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​Terror está de volta a Cabo Delgado
23.02.2022
No passado fim de semana as aldeias do norte de Moçambique, em Cabo Delgado, voltaram a sofrer às mãos de ataques terroristas. A denúncia é feita pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), que divulgou em comunicado o testemunho de um missionário, que não foi identificado por questões de segurança, e que descreve ataques no domingo às aldeias de Kankhomba, Janguane, Mambo Bado e Muhia, e ontem, terça-feira, 22 de Fevereiro, às aldeias de Milola, Chianga, Lutona e Napuatakala. «Houve ataques em aldeias, a situação não está bem e estão todos apavorados», relata este missionário.

 
Para além disso, este missionário descreve combates entre terroristas e forças militares na região de Nangade, próximo da fronteira com a Tanzânia, para onde se estão a deslocar muitos dos habitantes destas aldeias que foram atacadas.
 
O cenário é preocupante, apesar de não ser possível ainda saber o número exato de mortos e feridos. «Não tenho preciso o número de mortos, por enquanto ninguém sabe, mas houve aldeias em que queimaram casas e eram aldeias grandes, povoadas, lugares onde se faz muita ‘machamba’ [hortas]… e de facto eles [os terroristas] passaram e queimaram bastantes casas», disse o missionário ao telefone com a Fundação AIS em Lisboa.
 
Estes confrontos do exército com os terroristas foram confirmados pelas Forças de Defesa de Moçambique, que informaram, diz a Fundação AIS, que «terão sido abatidos sete terroristas e desmantelados 16 esconderijos que estes possuíam no mato, assim como uma base de comunicações».
 
O portal de notícias VOA está a avançar também que milhares de moradores, incluindo deslocados do conflito na província moçambicana de Cabo Delgado, estão confinados no interior das suas residências desde sexta-feira, dia 18, na vila sede do distrito de Nangade, em consequência de um cerco provocado por uma sequência de ataques terroristas nas aldeias vizinhas.
 
Os relatos de moradores locais contam que o grupo armado atacou cinco aldeias desde sexta-feira, ao redor da sede distrital de Nangade, que fica na linha de fronteira com a Tanzânia, incluindo as posições da força de guarda fronteiriça, cortando todas as ligações por terra com os distritos de Mueda e Palma. «A situação está complicada. Desde sexta-feira até hoje a situação não é boa, quase toda a vila está cercada» de ataques, que estão a fustigar as aldeias nos arredores de Nangade, disse à VOA Bonifácio Abreu, morador local, afiançando que a população vive confinada e não se pode movimentar para outras aldeias.
 
Outro morador, Zunaid Omar, contou ao mesmo portal que a população não sai de cada devido ao medo dos ataques e receia agora que a fome venha a matar a população confinada. «Nós estamos na gaiola, ninguém sai e nem entra desde sexta-feira», e por isso «ninguém vai à machamba, todas as pessoas, que são muitas, estão aqui na vila», precisou Zunaid Omar, adiantando que o barulho que se ouvia no fundo, durante a conversa telefónica com o jornalista da VOA, era de bombardeamentos da força estatal para repelir o avanço dos terroristas.
 
No início do mês de Fevereiro, a Fundação AIS dava conta já de uma situação de «tensão muito forte» na vila de Macomia, situada também na província de Cabo Delgado, onde, segundo uma religiosa, «muitas aldeias» tinham sido atacadas, verificando-se ainda «o rapto sistemático de pessoas, principalmente mulheres e mães com suas próprias crianças», o que estava a contribuir para o agravamento do sentimento de insegurança entre as populações locais.
 
Desde que os ataques armados tiveram início, em Outubro de 2017, já morreram mais de três mil pessoas. Como consequência direta da violência terrorista, há cerca de 800 mil deslocados internos.

 
Texto: Ricardo Perna
Foto: Fundação AIS
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