tecnologia preparada para fazer uma testagem rápida. Há todo um aspeto de organização, de predição do que vai acontecer, de preparação das coisas, que foi algo que falhou. Em Junho e julho, quando tínhamos poucos casos, poderíamos ter aproveitado para organizar as coisas.

Pelo menos, para enviar os profissionais de saúde de férias...
E olhe que já tinha sido uma grande coisa! É que eles estão estourados em termos físico e em termos emocionais, que é mais preocupante, porque até estamos habituados a trabalhar fisicamente.

 
Entrevista: Ricardo Perna
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