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Sínodo 2023: alertas contra «tentações» e resistências à mudança
09.10.2021
O cardeal Mario Grech, secretário-geral do Sínodo, disse hoje no Vaticano que o processo de consulta aos católicos de todo o mundo, convocado pelo Papa, é mais do que uma luta entre votos contra ou a favor diversas propostas.

Cardeal Mario Grech, à entrada para a Aula Nova do Sínodo, onde decorreu a cerimónia de abertura do Sínodo 
«Nesta dinâmica eclesial surge facilmente a tentação de resolver a escuta por meio de dinâmicas democráticas, sobretudo para dar ao voto um valor que corre o risco de transformar a Assembleia Sinodal num parlamento, introduzindo na Igreja a lógica da maioria e da minoria», apontou o responsável, na sessão de sessão de abertura da 16ª assembleia geral do Sínodo dos Bispos, que promove um processo inédito de consulta, com assembleias diocesanas e continentais até 2023.
 
Perante centenas de participantes, com representações de organismos internacionais de bispos, delegados de vida consagrada e movimentos laicais, membros da Cúria Romana e do Conselho Consultivo dos Jovens, o cardeal destacou que a fase inicial de consulta não é «decorativa». «Temos de garantir a verdade do processo sinodal, para não comprometer a sua liberdade de desenvolvimento», precisou, apelando à «escuta recíproca de todos».
 
O secretário-geral do Sínodo deixou algumas sugestões para alterar a forma de «verificar o consentimento» às propostas das assembleias sinodais, admitindo o fim da votação tradicional, ponto a ponto, do documento final, por exemplo.
 
«Não basta apresentar objeções fundamentadas ao texto, talvez assinadas por um número adequado de membros da Assembleia, resolvido com um suplemento para comparação, e recorrer à votação apenas como instância final e indesejada?», questionou.
 
D. Mario Grech propôs ainda que o documento final seja entregue às várias dioceses, onde começou todo o processo sinodal, antes de ser entregue ao Papa. «Neste caso, o documento final chegaria ao Bispo de Roma, que sempre e por todos foi reconhecido como aquele que emite os decretos instituídos pelos concílios e sínodos, já acompanhado do consenso de todas as Igrejas», precisou.
 
Testemunhos de toda a Igreja
A sessão plenária começou com a entronização da Palavra de Deus, numa procissão em que o jovem português Rodrigo Figueiredo, membro do conselho consultivo juvenil, transportou o Evangelho.
 
Depois da intervenção do Papa Francisco, que pediu uma Igreja «diferente», mais aberta à escuta, ao diálogo e à proximidade, falou o cardeal Jean Claude Hollerich, relator-geral do Sínodo 2021-2023, que se dirigiu aos «cristãos diligentes, cristãos à margem da Igreja, cristãos progressistas e cristãos conservadores». «Não é permanecendo sentados que seremos capazes de discernir a vontade do Pai. É caminhando juntos que encontraremos muitos cruzamentos e teremos de fazer as nossas escolhas», indicou.
 
O cardeal luxemburguês falou de um «puzzle enorme, em que todos podem participar, em especial os mais pobres, os sem voz, aqueles que estão nas periferias», e destacou que a Igreja «não é autorreferencial, é uma comunhão profunda que requer a participação de todos e é enviada em missão».
 
O prelado contrariou os que dizem que é com processos destes que «as tentações do Diabo começam, dos que não querem ver a Igreja a caminhar em conjunto», afirmando que as reais tentações são pensamentos como «é uma boa ideia, mas não tenho tempo», ou «eu gosto de ouvir opiniões, mas escutar toda a gente é utopia», que o prelado afirma que tem ouvido no seu trabalho na Igreja.
 
O Cardeal Höllerich confessou que «não sabe que tipo de instrumento de trabalho vai elaborar» para o Sínodo de 2023. «As páginas estão em branco, e cabe-vos a vocês preencherem-nas», sustentou.

O Cardeal Jean-Claude Höllerich advertiu para as tentações de quem está contra o processo sinodal 
As primeiras intervenções estiveram a cargo da teóloga espanhola Cristina Inogés, que falou de uma Igreja «profundamente ferida», que «durante séculos confiou mais nos nossos egos que na Tua Palavra» e que precisa de se transformar num «porto seguro para todos», e do jesuíta Paul Béré, do Burquina-Faso, que evocou «os membros da família humana que estão sem fôlego, abatidos, exaustos e muitas vezes esmagados e bloqueados nos seu grito silencioso».
 
Os mais de 200 participantes nesta sessão ouviram testemunhos de leigos, religiosos e bispos, além de uma saudação do irmão Alois, prior da comunidade ecuménica de Taizé.
 
Este responsável propôs a todos que, durante o processo sinodal, «os crentes das várias Igrejas, fossem convidados para um grande encontro ecuménico» em Roma e em várias partes do mundo.
 
D. Lazarus You Heung-sik, prefeito da Congregação para o Clero (Santa Sé), recordou o seu batismo na véspera de Natal de 1966, aos 16 anos de idade. «Fui o primeiro cristão da minha família», relatou.
 
O membro da Cúria Romana elogiou o «caminho sinodal» como forma de travar o «clericalismo» e de aprender «cada vez mais a viver como irmãos».
 
Dominique Yon, jovem sul-africana, falou da sua experiência de doença oncológica e posterior recuperação, encontrando um «novo sentido de fé e missão» na sua vida. «Rezo para que todos nós possamos abraçar esta oportunidade para a mudança pessoal e estrutural tão necessária e ter a coragem, força, fé e visão para assumir este desafio de trazer inclusão para a estrutura da igreja, envolvendo intencionalmente mulheres e jovens nos processos eclesiais», apelou.
 
O padre Zenildo Lima Da Silva, reitor do Seminário de Manaus (Brasil), partilhou a sua experiência nesta zona amazónia, pedindo uma Igreja aberta a «novas experiências«.
 
O sacerdote disse que cresceu numa paróquia conduzida por um «grupo responsável», onde aprendeu a valorizar os «dinamismos de comunhão e participação».
 
Este domingo, o Papa preside à Missa que inaugura oficialmente o processo sinodal deste biénio, a partir das 10h00 (menos uma em Lisboa), na Basílica de São Pedro.
 
Simbolicamente, a procissão de entrada conta com a presença de um grupo de 25 pessoas “representando todo o povo de Deus e os diferentes continentes”, informa a Santa Sé.
 
Pela primeira vez em mais de 50 anos de história, a abertura do Sínodo de 2023 acontece também de forma descentralizada, em cada diocese católica, a 17 de outubro, sob a presidência do respetivo bispo.

A reportagem em Roma é fruto de uma parceria estabelecida entre a Agência Ecclesia, a Família Cristã, o Diário do Minho e a Associação de Imprensa Cristã.
 
Texto: Ricardo Perna (com Octávio Carmo)
Fotos: Ricardo Perna
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