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Sofrimento silencioso por causa da fé
10.05.2021
Quanto sofrimento existe hoje nos crentes por causa de outros membros da família que não creem e não querem que os filhos, ou os netos, tenham uma educação cristã? É difícil de contabilizar e penso que nem haja estatísticas para isto… mas é grande este sofrimento silencioso! Penso que isto acontece em cada família, pois as estatísticas dizem-nos que são cada vez mais os que se consideram ateus e não-praticantes. E são também cada vez mais os casamentos entre crentes e não-crentes.
Na exortação apostólica Amoris Laetitia, o Papa Francisco apresenta alguns desafios que são colocados às famílias hoje e que podem influenciar negativamente a transmissão da fé: «um individualismo exagerado que desvirtua os laços familiares» (n. 33); «confundir a liberdade genuína com a ideia de que cada um julga como lhe parece» (n. 34); «a solidão, fruto da ausência de Deus na vida das pessoas e da fragilidade das relações» (n. 43); «os pais chegam a casa cansados e sem vontade de conversar; em muitas famílias, já não há sequer o hábito de comerem juntos, e cresce uma grande variedade de ofertas de distração, além da dependência da televisão» (n. 50).

É cada vez mais recorrente o desabafo dos pais que não sabem o que fazer para transmitirem a fé aos seus filhos, sem os obrigarem a isso, mas que ouvem frases tipo “não preciso de Deus para nada”. É também cada vez mais recorrente que no casal um dos elementos se oponha à transmissão da fé aos filhos porque prefere que sejam os filhos mais tarde a decidirem (por acaso se deixa para mais tarde a questão de bem educar os filhos?) e que ouvem frases tipo “essas beatices não vão dar de comer ao nosso filho”. É igualmente cada vez mais recorrente que os avós sejam proibidos pelos pais (ou pelo menos por um deles) de falar de Deus, de Jesus ou dos santos aos netos e muito menos ensinarem-lhes a rezar, tendo de ouvir frases como “deves pensar que és muito santinha e melhor que os outros”.

E como se vive a realidade da fé nestas circunstâncias? São muitas as dúvidas sobre como reagir: deve-se insistir na prática da fé ou evitar conflitos e discussões familiares? Deve-se obrigar os adolescentes a irem à missa ou deve-se respeitar a sua liberdade (se é que já sabem o que isso é e quais as responsabilidades que acarreta…)? Deve-se falar de Deus e rezar com as crianças desde pequenas ou esperar que quando forem crescidas possam escolher que religião (ou não) querem seguir?

Tudo isto gera muito sofrimento silencioso e escondido por causa da fé; talvez não menor do que o da perseguição dos cristãos nalgumas partes do mundo. O que fazer? Não há respostas simples nem válidas para todas as circunstâncias. Mas algumas atitudes podem ser de ajuda: continuar a viver e a crescer e a propor a fé, não deixar de ir à missa e participar nas atividades da comunidade paroquial, rezar em casa (mesmo que sozinho), ter um espaço religioso visível em casa (tipo um oratório com as devoções da família), promover encontros de partilha e oração com outras pessoas que se encontrem nas mesmas situações, mas sobretudo usar de muita paciência, mansidão e fortaleza. A seu tempo a fé vai-se revelar mais do que útil, vai ser vital porque mais cedo ou mais tarde todos necessitamos de Deus e da sua presença na nossa vida.

Mas pedra angular na transmissão da fé é o próprio testemunho, pois, como diz o Papa Francisco, «os pais, que querem acompanhar a fé dos seus filhos, estão atentos às suas mudanças, porque sabem que a experiência espiritual não se impõe, mas propõe-se à sua liberdade. É fundamental que os filhos vejam de maneira concreta que, para os seus pais, a oração é realmente importante… Quero exprimir a minha gratidão de forma especial a todas as mães que rezam incessantemente, como fazia santa Mónica, pelos filhos que se afastaram de Cristo» (AL, n. 288).