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Três tendas na montanha
08.08.2016
Neste tempo propício para as férias vêm à memória as passagens do Evangelho em que Jesus Se deseja retirar com os discípulos para descansar, sendo contrariado pela multidão que O procurava e seguia. Sentindo uma enorme compaixão por eles, que eram «como ovelhas sem pastor», Jesus começou a ensiná-los. Deus não vai de férias, costuma-se dizer às crianças no fim da catequese, para não faltarem à Missa durante o verão… A pregação e o testemunho do Evangelho também não têm horários. A proclamação da Boa Nova, com a palavra e a vida, além de obra de misericórdia, esgota o anúncio da revelação de Deus que Se quer dar a conhecer a todos em cada momento e lugar das suas vidas.
 
A Transfiguração do Senhor, que se celebra a 6 de agosto, encontra-se no Evangelho de Lucas num momento difícil para os Apóstolos. Terminada a pregação na Galileia, de parco êxito, antes da longa caminhada para Jerusalém, tendo como meta a cruz, Jesus questiona os discípulos: «“E vós quem dizeis que Eu sou?” Pedro respondeu: “O Messias de Deus.”» (Lc 9,20) Jesus logo acrescenta que iria sofrer muito, ser rejeitado, morto e ressuscitar ao terceiro dia. Segundo Mateus, Pedro quis impedir essas desgraças, mas foi duramente repreendido por Jesus. É neste clima de tensão extrema, alguma frustração e de uma intenção que desafia a interpretação humana e religiosa que Jesus sobe ao monte com Pedro, Tiago e João. O rosto e as vestes transfiguram-se na suavidade de uma brancura que irradia paz, aparecendo Moisés e Elias que dão testemunho d’Ele. Em estado de euforia, Pedro age de forma desmedida: «“Mestre como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas.” […] Não sabia o que dizia.» Mas percebe-se que era nessa montanha que queria permanecer em sublime companhia.
 
A voz do Pai, «este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O», devolve à labuta diária os três Apóstolos agraciados pela manifestação de Deus, que os quis preparar para os acontecimentos que Jesus anunciara.
 
Quantas vezes se é tentado, após longo desgaste de ansiedade e inquietação, medo e desmotivação, a fazer a tenda na montanha da tranquilidade e da paz proporcionadas por situações e pessoas de extrema generosidade e dedicação, alheios da realidade repleta de contestação, intriga e injustiça? No fundo, ficar longe dos lugares onde Deus pede que permaneçamos para sermos fermento que suscita a salubridade da vida evangélica. Se o Senhor nos concede momentos de paz é para nos transfigurarmos, com o retempero de forças, em seguidores de Jesus que retomou o seu “êxodo” para Jerusalém. Um percurso que é imagem do caminho do homem de cada época que, por entre sofrimentos, dores e alegrias da vida, recebe luz da palavra e do rosto do Filho obediente e amado por Deus.
 
Nada nos impede de encontrar a serenidade na poeira da faina missionária – Jesus encontrou-a até na derradeira oferta na cruz –, escutando e pondo em prática a palavra do Messias de Deus, que convidou os discípulos a serem sal da terra e luz deste mundo que, nas trevas da subversão de valores, “ignora os vizinhos” pobres, desempregados ou idosos abandonados, mas, como referiu recentemente o Papa Francisco, se preocupa com os animais, podendo fazer-se uma coisa sem descurar a outra. Onde o ensinamento dos valores que edificam e preservam a dignidade e a própria vida são escamoteados, para prevalecerem ideais minoritários, dissimulados em resoluções facilitistas e preconceituosas nas áreas mais e menos comuns da nossa vida, da saúde à economia, do ensino à política, com amplo espaço e poder nos media decisores e decisivos da posição do fiel da balança da opinião popular.