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Sínodo dos Bispos propõe rito amazónico e ordenação de diáconos casados
27.10.2019
O Sínodo dos Bispos para a Amazónia terminou com apelos a uma intervenção da Igreja no território no sentido de chegar ao coração do povo amazónico e do seu território. Com várias propostas, destacam-se desde logo a criação de um rito litúrgico amazónico, o pedido para a reabertura da discussão sobre o diaconado feminino e a ordenação sacerdotal de diáconos permanentes.

Foto Vatican News
O documento final do primeiro Sínodo especial para a Amazónia, dividido em 120 pontos, tem cinco capítulos - «Amazónia, da escuta à conversão integral», «Novos caminhos de conversão pastoral», «Novos caminhos de conversão cultural», «Novos caminhos de conversão ecológica» e «Novos caminhos de conversão sinodal». Todos os pontos do documento foram aprovados por larga maioria.
 
No ponto 111, o documento final do Sínodo especial dos Bispos de 2019 admite a ordenação sacerdotal de diáconos casados, tendo em vista a celebração dominical da Eucaristia nas regiões «mais remotas» da Amazónia. O ponto 111, aprovado com 41 votos contra (o número mais alto nos 120 pontos do documento) e 128 a favor, propõe a «ordenação sacerdotal de homens idóneos e reconhecidos pela comunidade, que tenham um diaconado permanente fecundo e recebam uma formação adequada para o presbiterado».
 
O sacerdócio está reservado, na Igreja Latina (que engloba a maioria das comunidades católicas no mundo, como em Portugal), a homens solteiros; alguns ritos próprios, em comunhão com Roma, admitem a ordenação de homens casados como padres.
 
Os participantes no primeiro Sínodo especial para a Amazónia pedem que se permita a ordenação de homens com «família legitimamente constituída e estável», para «sustentar a vida da comunidade cristã através da pregação da Palavra e a celebração dos Sacramentos nas zonas mais remotas da região amazónica». No seguimento, refere o Documento Final, «alguns pronunciaram-se em favor de uma abordagem universal do tema», acrescenta o documento final, o que pode aumentar a polémica sobre este assunto. Desde o início que muitos dos críticos do Sínodo e da ordenação de homens casados referiram, em declarações, que este Sínodo tinha um âmbito local, mas também desde o início que foram muitos os responsáveis a referir que as decisões poderiam e iriam ter impacto na Igreja a nível global, como demonstra este ponto.
 
O Concílio Vaticano II (1962-1965) restaurou o diaconado permanente, a que podem aceder homens casados (depois de terem completado 35 anos de idade), o que não acontece com o sacerdócio; o diaconado exercido por candidatos ao sacerdócio só é concedido a homens solteiros.

Foto Vatican News 
O documento final do Sínodo 2019 evoca as «enormes dificuldades» que as comunidades eclesiais do território amazónico enfrentam para «aceder à Eucaristia», com meses ou anos sem a presença de um padre que possa presidir à Missa. «Existe um direito da comunidade à celebração, que deriva da essência da Eucaristia e do seu lugar na economia da salvação», pode ler-se.
 
Os participantes falam do celibato como um «dom» na Igreja Católica, mas sublinham que se trata de uma opção da «disciplina» da Igreja latina, que é diferente no contexto da «pluralidade dos ritos e disciplinas existentes».
 
Uma das preocupações manifestadas relaciona-se com a formação dos futuros sacerdotes, desejando que seja dada mais atenção à «realidade da Amazónia», à história dos seus povos e da missionação católica na região, além das preocupações ecológicas e culturais.
 
Um rito litúrgico para a Amazónia
A necessidade de implementar um rito amazónico para a liturgia está no centro dos pontos 117 (27 votos contra e 140 favoráveis) e 119 (29 contra e 140 a favor), que apontam à criação de um rito amazónico, recordando que a Igreja Católica tem 23 ritos diferentes, procurando «inculturar os conteúdos da fé e da sua celebração». «É necessário que a Igreja, no seu incansável labor evangelizador, trabalhe para que o processo de inculturação da fé se expresse nas formas mais coerentes, a fim de que também se possa celebrar e viver segundo as línguas próprias dos povos amazónicos», refere o texto.
 
Na Igreja Católica existem os ritos latinos (tendo por base o rito romano e admitindo as variantes dos ritos ambrosiano, hispânico e outros, como o bracarense) e ritos orientais (especialmente o bizantino).
 
Os participantes no Sínodo 2019 pedem a elaboração de um novo «rito amazónico», que «manifeste o património litúrgico, teológico, disciplinar e espiritual» dos povos da região, no contexto de uma «descentralização e colegialidade que pode manifestar a catolicidade da Igreja». Aliás, o pedido para que a Igreja se encontre mais com a cultura local é uma das constantes em todo o documento final, e foi algo que foi sendo abordado por todos os participantes durante o tempo do Sínodo.
 
O documento final apela à criação de estruturas «sinodais» nas regiões da Amazónia, propondo um «fundo amazónico» para o sustento da evangelização, bem como a criação de universidades próprias e um «organismo episcopal que promova a sinodalidade entre as Igrejas da região».
 
No ponto 42, o documento aprovado por todos os participantes no Sínodo refere que «só uma Igreja missionária inserida e inculturada apresentará as igrejas indígenas específicas, com rostos e corações amazónicos, enraizados nas culturas e tradições do povo, unidos na mesma fé em Cristo e diversificados no seu modo de viver, expressar e celebrar».

Foto Nathalia Segato 
Continuar os estudos sobre o diaconado feminino
Outro dos pontos que originou mais votos contra foi a proposta do ponto 103, que, reconhecendo «o papel fundamental das mulheres religiosas e leigas na igreja da Amazónia e nas suas comunidades», avançaram com o pedido para o diaconado permanente das mulheres, e indicaram que o assunto «esteve muito presente no Sínodo». Neste sentido, os participantes no Sínodo pretendem, como refere o documento, «compartilhar as nossas experiências e reflexões com a Comissão» e aguardar os seus resultados. Na sequência desse pedido, após a votação do documento final na aula sinodal, o Papa Francisco anunciou que iria reabrir a comissão que debateu a possibilidade de ordenação diaconal de mulheres, na Igreja Católica. «Assumo o pedido de voltar a chamar a comissão ou talvez abri-la com novos membros, para estudar como existia, na Igreja primitiva, o diaconado feminino», declarou, perante os bispos, missionários, religiosos e representantes de indígenas que participaram na assembleia, desde 6 de outubro.
 
Após a votação do documento final, que aconteceu esta tarde, o Papa disse que o Sínodo pediu «criatividade» para que seja possível encontrar «novos ministérios» para as comunidades católicas.
 
Francisco indicou a vontade de trabalhar com a Congregação para a Doutrina da Fé (Santa Sé), para «ver até onde se pode chegar».
 
Após três semanas de trabalho em que se valorizou o papel das lideranças femininas na «transmissão da fé e na preservação da cultura», o pontífice pediu que «não se fique apenas na parte funcional». «O papel da mulher da Igreja vai muito mais além da funcionalidade e é nisso que temos de continuar a trabalhar», indicou.

Foto Rodrigo Kugnharski 
Oficialização do «pecado ecológico»
O Papa Francisco já o tinha dito em 2016, mas o Sínodo quer torná-lo oficial. Um dos pontos do texto final propõe a definição do «pecado ecológico», definido como uma «ação ou omissão contra Deus, contra o próximo, a comunidade e o ambiente». «É um pecado contra as futuras gerações e manifesta-se em atos e hábitos de contaminação e destruição da harmonia do ambiente, transgressões contra os princípios de interdependência e rutura das redes de solidariedade entre as criaturas», aponta o documento, remetendo para o Catecismo da Igreja Católica (340-344).
 
Sem fazer uma referência ao tipo de ministérios, os participantes na assembleia sinodal convocada pelo Papa defendem a criação de «ministérios especiais» nas comunidades católicos para a defesa da «casa comum» e a promoção da ecologia integral, visando «o cuidado do território e da água».
 
O texto alerta para as consequências do «extrativismo predatório» e pede solidariedade internacional com a Amazónia, falando mesmo numa «dívida» de países desenvolvidos, que deveria ser paga através de um fundo de apoio às comunidades da região.
 
A preocupação com a ecologia, com especial enfoque na Amazónia, mas com uma abrangência universal, torna-se visível no apoio dos participantes sinodais, no ponto 70, às «campanhas de desinvestimento em empresas extrativistas, ligadas aos danos socioecológicos na Amazónia, a começar pelas próprias instituições eclesiais e também em aliança com outras Igrejas», assim como um apelo «a uma transição energética radical e à busca de alternativas».
 
O documento final foi entregue ao Papa na eucaristia que encerrou o Sínodo e agora se verá o que o Papa decide fazer como documento conclusivo do encontro.
 
Texto: Ricardo Perna (com Agência Ecclesia)
 
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