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Terceira Guerra Mundial «aos pedaços»
03.05.2022
Há oito anos que o Papa alerta o mundo de que se vive uma Terceira Guerra Mundial «aos pedaços». Os acontecimentos mais recentes na Ucrânia dão-lhe razão, mais uma vez, com a agravante de que essa guerra pode mesmo gerar um conflito global, destruidor da Humanidade. Esse perigo nunca foi tão grande nos últimos 40 anos, pelo menos.
 
No final de 2016, a FAMÍLIA CRISTÃ publicou um artigo intitulado «O aviso do Papa» que abordava várias declarações de Francisco sobre a prevalência da guerra no mundo e as iniquidades que a tornam possível. Nesse texto, era citada uma frase do Sumo Pontífice no regresso de uma viagem à Coreia do Sul, em 2014. Dizia ele que, «hoje, estamos num mundo em guerra, em todo o lado», e lembrava uma frase que alguém lhe tinha dito: «Santo Padre, sabe que estamos na Terceira Guerra Mundial, pedaço a pedaço?».

Hoje, seis anos depois dessas declarações, o Papa parece um profeta, mas na realidade ele limitava-se a descrever uma realidade já bem visível na altura. A diferença – enorme, é verdade – é que não havia então uma guerra que nos ameaçasse a todos, ao mesmo tempo, como há agora. O que também não havia era um grande conflito europeu, e, como já se sabe, longe da vista, longe do coração.
Mas não da cabeça – ou pelo menos não deveria.
 
As guerras que (quase) ninguém vê
O Iémen é o exemplo perfeito de como a geografia faz toda a diferença quando valorizamos um conflito. É um país obscuro da Ásia – pelo menos para os ocidentais – e o que lá se passa não nos afeta diretamente. Logo, mais de 150 mil pessoas morreram nos últimos oito anos sem que quase ninguém tivesse mexido uma palha para parar uma guerra que só subsiste graças à ingerência de países como a Arábia Saudita e o Irão.

O caso iemenita é particularmente chocante dada a enorme dimensão do sofrimento dos civis e o facto de a vitória de um lado ou outro pouco ou nada lhes mudar a sorte. Este é um caso típico de “guerra por procuração”, que só interessa a quem está de fora. Até os Estados Unidos da América, que no início apoiaram os sauditas, perceberam, entretanto, a iniquidade e inutilidade de alimentar o conflito e decidiram afastar-se.

Foi também o que fizeram, de forma dramática, no Afeganistão, em 2021, mas isso não quer dizer que a guerra tenha acabado de uma vez por todas naquele país. Os talibãs podem estar no poder em Cabul, mas se há coisa que a história recente nos ensina é que qualquer acalmia afegã é temporária. No vale do Panjshir, os tajiques esperam o seu momento.

As diferenças étnicas e religiosas também tornaram crónicos muitos conflitos em África. Já ninguém se atreve a dizer se e quando a República Democrática do Congo, a Somália e a República Centro-Africana voltarão a ter paz, tanto mais que a cobiça pelos seus recursos naturais dá pretexto constante para a violência.

A religião é o pretexto escolhido pelos extremistas da Al-Qaeda e do Estado Islâmico, que, depois de terem sido escorraçados da Síria e do Iraque, tentam agora implantar-se em África. A norte, já causam muitos danos no Chade, no Mali, no Níger e na Nigéria, só para mencionar alguns países; a sul, aproveitaram as queixas e desilusões dos jovens de Cabo Delgado, em Moçambique, para lançar (ou pelo menos encorajar) uma grande campanha de morte e destruição.
 
A Terceira Guerra Mundial – de uma só vez
As guerras que acabámos de mencionar não esgotam a lista. Infelizmente, existem mais – e basta lembrar o que ainda se passa na Síria –, mas nenhuma tem a capacidade de pôr o mundo à beira de uma catástrofe global como a da Ucrânia.

Já em 2016, escrevíamos que «as relações internacionais entram numa fase perigosa», e que «o esforço da Rússia para recuperar a sua área de influência no Leste da Europa, no Cáucaso e mais além levou ao reaparecimento da Guerra Fria, que se pensava ter ficado morta e enterrada há mais de 25 anos, com o fim da União Soviética».
E aí está.

O Papa tinha razão quando falava «da Terceira Guerra Mundial aos pedaços» a que quase ninguém parecia dar importância, mas a verdade é que há guerras mais importantes do que outras, e essa importância nem se mede pelo sofrimento que causam.

A guerra na Ucrânia é diferente de todas as outras porque ameaça as fronteiras da Europa Ocidental e da NATO e, consequentemente, põe as duas maiores potências nucleares do mundo (Rússia e EUA) em rota de colisão. Qualquer erro de cálculo, qualquer ataque mal direcionado, qualquer míssil extraviado podem causar um cataclismo atómico.

Um episódio acontecido em março, que foi pouco divulgado, mostra bem como isso pode acontecer. Um avião de combate da Roménia, um país da NATO, desapareceu durante uma patrulha noturna relativamente perto da fronteira com a Ucrânia. O helicóptero que foi enviado em seu socorro desapareceu também. Surgiu imediatamente a especulação de que as aeronaves pudessem ter sido abatidas pelos russos, mas depois verificou-se que foram dois acidentes devidos ao mau tempo.

Como é fácil de calcular, bastava que a incerteza se mantivesse durante alguns dias para que a tensão militar subisse. E se se verificasse que o caça tinha caído já dentro da Ucrânia, como seria?

O mundo inteiro não pode – não deve – estar dependente de acasos tão pequenos. O problema é que quem tem a capacidade de pôr fim à guerra – a começar por Vladimir Putin – não está minimamente interessado em fazê-lo, e quem quer fazê-lo não consegue. Como o próprio Papa disse em abril, «estamos a assistir à impotência das Nações Unidas», mas a afirmação pode ser estendida a todos os outros mecanismos que foram criados desde a Segunda Guerra Mundial para evitar que a Terceira surgisse.

Assim, resta a Francisco apelar à realização de um cessar-fogo pascal e perguntar a Putin «que vitória há em pôr uma bandeira em cima de uma pilha de escombros?».
Como as coisas vão, talvez seja só isso mesmo que ele quer.
 
Texto: Rolando Santos