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Terroristas creem que «atacar os cristãos no Médio Oriente é atacar o Ocidente»
23.10.2019
Catarina Martins é a responsável da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), instituição da Igreja que apresentou hoje um relatório sobre a situação dos cristãos perseguidos em todo o mundo. Esta é uma análise que se socorre dos parceiros da AIS no terreno e das observações decorrentes das visitas das equipas de trabalho ao terreno, e que permite perceber que, se na Síria e no Iraque, a situação melhorou,  por outro lado o Sri Lanka e as Filipinas surgem agora como países onde a perseguição aos cristãos é bem real.

Foto de Arquivo 
É um relatório com boas e más notícias...
Tem boas notícias, mas a maioria continuam a ser notícias negativas. A boa notícia é que, no último relatório, a comunidade cristã estava sob grande pressão, com um genocídio a decorrer, com uma força exterior muito grande que tentava destruir essa comunidade. Neste relatório vemos que a pressão dos grupos terroristas deixou de acontecer nos casos da Síria e do Iraque. A boa notícia é isso, mas há acontecimentos muito negativos noutros países, como as Filipinas e o Sri Lanka, que são dois fatores novos que nos levam a perceber que o foco de grande pressão que existiu nos últimos anos sobre o Médio Oriente desviou-se mais para o Oriente. São dois países com os quais estamos seriamente preocupados e foram os países que entraram neste relatório de forma negativa.
 
E que outros pontos negativos?
Depois temos aqueles países que têm estado sempre nos últimos anos, nomeadamente em África. Todos os anos temos repetidamente falado, porque efetivamente todos os anos continua a ver esta pressão sobre esta comunidade. E se olharmos para este relatório vemos que toda a África está sobre uma pressão muito grande de grupos radicais.
Temos o caso da Nigéria, que tem sido daqueles países que se fala todos os anos, em que assinalámos os 10 anos de existência do Boko Haram, um grupo que continua a levar o terror a todos os países não só na Nigéria, mas nos países à volta.
Ainda posso acrescentar que, apesar deste genocídio ter acabado, apesar do que a comunidade internacional tem feito porque está mais alerta, nós falamos mesmo que podemos efetivamente estar a assistir ao desaparecimento destas comunidades. No Iraque falamos de números que são praticamente de uma comunidade que está em vias de extinção. A comunidade cristã neste momento no Iraque são 120 mil cristãos, quando em 2003 apontava para 1,5 milhões. É uma comunidade que tem desaparecido a olhos vistos.
 
Estávamos a assistir ao regresso de algumas comunidades cristãs... a situação pode mudar?
O regresso está a acontecer com muitas famílias. A AIS smpre apoiou esta comunidade, porque se não apoiarmos agora, amanhã será tarde. A nossa esperança, ao apoiar estas comunidades a voltarem às suas casas, é ter esta esperança que a comunidade se mantenha, porque ficaram famílias que amanhã terão filhos e que poderão crescer, mas será sempre uma comunidade muito pequena.
 
É uma perspetiva que entristece?
Sim. Se olharmos para o Iraque e para a Síria, as nossas raízes enquanto cristãos estão ali. Pensar que os cristãos estão, por exemplo, no Iraque há mais anos do que a própria comunidade muçulmana, e ver como é uma comunidade é pura e simplesmente apagada depois de tudo o que aconteceu nos dois anos de ocupação do Daesh... Além disso, no caso do Iraque, temos também toda a questão da parte económica e segurança das famílias, pois quanto mais pequena, mais vulnerável fica.
 
Porque é que vocês concluem no vosso relatório que atacar os cristãos é atacar o Ocidente?
Isso tem a ver com tudo o que nós vamos falando nas nossas viagens e de todas as pessoas que vamos contactando na igreja local. O que nos passam é esta ideia de que a mentalidade de quem vive em determinados países é que o ocidente é igual a cristianismo, portanto os cristãos são o Ocidente. Se eu atacar os cristãos, estou a atacar o Ocidente. Portanto, o Ocidente infelizmente é muitas vezes visto nestes países como o grande destruidor das suas casas e das suas famílias.
Muitos grupos não têm capacidade para fazer ataques aqui na Europa ou EUA, e acabam por atacar estas comunidades e isto tem acontecido ao longo dos anos. Nós temos recebido do feedback dos nossos contatos na igreja local que nos dizem muitas vezes que quando há um ataque em determinado país, automaticamente há mais ataques contra a comunidade cristã nos seus países. Isto é quase uma relação direta e daí nós dizermos neste relatório que, muitas vezes, atacar o cristianismo corresponde a atacar o ocidente e também por isso é uma comunidade mais vulnerável e mais desprotegida, porque é uma comunidade sempre em minoria e portanto propriamente não tem governos nem grupos a defendê-los.
 
Foto de ArquivoPor outro lado, é uma comunidade abandonada por esse mesmo Ocidente...
Sim... sim, é verdade. Neste relatório uma das conclusões que se retira é que o Ocidente, mais do que nunca, esteve ativo no sentido de lançar os dias de lembrar as pessoas que são perseguidos por causa da sua fé, moções em parlamentos e nas Nações Unidas. Há vários documentos que saíram nestes últimos anos, mas tudo isto é tarde para salvar uma comunidade. Provavelmente, todas estas ações são importantes, mas qual é o verdadeiro impacto nestas comunidades? Até hoje não sentimos, porque as comunidades continuam a diminuir de ano para ano. Não há impacto real na sua vida diária com estas medidas, com estas declarações que são feitas no Ocidente. O futuro nos dirá se não terá sido tarde demais para começar todas estas ações, se não deviam ter começado há mais tempo para ter um efeito mais ativo.
 
Mas que ações precisam de ser ativas?
No Iraque está preparar-se uma constituição em que as minorias desaparecem desta constituição e portanto parece-me que se poderá fazer pressão sobre os governos no sentido que estas minorias sejam parte destes países. Até que ponto é que a comunidade internacional tem poder para fazer esta influência ninguém sabe, mas é a única forma que temos é fazer pressão para que se lembrem que estas comunidades existem e têm que ser também protegidas.
 
Mas a Síria era um país onde existia liberdade religiosa...
Sim, a Síria era um país à parte. A comunidade cristã é uma comunidade que está a desaparecer e a vir para o exterior, e, como se diz também neste relatório, os aliados internacionais podem ter conseguido libertar as cidades dos radicais e amigos, mas não mudaram a mentalidade que estes grupos radicais vieram trazer a este país. A partir do momento em que entram no grupo radical, há uma mudança de mentalidade e, nesse momento, a comunidade muçulmana que era menos radical mudou e a comunidade cristã sente-se seriamente ameaçada e está a perder cada vez mais o seu poder
 
E nos países onde há ameaça efetiva, o que é que é preciso ser feito?
A comunidade internacional, nos últimos anos, tem feito pressão sobre o Iraque e a Síria, e os resultados vão-se vendo pouco a pouco. Relativamente a África não se vê isso. Não há essa pressão, embora haja algumas declarações aqui e ali. A verdade é que continuam impunemente a atuar, porque são países onde o próprio Estado não existe, estão governados por pessoas que não estão propriamente preocupados com a segurança do seu povo.
 
Mas os países teriam capacidade de resposta?
Teria de haver resposta internacional no terreno, pois os países não têm estrutura para isso. Mas vai ser difícil que haja essa vontade, pois todos sabemos que as instituições internacionais estão a passar por dificuldades e esquecem quem está no terreno. África é um continente que nos deve preocupar nos próximos tempos, e devemos fazer pressão sobre as instituições internacionais para que estas pessoas sejam vistas, sejam cuidadas e sejam olhadas para que se possam libertar destes grupos radicais. Mas existe uma grande agenda internacional de garantir que África seja um continente islâmico, e o que estamos a acontecer é tudo nesse sentido.
 
Mas é uma agenda implementada por quem?
Pela comunidade muçulmana. Estes grupos radicais têm dito quase sempre que é esse o seu objetivo, que África é um continente muçulmano e é preciso reconquistá-lo. Agora vamos ver oque acontece nos próximos anos, mas são situações que se arrastam ao longo dos nos, com milhões de deslocados e refugiados, tudo o que isto provoca, todas as consequências da atuação destes grupos, e a comunidade não tem sido capaz de estancar esta crise para podermos passar ao ponto seguinte que é ajudar estas populações.

Foto de Arquivo 
Como é que a AIS tem avaliado o acordo da China com a Santa Sé?
Neste relatório mencionamos que a situação da comunidade cristã piorou, apesar do acordo com a Santa Sé. Os relatos que temos falam-nos de destruição de templos, de perseguição da comunidade, destruição de locais de encontro... o acordo, na prática, ainda não teve efeitos práticos.
 
E vai ter?
As primeiras notícias pós-acordo é que a situação piorou. Há mais pessoas em campos de trabalho, mais destruição de templos e santuários, tudo isto aumentou. Vamos ver o que se segue e o que a Santa Sé irá fazer. Espero que algo esteja a ser tratado e analisado, porque há o risco real da comunidade ficar pior do que já estava.
 
Mas é um problema dos termos do acordo, ou do não cumprimento do mesmo?
Há um acordo entre duas partes, em que se estabelece uma série de regras, e elas não estão a ser cumpridas. Isto, muitas vezes, têm sido questões com o ordenamento do território, questões que não entraram no acordo da Santa Sé. Mas o governo chinês acabou por ser mais implacável com as comunidades do que era antes da assinatura deste acordo. Esperamos que a Santa Sé esteja atenta, preocupada e continue as conversações com o governo para que a comunidade seja respeitada e não seja perseguida desta forma.
 
Como é que olham para a questão na Turquia e no Nordeste da Síria?
Estamos a tentar, mas até ao momento não recebemos notícias do terreno. Olhamos com preocupação, porque a AIS tem começado um grande apoio para o regresso das comunidades cristãs para certas zonas da Síria. Mas este evento terá impacto sobre toda a população e a comunidade cristã também o sofrerá. Vamos ver o que a comunidade sofrerá, num país que não estava propriamente em paz, vivia apenas um tempo mais sereno.
 
Esta situação pode originar mais um êxodo?
Sim, sem dúvida. Todos os países vizinhos estão cheios de refugiados, e não se podem virar para lado nenhum, a não ser a Europa. Ninguém sabe bem o país de escape para estas pessoas, vamos ver como é que se desenrola.
 
Entrevista e fotos: Ricardo Perna
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