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Senhor, ensina-nos a rezar
18.10.2021
Uma jovem universitária desabafou comigo: «Padre, deixei de rezar porque cada vez que o fazia era só para me acusar, vendo só defeitos em mim, sentindo uma grande frustração. Deixei de o fazer. Mas também não me sinto melhor.» Eu fiquei a pensar quem terá ensinado aquela jovem a rezar e que experiência de Deus terá tido para que a sua oração fosse apenas uma lista de pecados a apresentar a Deus. E tivemos uma longa conversa em que partilhei com ela os tópicos que agora aqui resumo.

Para mim, rezar é tão vital como respirar, comer ou beber, porque tenho consciência de que existe em nós uma dimensão interior, profunda e real que faz parte do nosso ser humanos. E para viver plenamente esta dimensão é preciso levá-la a sério e refutar uma certa tendência atual de procurar fora de nós as respostas fundamentais para a nossa vida. Diz Platão na Apologia de Sócrates: «Não tem vida nenhuma quem não se interroga sobre si mesmo.» De facto, é preciso coragem para nos interrogarmos sobre nós mesmos, sobre o que Deus quer de nós, como viver uma vida com sentido e feliz. Para nós, cristãos, a felicidade reside precisamente em viver como Cristo viveu: «Passou fazendo o bem.» (At 10,38)

E que tem tudo isto que ver com a oração? Fazer o bem é uma consequência da nossa oração. Isto é, a oração leva-nos às boas obras e as boas obras são a concretização da nossa oração. Mas tudo isto só é possível se encontrarmos a presença de Deus na nossa vida. Por isso é que o caminho interior é uma aventura que tem por base a oração. O filósofo Wittgenstein, no seu Tratado lógico-filosófico, dizia que «orar é pensar no sentido da vida». E na verdade, mais do que pedir ou culpabilizarmo-nos, rezar é tomar consciência do encontro com Deus, para olhar os acontecimentos da nossa vida pelo seu olhar e chegar ao ponto de dizer com sinceridade «seja feita a vossa vontade». Isto requer tempo para que o Espírito Santo realize em nós a transfiguração de Cristo. Por isso, é fundamental que nos reconheçamos pecadores e necessitados da misericórdia de Deus, mas mais importante é que o encontro com Deus aconteça na humildade do conhecimento de nós próprios e das nossas ações, e na confiança da sua graça pelo perdão.

Se a oração é a busca do plano de Deus para a minha vida, então quanto mais tempo dedicar à oração mais conheço a Deus e o seu projeto para mim. E quanto mais envolvido estiver na oração (corpo, mente e espírito), mais me apercebo que Deus põe ordem na minha vida e torna tudo mais claro, simples e possível. Então, rezar não é uma evasão do mundo, uma fuga de mim mesmo ou um tribunal das minhas ações.

Provavelmente, as maiores dificuldades para a oração são as mil e uma coisas que tenho de fazer antes de chegar àquele tempo interior de encontro com Deus. Para resolver esta questão nada melhor do que pôr Deus em primeiro lugar e depois procurar encaixar tudo o resto. Começar por dar prioridade na nossa vida ao que é importante e não ao que é urgente!

Outra dificuldade é que por vezes a nossa oração se torna rotineira e monótona. O melhor antídoto para que isto não aconteça é acreditar que a nossa oração de intercessão (pelos outros ou pelo que está a acontecer no mundo) tem eficácia no tempo e na história em que estou inserido. De facto, interceder significa colocar-me entre duas realidades e inserir numa situação negativa os elementos que serão capazes de a transformar. Se pusermos Deus nas realidades que conhecemos, como será grande a sua transformação!

Tem razão Enzo Bianchi quando diz que «a eficácia da oração consiste em transformar quem reza, para converter o seu coração e afinar a imagem de Deus que está nele. Existe uma única imagem do Deus invisível que o crente é chamado a realizar na sua existência: Jesus Cristo que entrega a sua vida por amor, que ama os seus inimigos e ora pelos seus torturadores». Por isso, a oração «feita segundo o modelo da sequela de Cristo, poderá fazer com que a vida seja verdadeiramente bela com quem te rodeia».