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«Sobrevivi graças à fé»
18.01.2021
Tropecei, por graça de Deus, num belíssimo livro-testamento espiritual He leadeth me (Ele me conduz, tradução livre) do sacerdote jesuíta americano, o servo de Deus Walter Joseph Ciszek, filho de pais polacos, que morreu em 1984 e cujo processo de beatificação está em curso. Ele esteve como missionário clandestino na União Soviética entre 1939 e 1963. Chegou a ser considerado um “espião do Vaticano” na II Guerra Mundial e esteve preso 23 anos na União Soviética, ora em confinamento e trabalhos forçados no Gulag, ora na terrível prisão de Lubianka em Moscovo.

O padre Walter Ciszek descreve essa experiência como anos de dor e tortura, de fome, frio e trabalho até a exaustão. Mas também como anos de sementeira e de colheita, de abandono nas mãos de Deus, de espanto diante da presença de Deus que lhe concedeu a graça de preservar na fé do seu povo mesmo naquela realidade oficialmente ateu.

Como é que se consegue abraçar a vontade de Deus em circunstâncias tão desumanas? Como é possível manter a fé numa realidade tão trágica e brutal? Ele próprio nos dá esse testemunho:

«Muitas pessoas, desde jovens a adultos, perguntaram-me vezes sem conta como consegui sobreviver na prisão na União Soviética e nos trabalhos forçados na Sibéria. A minha resposta foi sempre a mesma – e apenas pode ser esta – sobrevivi graças à fé… Para aqueles que ficaram desiludidos com esta resposta, para quem tem dificuldade em aceitar uma explicação tão simples, para aqueles que estavam a pensar ouvir sabe-se lá qual segredo ou fórmula misteriosa que os ajudasse a mudar as suas vidas ou reforçasse a sua fé e têm dificuldade em aceitar o que escrevi, apenas lhes posso pedir desculpa e exprimir a minha simpatia, porque a única coisa que posso fazer é ser sincero. Sei que é difícil aceitar esta verdade tão simples, pois eu também a aprendi por tentativa e erro. Verdade que fui aceitando na minha vida gradualmente, de alma angustiada, e com muita oração e reflexão, verdade que me tem sustentado ao longo de anos de dúvidas e escuridão, nas dificuldades e sofrimentos. Espero, e rezo, para que o que aprendi e compreendi tão lenta e penosamente possa ser útil também para outros…
A todos peço desculpa, porém não me envergonho do que aqui escrevi – por tão simples que possa parecer. A coisa mais terrível sobre a verdade divina é a simplicidade. Apesar de conter os segredos do universo físico por Ele criado (como a fórmula de Einstein, E=mc2), ou os Dez Mandamentos, ou as Bem-aventuranças, ou as verdades que aprendemos do Catecismo – tudo pode ser compreendido simplesmente. Contudo, como é paradoxal que o que é simples se torna tão difícil de ser aceite pelos sábios, inteligentes e sofisticados deste mundo. Foram as coisas simples deste mundo, diz São Paulo, que Deus escolheu para confundir os sábios e inteligentes…
O ser humano foi criado para louvar, reverenciar e servir Deus neste mundo, e para ser eternamente feliz com ele no outro. Isto é o que importa… Esta é a primeira verdade da fé, e quem tem fé aceita-a… Não posso pedir perdão pela minha fé, nem me envergonho dela.»


Para abraçar a vida e a fé desta forma há um caminho fundamental a percorrer, como no-lo indica o Papa Francisco em Gaudete et exsultate: «Não é possível prescindir do silêncio da oração prolongada para perceber melhor aquela linguagem, para interpretar o significado real das inspirações que julgamos ter recebido, para acalmar ansiedades e recompor o conjunto da própria vida à luz de Deus.» (n.º 171)

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